sexta-feira, 27 de novembro de 2009

Povos e Costumes Exóticos


A ida ao norte do Vietname foi uma boa ocasião para recordar os idos de Julho de 1972.
Estava em Águeda, de férias, e fazer percursos entre o Soto Rio e a Pateira de Fermentelos e entretinha-me a coleccionar cromos dos Jogos Olímpicos de Munique e de uma série chamada "Povos e Costumes Exóticos". Já não tenho uma ideia exacta de quais eram os povos contemplados na antropológica colecção, mas, ou por sugestão de viagem, ou por recordação precisa, quase consigo assegurar que alguns dos grupos contemplados na colecção foram aqueles que vi aqui, num terreno quase encostado à fronteira chinesa. Para se chegar a Sapa, vindo de Hanói, tem-se uma viagem nocturna de comboio (cerca de 9 horas e meia) a que se adiciona mais 1 hora por estrada. O local, em si mesmo, não é mais do que uma sucessão de lojas, restaurantes e hotéis de todos os tipos, mais um mercado e uma igreja, mas é a porta para a exploração dos habitats de algumas das minorias étnicas vietnamitas que fazem, do contacto com os turistas, o seu modo de vida. Tentam vender um pouco de tudo e lá vão falando inglêse francês, geralmente de melhor qualidade do que o exibido por muitos dos guias. As roupagens e as casas distinguem mais cada grupo do que as suas características físicas, embora, para todos aqueles que têm formação na área das ciências sociais fique sempre a ideia que há ali um pouco de invenção da tradição, para turista ver e ficar fascinado. O fascínio é também aqui correlato da ignorância ou do desconhecimento. Invariavelmente, a admiração é maior em norte-americanos e europeus do norte do que em europeus do sul, Os mais velhos destes, lembram-se ainda bem do que eram as aldeias nacionais há 40 anos e não ficam estarrecidos perante fornos a madeira, máquinas de coser a pedais, noras e alcatruzes, chãos de casa em terra, telhados em palha, panelas de ferro e por aí adiante. Mesmo sem o efeito surpresa, há que dizer que a descida de Sapa para estas aldeias tribais é um excelente exercício, não só físico (sempre são uns 7 ou 8 km), mas também cultural. As crianças são o elemento mais visível, frequentemente às costas umas das outras - as de 7 transportam às costas as de 1 ou 2 e vão tentando vender umas pulseiras ou carteiras de pano aos turistas que passam. Grandes e pequenos, têm na boca três perguntas sacramentais - uére yu fron? uats yó neime? Bái someting frómi? Por vezes, vão mais longe e perguntam por mulher, filhos e idade. Os campos cultivados em socalcos são abundantes em arroz e milho e, por todo o lado, deslizam patos e galinhas, porcos chafurdam e búfalos esperam pela nova época de cultivo, momento em que serão chamados a desempenhar os seus serviços de trabalhadores forçados. Entre pontes de corda e madeira, quedas de água, nevoeiro espesso, temperaturas na ordem dos 10-12 graus e caminhos empedrados cortados por riachos, lá fui contactando com os locais, visitando as suas casas para um chazinho de boas vindas (onde se tem de por de parte a tendência natural dos ocidentais para a limpeza) e inteirando-me dos porquês de algumas casas não terem janelas (não deixam entrar os maus espíritos) ou terem disposições particulares. Tive ocasião de fotografar dezenas de crianças e visitar as suas escolas, onde entusiasticamente cantam temas tradicionais e aprendem a fazer as suas contas e, para minha grande satisfação, fui amavelmente recebido por gatos, pequenos e pequeníssimos que vieram sempre ter comigo para umas festas que os consolaram a eles e a mim. Alguns, ronronaram deliciados perante as minhas festas e presumo que seja uma experiência a que não estão muito habituados. Os gatos nas aldeias vietnamitas são preservados por serem bons auxiliares no combate às pragas de ratos que podem dizimar as colheitas. Sapa vale bem uma visita, quanto mais não seja para recordar as raízes dos meus interesses antropológicos.

sexta-feira, 20 de novembro de 2009

A verdade e o agente laranja




É impossível falar de Saigão (Ho Chi Minh city) ou do Vietname, sem falar da guerra que dominou a história deste país ao longo de metade do século XX. Do mesmo modo, não é possível ignorar o fervor nacionalista dos vietnamistas ou a sua veneração pelo pai fundador. Todos os tours de Saigão começam ou incluem a visita ao museu dos crimes de guerra, perpetrados principalmente pelos americanos, mas também pelos franceses, antes da sua derrota histórica em Dien Bien Phu. A unilateralidade dos relatos da guerra ou a referência à "verdade dos facctos" não surpreende. Aquilo que causa estranheza é estarmos habituados a que esta releitura da história, com a sua limpeza das incoveniências, omissão dos erros e exagero de registos, seja feita por norte-americanos e outros ocidentais. Mas se atentarmos um pouco, as operações de releitura da história que formatam a realidade são sempre executadas pelos vencedores e pelo pêndulo da opinião pública. A guerra do Vietname foi a primeira machadada no sonho americano de potência imbatível, como Porto Arthur, em 1905, tinha sido a primeira manifestação de uma potência asiática capaz de derrotar um potentado europeu. A verdade dos factos não reside na utilização do agente laranja ou do napalm pelos americanos, mas na sua divulgação, com a concomitante omissão de outros tipos de crimes. A I Guerra Mundial foi reeescrita pelas mãos de quem a venceu, com uma atribuição única de responsabilidades aos vencidos dos Impérios centrais. Os crimes de guerra do segundo conflito mundial foram julgados em tribunais especiais, mas envolveram apenas derrotados, passando-se uma esponja sobre Dresden, Hiroshima, Berlim ou os campos de concerntração para americanos de origem japonesa. A história é feita pelos venccedores, da mesma forma que a justiça é a sua moral e o ressentimento é a moral dos vencidos. A Saigão falta-lhe o tom decadente, deliciosamente corrupto e moralmente repreensível que fez dela a grande cidade da guerra e espaço de todas as histórias. A Saigão de hoje é um não evento, algures entre uma cidade socialista a despontar para os encantos do capitalismo e uma velha senhora colonial que se quer desfazer dessas heranças comprometedoras. Esperava algo diferente de Saigão, mas encontrei motas, motas, bicicletas e motas, a que se soma uma população que, pela sua simpatia (!) pode ser considerada uma espécie de República Checa do Sudeste asiático. Tal como os seus congéneres de Praga, os habitantes de Saigão parecem não morrer de amores pelos estrangeiros e turistas e a arte da hospitalidade não se desenvolveu muito por estas bandas. Entre mercados e pagodes, museus e relatos de guerra, avancei decidido. O mais interessante da visita foi o avivar das recordações que tinha do final da guerra, com a entrada de blindados no palácio presidencial do sul, pondo assim efectivamente fim à guerra. Apesar de, nessa altura, as atenções dos portugueses estarem concentradas na revolução nacional em marcha, recordava perfeitamente a fachada do palácio do governo de Saigão e a saída dos dignitários que não tinham ainda fugido do país. De alguma forma, as imagens eram semelhantes às da entrada dos barbudos de Fidel em Havana na passagem de ano de 59. A visita ao palácio é um momento para uma sessão mais de propaganda de um regime que se mantém firme nas convicções e na retórica comunistas, mas que, na prática, caminha de braços abertos para as delícias do mercado, onde já nadam os seus vizinhos do norte. Em boa verdade, o Vietname está próximo cultural e linguisticamente da China e cabe afirmar que se trata apenas de um grupo que se estabeleceu a sul do potentado do Império do Meio e acabou por se expandir para sul, integrando a pouco e pouco territórios que fizeram parte do grande império khmer. Saigão, ela mesma, foi cidade cambodjana até há pouco tempo e muitos dos habitantes do sul do Vietname, são etnicamente khmers ou aparentados a eles. A herança francesa é visível sobretudo na escrita, nalgum catolicismo residual e numa certa arquitectura que ainda subsiste nalguns locais da cidade. Tudo o resto parece perdido e dá bem mostras da difereça de capacidade entre o sistema colonial britânico e todos os outros. Em 100 anos de Hong kong, fruto de uma ocupação no mínimo vergonhosa (resultado da guerra do ópio), os britânicos deixaram língua, instituições, cultura e rituais. Em 500 anos de Macau, os portugueses pouco deixaram em Macau e, em 100 anos de Indochina, pouco permanece da herança francesa. Os Vietnamitas têm uma noção clara de serem uma potência regional que, na prática, exerce um poder decisório sobre o Camboja e condiciona as políticas regionais.

