terça-feira, 27 de outubro de 2009

A carreira das 15.20


Saí hoje de Goa, na carreira das 15.20. Em boa verdade era um bimotor da Kingfisher (companhia que possui um pouco de tudo, de cervejas a aviões eque vai ombreando com a Tata na disputa pelo primeiro lugar do ranking empresarial indiano) que fazia a ligação Goa-Chennai, mas com paragem em todas as estações e apeadeiros. Assim, quando vi que para uma distância relativamente curta, o avião demoraria três horas e meia, logo imaginei que ou o bimotor era mesmo muito lento ou iríamos ter várias paragens. E assim foi - primeiro Mangalore (não confundir com a capital do Hi Tech indiano que dá pelo nome de Bangalore), depois Kozhikode (conhecida em Portugal por Calecute, a tal cidade onde o Vasco da Gama "confraternizou"com o samorim local) e finalmente Kochi ou Cochim, onde me apeei. O avião continuava o seu curso e ainda pararia antes de Chegar a Chennai (antiga Madras ou Madrasta). Apesar das três descolagens e, felizmente, das três aterragens, a viagem até correu bem e o tempo passou-se raazoavelmente depressa, especialmente porque me ia lembrando dos bons dias passsados a percorrer Goa e também, há que ser sincero, porque as companhias de aviação indianas ainda não se renderam ao politicamente correcto e as hospedeiras continuam a ser hospedeiras e não assistentes de bordo. É que uma assistente de bordo é escolhida pelas fantochadas do mérito e da competência, blah, blah, blah, o que dá como resultado que quando fui a Minneapolis, a Northwest tinha um trio de assistentes de bordo que parecia saído de um filme de terror, passado algures entre um sanatório de inválidos e um lar da terceira idade. Um arrastava-se de ponta a ponta do avião, cambalenado entre filas e outra, com as vibrações do avião, abanava de tal forma que a dentadura de cima batia ritmadamente na dentadura de baixo. A terceira tinha, para parafrasear o saudoso sr. Guerra, um ar de catanha pilada, tais eram as rugas. Eu sei que todos têm direito à vida, mas meus senhores poupem-me a certos espectáculos. Clarificadas as águas, é evidente que não sei como são feitos os concursos para a Kingfisher, para a Spice Jet e para as demais companhias indianas, mas não posso deixar de registar que os resultados são muito melhores do que os conseguidos por companhias americanas e europeias. Dá gosto viajar na Emirates e na Gulf Air, mesmo com as jovens engalanadas com um veuzinho, é um descanso para vista entrar num avião da Singapore Airlines ou da Cathay Pacific, mas também é um genuíno prazer andar pelos ares indianos, onde as tarifas são baixas e os corredores dos pássaros de ferro são percorridos por jovens que não são actrizes de Bollywood, mas que estão uns furos acima do que é comum ver-se pelas ruas das cidades indianas. Actrizes e actores de Bollywood que estão em todo o lado, sendo raro abrir a televisão, sem ver referências às mais recentes produções, campanhas publicitárias, escândalos, rumores, etc. A revista de bordo da Kingfisher era totalmente dedicada ao universo dos estúdios indianos e suas produções e o conteúdo anda muito próximo do das nossas revistas de sociedade que encontramos frequentemente nas salas de espera dos consultórios médicos. Olhando com atenção para as histórias e boatos vários, para os filmes e publicidade, uma ideia transparece, elas estão muito acima deles, ou seja, era fácil pegar numa destas actrizes e fazê-la uma vedeta do cinema norte-americano, mas não consigo vislumbrar um único elemento masculino a poder entrar numa grande produção de Hollywood.

