sexta-feira, 6 de novembro de 2009

Adam’s Rib





O ponto alto da passagem por Munnar foi a visita ao parque natural de Erakulam, onde tive ocasião de escalar um dos picos até perto do topo e ver alguns (poucos) animais selvagens. Fiz a escalada em companhia de um indiano, de uma japonesa e de uma galesa. Se o indiano parecia estar como eu a fazer uma escalada de um parque natural, já as duas jovens pareciam ir a caminho do Nirvana e o êxtase místico passeava-se no seu rosto, só superado pelo frio que sentiam, fruto dos mais de 1800 metros do local. A galesa de Wrexham e a japonesa de Osaka tinham-se encontrado na Índia e descobrindo interesses comuns, decidiram-se pela ida para um Ashram na região. Explicava a galesa o programa das festas - levantar às cinco para as orações, depois sessão de yoga, pequenos almoço ligeiro, seguido de meditação e mais orações. Nesse momento, a japonesa virou-se para mim e proferiu esta frase assassina - “it must be wonderful, don’t you think?”Oh minha amiga, começar o dia às 5 da manhã e seguir para as orações é a minha ideia de felicidade. Escusado será dizer que desci a montanha rapidamente e em força, não se fosse dar o caso de ser convidado para integrar tão convidativa experiência. Mesmo assim, o autocarro que nos transportava à base demorou tanto que os meus companheiros conseguiram uma notável proeza de catching up que foi suficiente para a galesa me deixar o seu contacto de email (não vá eu ter um assomo de espiritualidade born again) e para a japonesa me perguntar se eu já estava “retired” e por isso com tempo para passeatas. Disse adeus ao Babu, à Hiromi e à Kate e fui à vida que isto de tanta espiritualidade cansa muito. A travessia da zona montanhosa de Munnar também me trouxe a percepção das disputas fronteiriças entre estados. Depois de cruzar belos lagos e barragens e de ver um ponto famoso pelos seus ecos, iniciei a subida para o Observation Point que marca uma vista belíssima sobre toda a região. Só que a chuva e o nevoeiro eram tantos que não se via nada a 10 metros quanto mais a 40 ou 50 Km. A parte mais curiosa da história reside no facto de os últimos 1000 metros da subida demorarem mais a fazer do que os 15 km anteriores porque o estado de Kerala considera que o pico é de Tamil Nadu e o estado de Tamil Nadu afirma que a responsabilidade é de Kerala. Perante tamanho impasse, a estrada fica por alcatroar e é um pesadelo percorrê-la. O estado dessas estradas motivou o meu amigo condutor a umas paragens estratégicas de sua devoção onde rezou a deuses hindus e a santos cristãos por protecção. Só não foi à mesquita porque não havia nenhuma no caminho. A passagem por Kerala deveria ter como um dos pontos principais de interesse a visita à reserva natural de Periyar e o possível avistamento de um grupo de tigres. Outrora abundantes nas florestas indianos, os mais imponentes felinos asiáticos estão agora circunscritos a uma meia dúzia de espaços protegidos. Disse deveria porque de facto não aconteceu. Foi a segunda desilusão da minha viagem, depois de não ter conseguido ir até ao Ras Musandam. Os tigres sempre foram o meu animal de eleição, mas nunca tive oportunidade de os ver onde devem estar - em liberdade. A impossibilidade da visita deve-se ao facto de a reserva ser apenas acessível de barco e de todos os passeios de barco no parque estarem suspensos até que sejam apuradas as causas de um acidente que aconteceu há cerca de um mês e onde morreram 46 dos 78 passageiros do barco. Aparentemente, o barco virou por má distribuição de pesos entre bombordo e estibordo, devido a uma correria súbita de quase todos os passageiros para um dos lados da embarcação. Sem tigres nem passeio de barco, a minha passagem por Tekhady limitou-se a cinco momentos: a visita a um Spice Garden ayurvédico, uma sessão de artes marciais de Kherala - Kalaripayatu -, uma sessão de teatro tradicional - Kathakali, uma visita a uma plantação de chá - Peryar Connemara Estate e uma massagem ayurvédica de 70 minutos. No que respeita ao spice garden, curiosamente gerido por devotos da virgem Maria, em mais uma demonstração de fusão cultural e religiosa, fiquei a saber que as diversas plantas oferecem cura para tudo, excepto a psoríase. Bastava perguntar por uma doença e logo vinha célere a planta milagrosa. Esta aqui substitui a insolina, aquela ali acaba com as tosses, estoutra elimina artrites, acolá pode ver uma que cura as enxaquecas, ali mais à frente temos uma para o fígado e outra que destrói cálculos renais, esta trata mulheres frígidas, a outra é uma espécie de viagra indiano. Para além destas, ainda tínhamos algumas mais simples que combatiam o mau hálito, tonturas e maleitas menores. Como é normal nestas coisas, a seguir à visita segue-se o proverbial aconselhamento de compra - desde plantas aromáticas a especiarias e a plantas medicinais. Como não quis nenhum condimento, e para não parecer sovina, resolvi comprar a poção mágica para as enxaquecas, já que, ao contrário de uma especiaria