Ding Dong Obama Show




Banguecoque foi a divisão entre as duas partes da minha viagem, separando o mês indiano do mês indochinês. Limitei a minha estada na capital tailandesa a três dias e não me arrependi de o ter feito. A cidade vale uma visita, mas falta-lhe um toque qualquer que permite distinguir as cidades bonitinhas das fascinantes. Tem, é verdade, os traços genéricos das grandes cidades asiáticas que as transmutam de sapos diurnos em princesas nocturnas, por obra e graça dos néons à la Blade Runner. Tal como as pouco atraentes Singapura ou Tóquio, também Banguecoque conquista uma certa aura quando o sol desaparece e as luzes dos placards publicitários se iluminam. Quanto ao resto, a cidade é um enorme mercado, onde tudo se pode vender ou comprar e onde somos bombardeados permanentemente com estímulos de compra. Os preços são baixos e os shopaholics encontram aqui um lugar de perdição. O calor imenso não nos deixa esquecer o quão próximos estamos da linha equatorial e andar no meio do trânsito é um pequeno suplício. Desde que se aterra em Banguecoque até que se levanta voo, existe uma imagem tutelar que não pode ser ignorada por ninguém - o rei. O rei é uma espécie de Torre Eiffel - vê-se em todo o lado e por todos os lados. Não há como escapar a esta figura de ar eternamente jovem, cujas fotos de há 40 anos se parecem estranhamente com as de hoje. Pensei mesmo em perguntar se o rei descobriu o elixir da longa vida ou se fez um pacto diabólico, à maneira do Dorian Gray, mantendo-se jovem para todo o sempre. As fotos do rei são geralmente acompanhadas por cartazes encomiásticos que referem o quanto os seus súbditos se encontram reconhecidos pelos trabalhos do soberano. As críticas ao rei são mais raras do que os títulos do Leicester e o papel por ele desempenhado nas crises políticas é escamoteado pela imprensa e pelos principais agentes políticos. Deste modo, levanta-se um coro de indignação perante a recusa do Camboja em extraditar o antigo primeiro-ministro tailandês, condenado por corrupção, num processo que muitos observadores internacionais consideram duvidoso. Coro este que subiu de tom, logo quue se soube que o governo cambojano nomeou o trânsfuga conselheiro económico dos ministros khmeres. Deixemos então o nosso amigo rei e passemos aos súbditos. A Tailândia é um país de gente simpática e risonha (por isso é apresentado como o país dos sorrisos), mas os taxistas constituem uma notável excepção - são carrancudos e paarecem estar mal com o mundo. Costumo dizer que se conhece uma cidade quando se percebem as duas classes mais emblemáticas que nela habitam - taxistas e prostitutas. Os primeiros medem o nível de ressentimento de uma cidade e permitem perceber quem são os grupos alvo da raiva, da inveja ou da maledicência. As segundas, e falo de prostitutas de rua e não de escort girls (que são iguais em todo o lado) aferem o ritmo, a escala e o movimento das cidades e marcam os trends dos bairros e dos mercados. Não sei se a minha intuição corresponde à realidade, mas não deixa de ser veerdade que, em Banguecoque, estes parecem ser os grupos mais visíveis. Depois de uma viagem longa pelos canais da cidade e pela observação dos mercados aquáticos, resolvi passar para coisas mais directamente turísticas como entrar num show de cobras (venenosas e não venenosas), tendo o prazer de contactar directamente com uma das amiguinhas a quem tinham extraído previamente o veneno. Recusei ser fotografado com a dita não porque fosse caro, mas por achar que era um ultraje enganar os observadores. Não há coragem nenhuma em agarrar um animal a quem retiraram a arma letal e ser fotografado assim, equivaleria a meter a cabeça na boca de um leão desdentado ou lutar com um urso sem garras. De seguida, passei por vários mercados e templos, mas nenhum particularmente interessante. O número de ocidentais de meia-idade (leia-se acima dos 60) que viajam sozinhos é enorme mas, logo que chegam, é ver milagres de fazer inveja à Igreja Universal do Reino de Deus e demais seitas evangélicas. Trôpegos, cambaleantes, descontentes com a vida, macilentos, duros de ouvido e quase cegos, coxos, plenos de artroses e parkinsonados ganham nova vida assim que caminham por Silom ou Sukhumvit. De um lado e de outro, saltam ao seu encontro jovens tailandesas que, com uma pequena festa, os curam mais rapidamente que o bispo Edir Macedo nos seus melhores dias. E depois, bem, depois é vê-los rejuvenescer 20 anos e passear de mão dada com as ninfetas que os conquistam e lhes trazem um sorriso aos lábios. Ao meu lado, num Starbucks de Sukhumvit, uma inglesa virava-se para o marido e mostrava-se indignada com aquele espectáculo degradante e referia a triste figura desempenhada pelos (tidos) por fleumáticos britânicos - "como é que eles podem acreditar que elas gostam deles - eles têm idade para ser avôs delas". Escapa à senhora que eles sabem perfeitamente o que fazem e o que elas sentem, mas que importa? Por um momento, um momento só, regressam ao passado e, pela primeira vez, em muitos anos, conquistam, é certo, em libras, uma pequena manifestação de afecto e saciarão a fome de pele a que a solidão condena tantos. Bnguecoque é uma cidade com esse condão de reverter o tempo para velhos caquéticos oou não que, mesmo sem o Viagra de contrabando que aqui se vende por todo o lado, recuperam os sonhos viris de outras eras. É impossível passar por esta cidade sem referir a presença avassaladora do sexo. Se a Índia é a terra dos corvos, boa metáfora para lixo reciclado e morte regeneradora, Banguecoque é a cidade que respira sexo por todos os poros, mas num ambiente curiosamente casto e moralista. É como se a cidade vivesse em dois campos paralelos que caminham lado a lado sem nunca se tocarem ou quererem saber um do outro. Muitas das prostitutas que circulam em Banguecoque são, no entanto, o que por aqui se chama ladyboys, ou seja travestis. Estes têm invariavelmente corpos mais esculturais e pernas mais longas e perfeitas que qualquer uma das suas colegas femininas. Não se pense, de qualquer forma, que o super-mercado do sexo é apenas abastecido por criaturas locais. É fácil encontrar filipinas, indonésias, chinesas, mas também russas e até nigerianas. Em face deste cenário, impunha-se uma visita à emblemática Patpong Road, que na verdade é mais um pequeno bairro do que uma rua, para observar in loco, o negócio em todo o seu esplendor. Logo à chegada, percebe-se de onde vem o maior número de consumidores - os letreiros e os restaurantes não deixam dúvidas, tudo está escrito em japonês e as saudações de boas vindas são todas proferidas em nihon-go. Se os restaurantes e bares não esclarecessem o assunto, uma simples observação da indumentária das jovens em espera, tiraria qualquer hesitação. O cosplay é aqui a regra e as meninas vestem-se de colegiais nipónicas, de enfermeiras e de hospedeiras, três grupos que são um must fetichista em qualquer parte do mundo, mas que em terra do sol nascente, atingem um patamar estratosférico. Depois de ter sido convidado por uma jovem com ar de estar em início de carreira para passar um bom momento e me assegurar que "I'll take good care of you sir!" e de vários angariadores me garantirem uma hora mágica com a melhor massagista de Patpong e, em caso de necessidade urgente, 2 pílulas de Cialis, a preço da chuva, resolvi seguir para o centro do negócio - um mercado nocturno onde as ourivesarias vendem preservativos (o que me pareceu muito adequado) e o bares de go go dancers são mais que muitos. Comecei a perceber que ali se vende gato por lebre quando reparei que os angariadores de massagens anunciavam cada um a sua massagista, mas a fotografia era sempre a mesma!!! Já me preparava para abandonar o local, quando da esquerda e da direita me foi sugerid0 à boca pequena um surpreendente "ding dong Obama show". O nome era sugestivo e uma vez que o Obama se encontra em tour pelo sudeste asiático, pensei que se tratava de uma encenação alusiva à vinda do novel presidente americano. Quanto ao ding dong confesso não ter conseguido imaginar do que se tratava, mas fiquei atraído pela proposta. Depois de entrar num normal bar, onde as raparigas dançam (!), em biquini, à média luz agarradas a um varão e com movimentos entre o lânguido e o risível, fui escoltado para o espaço do referido show. Não demorou muito tempo até ter percebido com as aterragens e levantares de voo sucessivos me deixaram um pouco para o surdo. Oh meus amigos é que nem ding dong nem Obama - a coisa era mais ping pong e banana show. Dispensando a parte mais hardcore da coisa, digamos apenas que percebi o porquê de os orientais ganharem todos os campeonatos de ténis de mesa. O treino deve ser intensíssimo para serem conseguidos tais resultados. As mesa tenistas em causa não necessitam obviamente de raquete, mas exibem uma qualidade de jogo que faz o júbilo da assistência, havendo alguns mesmo que respondem ao serviço, reenviando a bola para a sua origem. Quanto à banana, penso não serem necessárias explicações adicionais. Assim, muito mais instruído que que o antigo bispo de Braga, D. Eurico Dias Nogueira, após ter visto na TV o Império dos Sentidos, retirei-me, via Sky Train, para o meu hotel, pensando como é diferente o desporto na Tailândia.