segunda-feira, 26 de outubro de 2009

Don Juan Carlos de Bourbon anuncia o Euro


Sem acesso continuado a Internet, aqui vai a cronica possivel em 20 minutos de tempo de antena. E eis-me em territorio Goes - o mais pequeno estado da Uniao Indiana, mas que, por razoes historicas, se mantem o mais evidentemente ligado as terras lusas. Logo a chegada ao aeroporto e facil verificar que proliferam nomes e expressoes portuguesas, umas muito fieis, outras adulteradas por quase cinquenta anos de afastamento. O aeroporto ainda fica a uma hora de viagem de Panaji (Nova Goa) e a cerca de uma hora e um quarto de Candolim, onde acabei por ficar. O territorio de Goa divide-se em dois distritos, um norte e um sul que acabei por visitar em dois dias, ou pelo menos vi as atraccoes mais usualmente referidas, incluindo a reliquia barroca que e Velha Goa, uma especie de florescimento contra-reformista em selva tropical. A Se e demias igrejas que formam o nucleo duro de Velha Goa sao ainda muito frequentadas pela populacao catolica local e, como visitei a cidade num domingo, havia varias cerimonias em curso. Aproveitei tambem para ver o museu arqueologico que possui uma sala onde estao representados em quadro a maior parte dos governadores e vice-reis do estado da India, com a curiosidade de o ultimo, Vassalo e Silva, nao ter direito a quadro, mas a foto de tipo oficial. La consta tambem Dom Antonio de Oliveira Salazar, assim mesmo, como ultimo primeiro ministro ao tempo dos governadores e os presidentes Carmona, Craveiro Lopes e Americo Thomaz, nenhum deles com Dom, mas o ultimo num quadro que o representava como nunca o tinha visto, quase mesmo com um perfil iluminado ou talvez inteligente. Tambem esta apresentavel ao publico uma estatua de Camoes e as entradas sao ao preco da chuva - quatro rupias. A maior afluencia da-se para a visita ao tumulo de Sao Francisco Xavier que e aberto de 10 em 10 anos, para se confirmar a incorruptibilidade do corpo. Mesmo hindus e muculmanos eram vistos na visita. A igreja do convento de frades agostinhos esta em ruina e e a unica peca arquitectonica de grande dimensao que mostra sinais de profunda decadencia. A cidade esta bem cuidada e como e comum por estas partes, os cidadaos locais tem muito orgulho nos seus relvados verdejantes que, neste clima, devem gastar quilolitros de agua todos os dias - coisas das herancas inglesas. O estilo dos goeses e bem mais modelo relax do que o dos outros indianos e, por aqui, as coisas levam o seu tempo. Os Fernandes, os Albuquerques, os Rebelos, os Pintos estao por toda a parte e nao e dificil ver que muitos constituem uma importante classe media. Muitas casas e solares de arquitectura indo-portuguesa sobrevivem e existem ate aqueles que se tornaram num misto de loja e museu, de modo a assegurar a sobrevivencia das familias. Visitei alguns detes solares que apresentam uma cristalizacao notavel do tempo, sendo possivle relembrar casas senhoriais portuguesas do seculo XIX, com adaptacoes devidas ao clima tropical e a idiossincrasia dos proprietarios goeses e a sua interpretacao por vezes livre das tradicoes portuguesas. Como ainda sou do tempo de se estudar na escola a geografia do entao ja defunto estado da India, percorrer Goa traz um avivar de memorias. Foi assim, o cruzeiro crepuscular no Mandovi, ou percorrer cidades com nomes como Vasco da Gama, ou locais de grande beleza como Dona Paula. Por todo o lado, se veem turistas internos e externos e Goa tem vindo a tornar-se no grande destino de ferias de praia em territorio indiano. Os russos sao a comunidade mais ouvida e existem ja anuncios e placards escritos em russo em varios locais do territorio. O potencial turistico esta tambem a ser incrementado pelo recurso ao jogo, especialmente com os casinos fluviais do Mandovi que percorrem a avenida marginal de Panaji. Durante o cruzeiro, tive oportunidade de verificar ate que ponto esta dimensao do jogo parece ser invasiva da vida de Goa. Ironias do destino, os ultimos territorios portugueses do Oriente sao hoje o presente e o futuro do jogo mundial - Macau e Goa afirmam-se pela paixao pelo risco, factor que mais do que qualquer crenca une os homens de todas as latitudes. Perante tantos estrangeiros, a resposta dos indianos e muito curiosa e abundam os pedidos de fotografias, com a familia a fazer pose entre os turistas que passam. Uma inglesa dizia-me com ar enfastiado que estava farta de ser fotografada com e sem consentimento e perguntava-se "o que e que eles acham que eu sou - algum bicho exotico?" Pois e, isto da inversao do estranho e do