chamada all spices (não confundir com a água de colónia Old Spice que dita por indianos se confunde facilmente com a especiaria) e que reúne aroma e propriedades de muitas outras, parece não haver nenhuma planta medicinal para curar várias doenças e fazer uma espécie de 6 em 1 ou 7 em 1. Isso sim, seria óptimo para mim - em vez de carregar uma bateria de pílulas de todas as cores, trazia apenas um comprimido muito simples. O tratamento das enxaquecas passa pela aplicação de umas gotas da poção acima do nariz, depois nas têmporas, deixar cair umas gotas na parte superior da nuca e depois junto ao maxilar - cura garantida pelo menos para 10 anos. Com estes argumentos não pude resistir e por 380 míseras rupias já me via transportado para os terrenos do Elixir do Amor e já me parecia ouvir o início da ária Bravo, Bravo Dulcamara e eu armado em pobre Nemorino à espera que o elixir milagroso lhe traga o seu amor. No meu caso, era mais o alívio das enxaquecas. Fico à espera da próxima nevralgia para actuar. O Kalaripayatu é uma arte marcial ancestral que para melhor entendimento tem o seu quê de jogo do pau cruzado com capoeira. Os movimentos são muito dançados e com saltos vários e depois exibe-se a mestria dos praticantes com espadas e escudos ou facas e escudos. A modalidade é essencialmente de exibição, um pouco à maneira dos kata que conhecemos nas artes marciais japonesas. Confesso que esperava mais espectacularidade, mas foi mesmo assim interessante, ainda que os voos picados dos insectos que rodeavam o espectáculo tivessem estragado parte da festa. O teatro é essencialmente mímica acompanhada de música e mesmo as figuras femininas são interpretadas por homens que representam cenas dos clássicos hindus, nomeadamente do Mahabharata. O espectáculo tem um narrador que explica acção e a dinâmica está próxima em muitos aspectos do kabuki japonês. A luz, a cor e a riqueza dos trajos oferecem um paladar muito particular à acção. A visita à plantação de Connemara (nome muito irlandês para a produção de chá numa herdade do sub continente) permite ver todas as fases e etapas que vão do cultivo até ao produto acabado e é essencialmente uma visita didáctica e esclarecedora. Por indicação do meu condutor, dirigi-me a uma grande especialista de massagem ayurvédica para ser aconselhado a fazer uma sessão especial da dita, de forma a fica melhor alinhado com o cosmos - eu que estou sempre desalinhado. Um pouco baralhado perante o cardápio que parecia a lista de vinhos do Tavares Rico, fiz um esforço para parecer inteligente e esclarecido e escolhi uma bela massagem que custava 1000 rupias, incluía banho a vapor, um óleo com um cheiro requintado e 70 minutos de fricção, tareia e relaxamento. A professora encaminhou-me para um dos seus discípulos que sorridente me disse que iria gostar muito. A música ambiente era digna dos melhores Ashrams e a primeira coisa a fazer é despojar-me dos bens materiais ou, neste caso, da roupinha que trazia vestida. Assim, e tal como vim ao mundo, embora um bocadinho mais pesado, dirigi-me para a marquesa onde deveria ser massajado, mas recebi ordem de paragem porque me faltava vestir uma tangazinha que é o último grito da moda de Varanasi, mas que não se ajusta muito a corpos um pouco mais adiposos do que os dos gurus que se banham no Ganges. Desta forma, houve algumas partes de mim que ficaram onde não deviam e, como se dizia há alguns anos, avancei para a massagem um pouco descomposto, embora pense que o fio dental da tanga me ficava a matar e estou a pensar aderir à moda para rentrée estival de 2010, onde farei certamente o sucesso das praias algarvias e destronarei finalmente o Zézé. A massagem foi uma completa desilusão. Esperava que me caminhassem pelas costas e nada! Esperava ouvir os meus ossos a estalarem ou a rangerem qual dobradiças envelhecidas e nicles! Muito óleo (de facto era tanto que quase escorregava pela marquesa abaixo), muitos movimentos rápidos de massagem da cabeça aos pés, mas nada de especial. Mais uns nós dos dedos nos pés, uns movimentos para relaxar músculos e já está. Agora fica a relaxar cinco minutos e depois massagem facial e banho a vapor numa daquelas caixas de madeira em que se fica com a cabeça de fora, envolta numa toalha, e o resto do corpo apanha vapor. O óleo era tanto que cada vez que me sentava na cadeira do banho a vapor, escorregava quase até ao chão. Não foi uma experiência de excelência e acho que , pelo meu ar, o massagista percebeu que eu não estava convertido. De tal forma que a massagem acabou com duas violentas palmadas no rabo que não me pareceram adequadas ao programa e me recordaram uma cena idêntica julgo que no Adam’s Rib, em que o Spencer Tracy acaba a massagem à Katherine Hepburn da mesma forma, gerando uma reacção violenta por parte desta. Não reagi violentamente, mas fui-me embora com um desejo na alma - na Tailândia é que vai ser, quero uma massagista a caminhar-me pelas costas.

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