quinta-feira, 12 de novembro de 2009

Dilúvio no Coromandel




Sempre que viajo, tenho tendência para apanhar umas chuvas fortes. Foi assim em Pequim e, sobretudo em Praga, onde presenciei uma das maiores cheias dos últimos 50 anos. Para não fugir à regra, os meus últimos dias na Índia foram, no mínimo, molhados. A transição de Kerala para Tamil Nadu foi acompanhada por uma mudança radical nas condições atmosféricas e, durante uma semana, a minha rotina foi ver templos e assistir a chuvadas monumentais, seguidas de inundações. O mau tempo, provocado pela monção do Nordeste que desce até ao sudeste da Índia, foi responsável por algumas dezenas de mortes e por destruições várias e só não provocou mais desalojados porque estamos na Índia e os mais afectados já não possuem alojamento propriamente dito. Se em Kerala são raros os templos hindus que se podem visitar, o mesmo não se pode dizer de Tamil Nadu, onde existem vários onde se pode entrar gratuitamente, embora haja sempre um guia (que por vezes também é sacerdote hindu) que procura um fee para dizer o óbvio e falar das histórias das várias encarnações de Shiva ou do casamento deste com Parvati ou ainda dos filhos que tiveram. As narrações repetem-se, mas são sempre ditas com alguma graça e partem do princípio que os ocidentais são completamente ignorantes a respeito da história indiana ou da sua mitologia particular. Os templos que foram o meu refúgio da chuvaa e das intempéries não me inspiraram profundamente. Se a primeira impressão da arquitectura do período Chola pode ser de deslumbre, rapidamente se torna cansativa e confesso que apreciei mais a arquitectura do norte. Tal como acontece com a arquitectura barroca europeia, não aprecio nos templos do sul da Índia, o excesso de ornamentação e a redundância de formas. Tudo parece exagerado, demasiadamanete colorido e enfeitado. O que lhe sobra em floreados, falta-lhe em elegância. Durante uma semana percorri Madurai, Trichy, Thanjavur, Chidambaram, Mahabalipuram, Kanchipuran e Chennai e, apesar do carácter fragmentado da visita, deu para perceber a riqueza da aposta indiana em duas áreas fundamentais -a saúde e a educação. Todas as cidades, pequenas ou grandes, ostentam vários hospitais, muitas das vezes dedicados a especialidades como a medicina óptica ou o cancro e entre as cidades proliferam os campus universitários, com uma ênfase particular nas ciências exactas. Por outro lado, se viajarmos entre as 8 e as 10 da manhã ou entre as 4 e as 6 da tarde, as ruas estão pejadas de crianças, jovens e adolescentes, todos exibindo imaculadas fardas de múltiplas cores, mas onde o branco prevalece, que se dirigem às suas escolas a pé, de bicicleta, de moto ou de autocarro escolar. Muitos caminham descalços, mas todos parecem experimentar uma genuína satisfação ou alegria por poderem ir para as suas escolas e colégios. Embora a população cristã não seja percentualmente grande, não deixa de ser verdade que possui um peso desproporcionado na condução das matérias escolares e existe uma grandíssima quantidade de escolas que dão pelo nome de São Jorge, São Tomás, Virgem disto, Virgem daquilo, o que dá bem a ideia do papel que os vários núcleos cristãos têm assumido em questões educativas, especialmente no que respeita ao ensino feminino. A avaliar pela alegria das crianças no seu caminho escolar, pode bem ser que a Índia esteja à beira de uma evolução sem paralelo nos seus níveis de escolaridade e que a sua entrada em grande no século XXI esteja à porta. Pela parte que me toca, ainda bem que há quem leve a escola com um sorriso nos lábios, pois, para mim, foi sempre pouco menos do que um suplício e um espaço onde me aborrecia de morte. Se há recordações de infância e de adolescência que me dão calafrios são a ida matinal para a escola e ter aulas de algumas disciplinas (como os trabalhos manuais ou oficinais). Ainda hoje me lembro do suplício das segundas e quintas-feiras, onde tinha de fazer trabalhos em barro ou tecer em fada do lar - yuk. Deve ser daí que vem a minha tendência paraa estudar as formas do nojo. Não havia nada mais repulsivo do que as aulas de Trabalhos Manuais e de desenho que me deixavam fisicamente mais agoniado do que um cruzeiro pelos mares da Tasmânia. Quanto a Chennai e Kolkata, os meus últimos destinos na Índia são duas cidades de grande dimensão, mas totalmente diferentes. Chennai estende-se em torno de uma bela marginal que, nas mãos dos nossos vizinhos espanhóis, se tornaria rapidamente num dos maiores destinos turísticos mundiais (tal é o seu potencial) e possui imponentes edifícios vitorianos, nomeadamente estações de caminho de ferro) que são uma das heranças do Raj. o contrário de Mumbai que tendencialmente encapsula a pobreza e a miséria, Chennai é mais ostentatória e é fácil ver como a pobreza constitui o cenário dominante. Tive muito pouco tempo para me aclimatar à cidade porque a chuva era torrencial e quase não consegui sair do hotel. Quanto a Kolkata, a mais importante cidade de Bengala ocidental, e antiga capital do Raj, é uma cidade que mostra muitas das características de uma cidade destinada a dominar e marcar a sua posição - abundam os edifícios símbolo e marcadores de território que são um modo de ostentação de poder. As marcas da governação do Lorde Curzon são evidentes por todo o lado e não se limitam ao Victoria Memorial. É uma cidade vibrante, plena de comércio e possui o barulho típico da Índia, cruzado com as avenidas largas de cidade meia planeada. É a única cidade indiana que visitei que ainda possui a sua secular linha de eléctricos e os passeios podem ser percorridos a espaços, ao contrário do que acontece na maior parte dos outros lugares e lugarejos indianos, onde são invariavelmente transformados em urinóis públicos. Aliás, em Kolkata são muitos os pay for use toilets, que dão mostra de uma maior preocupação com a transformação do espaço público em esgoto a céu aberto. Despedi-me da Índia com a pena de ter perdido uma semana de viagem, devido ao mau tempo, mas fica prometido um post só com as minhas impressões indianas gerais.