exotico tem destas coisas. O bom do ocidental, habituado a ver o exotico e a definir-se como normal nem sempre aprecia ser vitima da inversao dos tabuleiros. A vermelhusca inglesa nao se coibia, no entanto de fotografar a esquerda e a direita, e logo ficou entusiasmadissima com a exibicao de um mini rancho a intepretar a Ti Anica de Loule e o oh Malhao, Malhao, com letras quase incompreensiveis e que fotografou com pertinencia. Ainda mais feliz ficou quando um jovem indiano de look bollywoodiano, com uma poupinha a Elvis e com uns oculos escuros extremamente uteis para a noite sobre o Mandovi, lhe disse coisas doces ao ouvido. Passado pouco tempo, ja ela dizia para a amiga do lado - "he's so deliciously cute!" A amiga torceu o nariz, nao muito seduzida pelos avancos do nosso jovem de perfil cinematografico, mas rapidamente a outra a convenceu a entrar na onda, ja que havia mais peixe no mar... O cruzeiro de uma hora foi acompanhado por muita musica tecno indiana e goesa, tendo fixado uma cuja refrao era qualquer coisa ligado a "a tua boca". O DJ portava-se admiravelmente, recuando e avancando a dita musica e durante uns cinco minutos fui acompanhado por aquela batida e pela tua boca. Seja ela de quem for, espero que ja tenha tido descanso. O dia foi passado entre igrejas, templos hindus, praias (belissimas e algumas com cerca de 25 km de extensao) e lojas, sim lojas. Uma vez mais, o condutos que contratei insistia em que eu visitasse todas as lojas possiveis e imaginarias. La lhe fui dizendo que nao sou um shopaholic e que nao queria comprar nem carpetes, nem pulseiras nem cachecois nem mantas nem Ganeshas, nem Vishnus, nem nada. Nao ficou impressionado e sempre me foi dizendo que o importante era entrar, dar dois dedos de conversa e vir-me embora. Assim fiz, em cercade meia duzia de lojas e, quando visitei a ultima, dise-lhe "no more shops, ok!!". Respondeu-me com um sorriso: "no need sir, thanks to you I've got the last stamp on my card - I can now buy the tyre". Ficou resolvido o misterio - cada entrada de um cliente na loja garante um carimbo e ao fim de uns tantos, o condutor e pago em generos ou em dinheiro. Mais uma boa accao do promeneur solitaire. Promeneur solitaire e alias uma situacao que intriga muito os meus interlocutores que nao percebem muito bem por que e que alguem viaja em lazer sozinho. Por isso insistem sempre que eu devo estar numa viagem de negocios, entrecortada pelo lazer. A minha confirmacao de ser do lazer, deixa-os sempre um pouco atordoados. Voltando as fotos com os indianos e os estrangeiros, visitava eu o Forte da Aguada, imponente construcao lusa do seculo XVII e local hoje conhecido por ter o resort mais luxuoso do territorio, quando tive ocasia de ver tres pacientes filandesas que iam posando ao lado de todos os eleemntos de uma excursao vinda do estado de Gujarat. Os excursionistas deveriam ser cerca de meia centena e as fotos assemelhavam-se as de um casamento, onde a finlandesas faziam o papel dos noivos e os indianos eram os convidados. Safei-me pela esquerda baixa, principalmente porque nao sou mulher nem loiro e arranquei para mais um cruzeiro para observacao de golfinhos e das atraccoes locais. Ora bem, no meu barco ia uma familia de nove elementos que vinha.... do Gujarat e, como e facil imaginar, depois de uma breve hesitacao e reaccao pudica, la tive de pousar com filhos e filhas ao colo e ja me via ameacado pela mulher do meu interlocutor, mas este la decidiu (uff) nao coloca-la ao meu colo, mas ao meu lado. Depois da sessao fotografica, perguntaram-me qual a unidade monetaria portuguesa e qual o seu valor. Fazendo de embaixador da boa vontade, resolvi puxar da carteira e oferecer uma moeda de euro a cada um dos dois ramos da familia. Ficaram felicissimos, mas para mal dos meus pecados, as duas moedas tinham efigie de Don Juan Carlos e la ficou perturbada uma vez mais a historia de que Portugal nao pertence a Espanha. A tarde de hoje foi passada na praia de Candolim (com uma agua tao calda como nunca encontrei, nem mesmo na Grande Barreira de Coral australiana) a dormitar, a ouvir russo e a receber propostas de massagens nos pes, no corpo e em todo o lado, insistindo os(as) massagistas que eu parecia estar em desequilibrio - olha a novidade!!! Recusei massagens, pulseiras e demais ofertas, mas deliciei-me com um banhinho de excelencia. E pronto, muito haveria a dizer das minhas aventuras e desventuras goesas, mas fica para outro dia. Amanha, voo para Kochi, em mais uma daquelas cidades por onde os nossos ilustres antepassados caminharam ha alguns seculos.