sexta-feira, 6 de novembro de 2009

Entre Machos e Vikings





Depois do meu condutor de seis dias, o mais simpático e jovial indiano que conheci, me ter feito o tour de Kochi - na verdade dois porque a cidade está dividida entre Ernakulam e Fort Kochi - fiquei ainda mais convencido que Kerala é o Estado mais agradávelda Índia que já visitei. As cidades são mais limpas e harmoniosas que as suas congéneres do norte e as pessoas mais sorridentes e menos pressionantes para turistas. Como é de bom tom fui percorrendo os espaços de influência portuguesa, incluindo um desinteressante forte que passou para os holandeses durante o século XVI e a igreja de São Francisco, local onde Vasco da Gama foi sepultado antes da trasladação para Lisboa. Lá está tudo explicadinho, com referência aos Jerónimos e à Torre de Belém. A igreja estava toda engalanada e decorria um casamento no seu interior. A noiva tinha um ar assustado e o noivo apresentava uma expressão de “tirem-me deste filme”, mas à porta da igreja aguardava-os um resplandecente Hyundai, uma das marcas mais vistas por terras indianas, juntamente com o dominante Tata e com os Suzuki produzidos em colaboração com uma fábrica indiana. Depois das igrejas de Fort Kochi que são mais que muitas ainda tive oportunidade de observar as tradicionais redes de pesca chinesas, manobradas a braços e alavancas e que dão um espectáculo diário a quem passa, dirigi-me a uma língua de areia que recebe o pomposo nome de praia de Fort Kochi. As águas não são muito limpas e, embora a temperatura da água do mar Arábico seja convidativa, não será o lugar mais recomendável para banhos. Depois de um retemperador almoço de camarão tigre, segui para Ernakulam, a zona de Kochi onde se desenvolve o projecto de um novo porto e onde existe uma base naval importante. Também desse lado da cidade se encontra uma bela marginal de 2 km que não é tão impressionante como a de Mumbai, mas é bem organizada. A visita ao mercado permitiu-me confirmar que Kerala voga entre as igrejas cristãs e os cartazes de campanha dos vários partidos comunistas. Desde os idos de 75 que não via tantas imagens dos camaradas Marx e Engels e do inefável pai dos povos - o camarada Staline, de tão boa memória. Os cartazes do PCI são no entanto afogados pelos do sindicato comunista que se encontram literalmente em todo o lado. Na verdade, houve uma altura que para passar o tempo da minha jornada automobilística resolvi organizar uma competição entre bandeiras do sindicato CITU e templos cristãos, mas rapidamente desisti porque o embate já ia com um resultado na ordem das centenas para ambos os competidores. As imagens dos nossos camaradas são vistas em cartazes, desenhos, decalques, demonstrando uma enorme riqueza de semblantes, mas sempre com respeito pelo cânone. Também por aqui existe um PC (ml), mais uma achega para o meu saudosismo, e não é que o líder partidário possui um bigode que lembra muito o grande educador da classe operária e do povo trabalhador em geral, o camarada Arnaldo Matos. Trata-se até de um bigode muito socialista que se afasta do modelo bigode indiano que todo o homem que é homem usa por aqui. Os bigodes indianos, ao contrário dos portugueses, que murcham e definham (como no sketch dos Gato Fedorento) estão vivos, pujantes e recomendam-se. Mesmo os actores de cinema destas paragens não dispensam este apêndice capilar que os mostra mais viris e convincentes. Isto apesar dos homens de Kerala vestirem uma saia tradicional e eu ter alguma desconfiança de homens com saias (já não bastavam os escoceses). Pois bem, as saiais e os bigodes não retiram, no entanto, as preocupações aos indianos que se têm vindo a render a modelos de vestuário íntimo mais moderno e que são anunciados abundantemente nos outdoors que proliferam por todas as estradas do país. A roupa íntima masculina não deixa dúvidas sobre o que pretende - as marcas mais vistas dão pelo nome de “Macho” e “Honk” e existe mesmo outra marca de roupa que não se circunscreve às simples trousses, cuecas ou slips, que se chama Viking. Ora bem, entre machos latinos e loiros escandinavos, lá vão os indianos marcando a sua virilidade que, ao abrir a televisão, se vê profundamente abalada pelas mulheres (o sistema matriarcal é dominante em Kerala) e pelo seu comportamento. Os homens começam sempre por ameaçar ou dar tareias reais, mas acabam sempre a levar que contar. Deve ser por isso que as cuecas têm os nomes que têm e talvez seja essa também a razão para tantos anúncios de rua para clubes de musculação - um homem prevenido com cuecas macho e musculado no ginásio Arnold (Schwarzenneger) está aí para as curvas. O mercado é enorme e pode-se encontrar literalmente um pouco de tudo e a preços que são invariavelmente baixos. Depois de mais uma passeata por lojas e tendinhas, dirigi-me para a praia mais importante da região e que se estende por mais de 10 km. É uma praia magnífica que não fica a dever nada às de Goa, mas que não tem praticamente ninguém e poucas infra estruturas turísticas. Acredito que em meia dúzia de anos o cenário se altere radicalmente e a especulação imobiliária se instale. Fiquei cerca de duas horas sentado na areia e à medida que o sol descia iam chegando famílias indianas para molhar os pezinhos. Alguns homens arriscam o mergulho (com as suas saias brancas vestidas), as mulheres e as raparigas (integralmente vestidas) deixam a água subir até à cintura e os rapazitos lá se banham mais à ocidental. Depois do sol se pôr, é uma corrida para casa e tudo fica deserto. Como era o último dia com o meu condutor e tinha de ficar à espera do comboio para Madurai às 23.30, aceitei de bom grado o seu amável convite para jantar em casa da mãe. Embora um pouco envergonhado pela pobreza da casa, decidiu mostrar-me o sítio onde vivia e que consistia numa pequena cozinha e em duas divisões sem praticamente nenhum móvel. O quarto dele, onde se instalou uma pequena mesa para jantarmos, não teria mais que uns 6 metros quadrados e tinha como recheio um divã. Ao pai, à mãe e ao irmão, juntaram-se vários vizinhos que vieram contribuir para o jantar do convidado estrangeiro e tive o gosto de usufruir da extraordinária amabilidade e hospitalidade daquele grupo de vizinhos. Como o meu condutor não se esqueceu de dizer, em Kerala todos se dão bem, independentemente da religião. Um dos vizinhos, que vive também numa pobre habitação, possui um mestrado em economia, mas não conseguiu emprego compatível e faz agora alguns biscates. A população de Kerala tem as maiores taxas de escolaridade de toda a Índia e é a grande fornecedora de trabalhadores mais ou menos qualificados para os EAU, especialmente para o Dubai. O jantar foi um belo caril de lulas, bem condimentado, e um guisado de borrego extremamente saboroso. Depois de me despedir dos simpáticos vizinhos fui guiado até à estação de Ernakulam, onde me despedi com alguma emoção deste rapaz que conduziu o Tata Indica nos limites do praticável mas que, acima de tudo, se revelou um bom amigo. À despedida, e depois de colocar a minha mala no comboio, ofereceu-me uma estatueta de Lorde Ganesha, o deus de cabeça de elefante, que abençoa os novos empreendimentos, pedindo-me que a colocasse num lugar importante da minha casa. A viagem para Madurai não teve história e desta vez não fui visitado por nenhum amigo roedor e as osgas, que tinham sido companheiras de todos os hotéis da passada semana, também não apareceram, provavelmente por a temperatura ambiente não ser convidativa para seres reptileanos se sangue frio. Quase todos os passageiros iam recorrendo a um cobertorzinho de lã para se abrigarem do ar condicionado que vomitava ar frio. À chegada a Madurai alojei-me num hotel semelhante a todos os outros onde tenho pernoitado e que têm como pior característica as casas de banho, onde o chuveiro não possui compartimento próprio o que causa verdadeiras inundações sempre que acabo as minhas abluções. Mais uma vez, o banhinho foi frio, mas recuperador de energias. A volta por Madurai foi rápida, mas deu para ver duas das mais magníficas obras de toda a Índia - o templo de Minashki Sundareshvara e o Palácio de Thirumalai Nayaka. O primeiro é um complexo de templos dedicados a Shiva e à sua esposa Parvati que em Tamil recebem os nomes de Sundareshvara e Minashki. Os templos originais com 3 mil anos foram sendo rodeados por novas construções, adquirindo a forma contemporânea, ao longo de gerações. A obra teve o seu final no século XVIII e vale a pena uma visita demorada. Algumas das torres portais piramidais elevam-se a mis de 50 m e exibem uma decoração exuberante quer na forma quer nas cores. Quanto ao palácio, embora seja apenas uma parte da construção original do século XVII e resultado das obras de conservação empreendida no século XIX por Lord Napier, possui uma arquitectura belíssima e alberga um interessante espólio arqueológico. Infelizmente, só pude visitar uma parte porque as galerias superiores estavam a ser usadas para filmagens de mais um sucesso da cinematografia indiana. O dia estava chuvoso e tive de percorrer todo o templo como penitente descalço, o que não era grave não fosse o facto de os meus pés branquinhos parecerem os únicos que estavam cobertos pela lama do caminho. Por onde passava, lá vinham uns risitos testemunho do vivo contraste entre a minha pele e a terra molhada. Amanhã, bem cedo, partida para Trichy.

O Salazar não gostava de fruta tropical





Escrevo esta entrada do blog numa casa barco, a observar o entardecer, rodeado de palmeiras e coqueiros e com o som dos corvos, mas também das galinhas, em fundo e com alguns mirones a tentar perceber o que é que estou a fazer junto à proa do barco. Depois da corrida de avião, vindo de Goa, a minha chegada a Kerala, um dos estados mais meridionais da Índia, juntamente com Tamil Nadu, com o qual faz fronteira, foi calma, tendo-me albergado num hotel de Kochi que já conheceu certamente melhores dias, mas que tem uma bela posição junto ao rio e a sua piscina faz lembrar sítios mais selectos, dedicados à high society. De qualquer forma, não cheguei a aquecer o lugar e ala que se faz tarde, em direcção a Munnar, uma espécie de estância alpina, em pleno estado de Kerala, mas a tocar Tamil Nadu e integrada numa das zonas de reserva natural dos Gates Ocidentais, a cordilheira com os montes mais altos a sul dos Himalaias. À medida que se percorre o caminho entre Kochi e Munnar, a paisagem vai mudando significativamente, especialmente por causa da altitude. As plantações de ananás, árvore da borracha, arroz, café e cardamomo cedem o seu lugar ao omnipresente e dominante chá que os ingleses souberam impor durante o século XIX e que tornaram quase numa monocultura das terras altas que têm a temperatura e a humidade necessárias à produção das folhas mágicas que entram em cena às 5 horas em ponta, graças aos contributos da tal infanta portuguesa que levou Bombaim no dote. Após a independência, a Índia resolveu apostar na continuidade e as plantações de chá transformaram-se num tapete verde que, à distância, parece ser um campo relvado. Esta parecença deve-se não só à verdura das folhas (especialmente nesta época de colheita), mas também à pequena distância entre arbustos (o que dá uma imagem compacta às plantações) e à pequeníssima altura de cada arbusto, não mais de 70 ou 80 cm. Esta pequenez não é natural, antes sendo fruto de trabalho humano que reduziu, por manipulações várias, árvores que podem chegar aos 15 metros em arbustos de pequena dimensão. Estamos ao nível de verdadeiros bonsais de chá. As plantações ocupam milhares de hectares e faz impressão imaginar como é que os trabalhadores rurais são capazes de escalar declives que não raramente superam os 30 graus e a altitudes de mais de 1000m e com escarpas assustadoras. Tendo em conta que uma das razões para a redução do tamanho das árvores foi o perigo da escalada para a recolha das folhas, convenhamos que o trabalho não passou propriamente a um passeio no parque. O aspecto é, no entanto, magnífico e os nossos olhos deleitam-se com a quantidade de verde. Como se trepa até mais de 2000 m, a temperatura também é mais agradável, pelo menos para os meus padrões, já que indianos e demais turistas já faziam as escaladas de algumas destas montanhas com um belo cachecol, luvas, impermeáveis e protectores de orelhas. Por mim, lá subi o que havia para subir, com a roupa do costume - uma t shirt e umas calças leves porque os calções recebem quase sempre a mesma reprimenda que os chinelos - joelhos e pezinhos são para andar tapados. Se não vi nada de Kochi porque parti de manhã para Munnar, vi tudo de Munnar porque tem muito pouco para ver. É uma vilória simpática, mas muito pequenina, caracterizada por umas dezenas de lojas, alguns hotéis (propriedade de políticos do estado), muitos albergues e uma igreja católica de alguma dimensão. Todas as estradas de Kerala são um desfile de igrejas, conventos, capelas, nichos, centros de peregrinagem católicos, protestantes, ortodoxos e sírios. Não fazia qualquer ideia, mas 25% da população de Kerala é cristã, remontando aqui o Cristianismo não à chegada dos portugueses, mas à presença, não sei se mítica se real, do apóstolo São Tomé, correntemente conhecido pelo apóstolo das Índias. Estas igrejas e capelas que ocupam cada esquina da estrada e que se sucedem a um ritmo avassalador que faz parecer o Minho uma terra de ímpios, hereges e apóstatas., têm a notável característica de se diferenciarem claramente das igrejas de Goa. Se estas seguem o modelo canónico do colonizador e oferecem uma faceta barroca clara com algumas cedências ao clima, já as igrejas de Kerala (não importa se católicas ou ortodoxas) assumiram uma feição tão indiana que as cores e as formas fazem lembrar templos hindus e só um olhar atento às cornijas permite perceber que lá dentro está São Sebastião, São Jorge ou a Virgem Maria e não Ganesh ou Vishnu. A iconografia cristã casou aqui perfeitamente com o substrato hindu e, talvez por isso, tenha levado a conversões que surpreenderam os portugueses aquando a sua chegada a Calecute e depois a Cochim. A fusão é tal que algumas igrejas católicas impõem aos fiéis a entrada no templo sem sapatos à boa maneira hindu e muçulmana, sendo os locais de culto muito mais despojados do que os que encontramos noutras latitudes. Estamos aqui muito perto do equador e os níveis de calor e de humidade à altura do mar são muito elevados, não espantando, por isso, que colonizadores habituados a outros climas procurassem refúgio nas montanhas, onde os Verões são suportados e o ambiente está curiosamente próximo dos mundos insulares. Para os britânicos em missão na Índia, Munnar deveria parecer o paraíso na terra. Para além das plantações já referidas, Kerala produz também chocolate, a partir do cacau que aqui cresce e que é vendido um pouco por todo o lado. As bananeiras de vários tipos e os coqueiros são presença massiva nas zonas mais baixas. Um dos elementos positivos da minha chegada à Índia foi lembrar como as bananas podem ser um excelente fruto, doce e agradável ao paladar. Se há 40 anos, os portugueses se podiam deliciar com bananas de Angola e de São Tomé, após a descolonização passámos a consumir as insípidas bananas centro e sul americanas que sempre me pareceram uma imposição sem sentido. Já não bastava as Repúblicas das bananas, ainda temos que aturar as companhias americanas a venderem-nos gato por lebre. As bananas indianas são aliás tão pequeninas que não passariam as normas de calibragem da nossa União Europeia, sempre entretida em apostar que o maior é melhor. Mas aqui, como em tantas outras coisas, o pequeno é bem melhor e estou rendido ao paladar que julgava perdido desde a minha adolescência. Só espero que um importador misericordioso leia este apontamento e comece a importar bananas a sério e dar uma corrida à vergonha que é o domínio da infame Chiquita que só tem tamanho e nenhum paladar. Esta recordação induzida pelas pequeninas bananas indianas, fez-me também lembrar como a terrível mania de normalizar e tornar tudo igual, vai destruindo a diversidade. Cerca de 70 a 80% das espécies de maçãs existentes a nível mundial no início do século XX estão hoje extintas ou em extinção, em nome da produtividade e da calibragem. Que saudades das maçãs de Palmela com que me deliciava todos os anos em Sesimbra, que memórias agradáveis das suculentas e ácidas Casanova (ou será que era Casa Nova?). Esta ditadura que nos impõe comida sem gosto e sentimentos de violação de algum código sempre que nos banqueteamos com algo saboroso, tem longa tradição. Espero não sobreviver para presenciar uma sociedade em que a carne já foi banida, o café obliterado, o álcool condenado às trevas e os açúcares destruídos em praça pública. Mas já faltou mais!! Os Epicuristas têm sido demasiado brandos com esta cambada do politicamente correcto. Às malvas com a saúde e com as dietas, abaixo o insípido e o normalizado, viva o excesso e o empanturramento. Mas dizia eu que esta mania das proibições já vem de outros tempos. O Dom António de Oliveira Salazar (como é conhecido no museu arqueológico de Goa) devia ter qualquer coisa contra a fruta. Falo de fruta real e não daquela que o Pinto da Costa gosta e que oferece juntamente com chocolatinhos e café com leite aos árbitros da nossa Liga mais valiosa. Desta fruta julgava eu que o Salazar também não apreciava, mas a recente biopic da SIC fez-me ver a personagem com outros olhos. Ora, com tantas províncias ultramarinas nunca percebi por que é o nosso presidente do conselho deixava vir bananas, mas não mangas, papaias e outras delícias tropicais. Acho que estas últimas tinham um potencial subversivo enorme que escapava às bananas. Podem perguntar porquê, mas a resposta é simples. As bananas eram uma importante arma no combate ao socialismo e tinham por isso lugar na mesa de qualquer português sensato. Convém lembrar como os cidadãos da RDA ao atravessarem o muro tinham como principal preocupação comprar bananas, esse fruto que era tão importante no Leste como a liberdade. Ainda me recordo como da primeira vez que estive na Rússia, as bananas eram tão importantes que estavam numeradas. Perante a minha perplexidade, o meu amigo Yuri esclareceu-me - “cada número significa um peso e vais pagar a banana de acordo com esse peso” - a banana não era uma banana, era sobretudo uma especiaria tão importante como o açafrão. Se as bananas eram uma arma anti-socialista, já manga e a papaia eram frutos quase tão perigosos como a Coca-Cola. Os frutos podiam transmutar um país de brandos costumes num país tropicalista que, com os calores, se podia bem despir de preconceitos e demais benzeduras, a Coca-Cola podia colocar-nos na rota de consumismos delirantes e de drogas bem mais potentes. Por isso mesmo, cresci a comer bananas e a beber a saudosa Canada Dry, de boa memória, enquanto esperava pelo dia libertador em que pudesse beber a Coke. Quando pela primeira vez bebi a água suja do imperialismo yankee foi uma experiência de anti-clímax e cedo comecei a ansiar pelo regresso da Canada Dry. Deste anseio brotaram outros e quando dei por mim, já não eram só a Canada Dry e a Laranjina C, na sua bojuda garrafa e com a música do Tequila, que eu desejava, eram os Gallapiat (conhecidos em Portugal por Pequenos Vagabundos), o Daktari do adorável Clarence , o leão vesgo, o Skippy the bush kangaroo. Se o Salazar fez de mim um insatisfeito, a Coca Cola tornou-me num saudosista. A viagem na casa barco de Allepey foi um dos pontos altos desta minha travessia da Índia. A navegação é suave e feita ao ritmo descomprometido e relaxado dos habitantes de Kerala. Voga-se entre coqueiros, bananeiras, palmeiras e as aves são aos milhares. De um lado o lago, do outro campos de arroz recentemente inundados à espera de nova sementeira. As casas-barco são todas idênticas, embora o seu tamanho seja variável. Vejo passar as que acolhem três e quatro casais e as que possuem um double deck. A minha tem apenas um quarto e eu sou o único passageiro com uma tripulação que envolve o piloto e uma espécie de cozinheiro-mordomo que trata das restantes questões. O almoço é um peixinho suculento preparado à maneira de Kerala e o jantar será com lagostins acabados de pescar e comprados por mim a um pescador local que se chega ao nosso barco com a proposta - 900 rupias por 8 lagostins. Fez-se o negócio e o jantar foi de estalo e como se sabe a gastronomia é um elemento essencial da cultura dos povos. Um povo culto é um povo que come bem e tem uma rica tradição culinária. É por isso que ainda hoje fico intrigado pela construção do império britânico - como é que um grupo de comedores de fish and chips que não sabe distinguir comida de uma sola de sapato, foi capaz de erguer um domínio dobre parte importante do globo.

Adam’s Rib





O ponto alto da passagem por Munnar foi a visita ao parque natural de Erakulam, onde tive ocasião de escalar um dos picos até perto do topo e ver alguns (poucos) animais selvagens. Fiz a escalada em companhia de um indiano, de uma japonesa e de uma galesa. Se o indiano parecia estar como eu a fazer uma escalada de um parque natural, já as duas jovens pareciam ir a caminho do Nirvana e o êxtase místico passeava-se no seu rosto, só superado pelo frio que sentiam, fruto dos mais de 1800 metros do local. A galesa de Wrexham e a japonesa de Osaka tinham-se encontrado na Índia e descobrindo interesses comuns, decidiram-se pela ida para um Ashram na região. Explicava a galesa o programa das festas - levantar às cinco para as orações, depois sessão de yoga, pequenos almoço ligeiro, seguido de meditação e mais orações. Nesse momento, a japonesa virou-se para mim e proferiu esta frase assassina - “it must be wonderful, don’t you think?”Oh minha amiga, começar o dia às 5 da manhã e seguir para as orações é a minha ideia de felicidade. Escusado será dizer que desci a montanha rapidamente e em força, não se fosse dar o caso de ser convidado para integrar tão convidativa experiência. Mesmo assim, o autocarro que nos transportava à base demorou tanto que os meus companheiros conseguiram uma notável proeza de catching up que foi suficiente para a galesa me deixar o seu contacto de email (não vá eu ter um assomo de espiritualidade born again) e para a japonesa me perguntar se eu já estava “retired” e por isso com tempo para passeatas. Disse adeus ao Babu, à Hiromi e à Kate e fui à vida que isto de tanta espiritualidade cansa muito. A travessia da zona montanhosa de Munnar também me trouxe a percepção das disputas fronteiriças entre estados. Depois de cruzar belos lagos e barragens e de ver um ponto famoso pelos seus ecos, iniciei a subida para o Observation Point que marca uma vista belíssima sobre toda a região. Só que a chuva e o nevoeiro eram tantos que não se via nada a 10 metros quanto mais a 40 ou 50 Km. A parte mais curiosa da história reside no facto de os últimos 1000 metros da subida demorarem mais a fazer do que os 15 km anteriores porque o estado de Kerala considera que o pico é de Tamil Nadu e o estado de Tamil Nadu afirma que a responsabilidade é de Kerala. Perante tamanho impasse, a estrada fica por alcatroar e é um pesadelo percorrê-la. O estado dessas estradas motivou o meu amigo condutor a umas paragens estratégicas de sua devoção onde rezou a deuses hindus e a santos cristãos por protecção. Só não foi à mesquita porque não havia nenhuma no caminho. A passagem por Kerala deveria ter como um dos pontos principais de interesse a visita à reserva natural de Periyar e o possível avistamento de um grupo de tigres. Outrora abundantes nas florestas indianos, os mais imponentes felinos asiáticos estão agora circunscritos a uma meia dúzia de espaços protegidos. Disse deveria porque de facto não aconteceu. Foi a segunda desilusão da minha viagem, depois de não ter conseguido ir até ao Ras Musandam. Os tigres sempre foram o meu animal de eleição, mas nunca tive oportunidade de os ver onde devem estar - em liberdade. A impossibilidade da visita deve-se ao facto de a reserva ser apenas acessível de barco e de todos os passeios de barco no parque estarem suspensos até que sejam apuradas as causas de um acidente que aconteceu há cerca de um mês e onde morreram 46 dos 78 passageiros do barco. Aparentemente, o barco virou por má distribuição de pesos entre bombordo e estibordo, devido a uma correria súbita de quase todos os passageiros para um dos lados da embarcação. Sem tigres nem passeio de barco, a minha passagem por Tekhady limitou-se a cinco momentos: a visita a um Spice Garden ayurvédico, uma sessão de artes marciais de Kherala - Kalaripayatu -, uma sessão de teatro tradicional - Kathakali, uma visita a uma plantação de chá - Peryar Connemara Estate e uma massagem ayurvédica de 70 minutos. No que respeita ao spice garden, curiosamente gerido por devotos da virgem Maria, em mais uma demonstração de fusão cultural e religiosa, fiquei a saber que as diversas plantas oferecem cura para tudo, excepto a psoríase. Bastava perguntar por uma doença e logo vinha célere a planta milagrosa. Esta aqui substitui a insolina, aquela ali acaba com as tosses, estoutra elimina artrites, acolá pode ver uma que cura as enxaquecas, ali mais à frente temos uma para o fígado e outra que destrói cálculos renais, esta trata mulheres frígidas, a outra é uma espécie de viagra indiano. Para além destas, ainda tínhamos algumas mais simples que combatiam o mau hálito, tonturas e maleitas menores. Como é normal nestas coisas, a seguir à visita segue-se o proverbial aconselhamento de compra - desde plantas aromáticas a especiarias e a plantas medicinais. Como não quis nenhum condimento, e para não parecer sovina, resolvi comprar a poção mágica para as enxaquecas, já que, ao contrário de uma especiaria chamada all spices (não confundir com a água de colónia Old Spice que dita por indianos se confunde facilmente com a especiaria) e que reúne aroma e propriedades de muitas outras, parece não haver nenhuma planta medicinal para curar várias doenças e fazer uma espécie de 6 em 1 ou 7 em 1. Isso sim, seria óptimo para mim - em vez de carregar uma bateria de pílulas de todas as cores, trazia apenas um comprimido muito simples. O tratamento das enxaquecas passa pela aplicação de umas gotas da poção acima do nariz, depois nas têmporas, deixar cair umas gotas na parte superior da nuca e depois junto ao maxilar - cura garantida pelo menos para 10 anos. Com estes argumentos não pude resistir e por 380 míseras rupias já me via transportado para os terrenos do Elixir do Amor e já me parecia ouvir o início da ária Bravo, Bravo Dulcamara e eu armado em pobre Nemorino à espera que o elixir milagroso lhe traga o seu amor. No meu caso, era mais o alívio das enxaquecas. Fico à espera da próxima nevralgia para actuar. O Kalaripayatu é uma arte marcial ancestral que para melhor entendimento tem o seu quê de jogo do pau cruzado com capoeira. Os movimentos são muito dançados e com saltos vários e depois exibe-se a mestria dos praticantes com espadas e escudos ou facas e escudos. A modalidade é essencialmente de exibição, um pouco à maneira dos kata que conhecemos nas artes marciais japonesas. Confesso que esperava mais espectacularidade, mas foi mesmo assim interessante, ainda que os voos picados dos insectos que rodeavam o espectáculo tivessem estragado parte da festa. O teatro é essencialmente mímica acompanhada de música e mesmo as figuras femininas são interpretadas por homens que representam cenas dos clássicos hindus, nomeadamente do Mahabharata. O espectáculo tem um narrador que explica acção e a dinâmica está próxima em muitos aspectos do kabuki japonês. A luz, a cor e a riqueza dos trajos oferecem um paladar muito particular à acção. A visita à plantação de Connemara (nome muito irlandês para a produção de chá numa herdade do sub continente) permite ver todas as fases e etapas que vão do cultivo até ao produto acabado e é essencialmente uma visita didáctica e esclarecedora. Por indicação do meu condutor, dirigi-me a uma grande especialista de massagem ayurvédica para ser aconselhado a fazer uma sessão especial da dita, de forma a fica melhor alinhado com o cosmos - eu que estou sempre desalinhado. Um pouco baralhado perante o cardápio que parecia a lista de vinhos do Tavares Rico, fiz um esforço para parecer inteligente e esclarecido e escolhi uma bela massagem que custava 1000 rupias, incluía banho a vapor, um óleo com um cheiro requintado e 70 minutos de fricção, tareia e relaxamento. A professora encaminhou-me para um dos seus discípulos que sorridente me disse que iria gostar muito. A música ambiente era digna dos melhores Ashrams e a primeira coisa a fazer é despojar-me dos bens materiais ou, neste caso, da roupinha que trazia vestida. Assim, e tal como vim ao mundo, embora um bocadinho mais pesado, dirigi-me para a marquesa onde deveria ser massajado, mas recebi ordem de paragem porque me faltava vestir uma tangazinha que é o último grito da moda de Varanasi, mas que não se ajusta muito a corpos um pouco mais adiposos do que os dos gurus que se banham no Ganges. Desta forma, houve algumas partes de mim que ficaram onde não deviam e, como se dizia há alguns anos, avancei para a massagem um pouco descomposto, embora pense que o fio dental da tanga me ficava a matar e estou a pensar aderir à moda para rentrée estival de 2010, onde farei certamente o sucesso das praias algarvias e destronarei finalmente o Zézé. A massagem foi uma completa desilusão. Esperava que me caminhassem pelas costas e nada! Esperava ouvir os meus ossos a estalarem ou a rangerem qual dobradiças envelhecidas e nicles! Muito óleo (de facto era tanto que quase escorregava pela marquesa abaixo), muitos movimentos rápidos de massagem da cabeça aos pés, mas nada de especial. Mais uns nós dos dedos nos pés, uns movimentos para relaxar músculos e já está. Agora fica a relaxar cinco minutos e depois massagem facial e banho a vapor numa daquelas caixas de madeira em que se fica com a cabeça de fora, envolta numa toalha, e o resto do corpo apanha vapor. O óleo era tanto que cada vez que me sentava na cadeira do banho a vapor, escorregava quase até ao chão. Não foi uma experiência de excelência e acho que , pelo meu ar, o massagista percebeu que eu não estava convertido. De tal forma que a massagem acabou com duas violentas palmadas no rabo que não me pareceram adequadas ao programa e me recordaram uma cena idêntica julgo que no Adam’s Rib, em que o Spencer Tracy acaba a massagem à Katherine Hepburn da mesma forma, gerando uma reacção violenta por parte desta. Não reagi violentamente, mas fui-me embora com um desejo na alma - na Tailândia é que vai ser, quero uma massagista a caminhar-me pelas costas.