sexta-feira, 23 de outubro de 2009

Os portugueses e o tiro ao alvo

Hoje visitei as esculturas da ilha de Elefanta e pela primeira vez tenho largura de banda suficiente para carregar uma fotografia. Aqui fica o slum especializado em actividades de lavandaria e que fica paredes meias com as concorridas linhas de comboio de Mumbai. O barco para Elefanta parte da célebre Gateway of India e a viagem demora quase uma hora, passando perto de várias ilhas ao largo de Mumbai, ela própria constituída por várias ilhas. No caminho tomei conhecimento com um miudinho indiano de ar intelectual que me foi fazendo perguntas várias sobre o que fazia e de onde vinha. Quando lhe perguntei em que classe (grade) andava, respondeu-me que o seu grade era bright, very bright!!! E era mesmo um bright boy. As esculturas são magníficas, mas foram interrompidas e apenas uma das cinco grutas exibe trabalho finalizado, com estátuas principalmente de Shiva, mas também de Rama e Vishnu, com cenas diversas da mitologia hindu. As estátuas de entrada estão muito danificadas e quando soube da razão, arrependi-me de dizer ao bright kid de onde vinha, com receio de alguma merecida retaliação. Então não é que os primeiros portugueses que ocuparam Bombaim usaram a ilha como armazém, paiol e campo militar e fizeram tiro ao alvo nas estátuas!!! Como desculpa fica apenas o facto de ser indesmentível que, se outro mérito não tinham, os nossos antepassados sabiam escolher belos cenários naturais para as suas cidades. A baía de Bombaim é lindíssima e a marine drive, uma marginal de cerca de 7 quilómetros é espectacular. Na volta, tive a oportunidade de verificar o enorme movimento no porto de Mumbai e nas ilhas adjacentes, onde se procede ao transporte e refinação do petróleo vindo ali do lado, dos vizinhos do outro lado do mar Arábico. A minha guia continuou a sua inquirição sobre usos, costumes e língua de Portugal e ficou muito contente em saber que Pinto significava little chiken. As suas perguntas estenderam-se ao Brasil e ao aspecto físico de portugueses e demais europeus que, para ela, se pareciam todos uns com os outros, sendo-lhe impossível saber se este era russo e aquele alemão, ou se aquela era espanhola ou irlandesa. Julgava que todos os portugueses eram mais para o escurito e para o baixito e lá lhe tive de dizer que, embora não fosse o mais fiel representante da raça lusitana, os portugueses têm muitas formas, cores de cabelo e de olhos. Portugueses loiros foi uma certa surpresa para a inquisitiva guia. De seguida, passámos paraa discussões em torno da moral e dos bons costumes, desejando saber se era verdade que as brasileiras iam para a praia com aqueles biquinis pequeninos que se vêem nas notícias sobre o Carnaval e se não tinham vergonha de aparecer assim ao pé dos pais! Esclareci-a o melhor que pude e tive ocasião de dizer que até havia quem fizesse topless, novidade que a deixou mais ou menos perplexa, especialmente por não se inibirem desses actos descarados em frente de quem as quisesse ver. Ao saber que as lusitanas também se punham nesses preparos, mais de cara à banda ficiu. Confessou que na Índia, as mulheres só se banham na praia completamente vestidas e que os homens apreciam ir à praia apenas para ver as turistas e os seus reduzidos bañadores. Aliás, explicou que as mulheres tradiconalmente devem caminhar sete passos atrás dos homens e evitar quaisquer sinais de afecto, daí ser mais fácil ver-se homens de mãos dadas (afiançando vivamente que não são gays) do que casais de sexos diferentes. A tarde foi passada no Prince of Wales Museum (que agora tem um nome bem mais indiano, mas que a minha ignorância de hindi não permite reproduzir de memória e sem erros) e a passear em modelo sem destino por esta interessante cidade que se começa a parecer com as restantes metrópoles asiáticas e a afastar-se da matriz indiana. Depois de duas horas de luta no trânsito, um vetusto táxi trouxe-me aaté ao hotel - Marigold Residency, para um merecido e retemperador jantar. Amanhã, ala para Goa.

quinta-feira, 22 de outubro de 2009

To Kill a Cockroach e o Clark Gable


Depois de três dias em Varanasi, estava pronto para partir para a capital financeira da ìndia e sua cidade mais populosa. Despedi-me sem saudades do já mencionaado hotel Siddharta, onde passei uma última noite em justas heróicas, mas leais, com algumas baratas voadoras. Sem qualquer arma química disponível, resolvi lutar com o que tina mais à mão que, neste caso, era um chinelo. Depois de várias contendas em que me cobri de glória, o resultado terminou como uma vitória esmagadora dos humanos e uma derrota histórica para as infames criaturas que perderam cinco portentosos elementos da sua força aérea. Em Varanasi abundavam os placards que anunciavam produtos que eliminavam as baratas que não vemos, pois eu contentava-me com um produto que se limitasse a exterminar as visíveis (os jainistas que me perdoem). Depois de uma noite tão cansativa de luta feroz, esperava um pequeno-almoço reconfortante, mas quando cheguei já não havia sumo. O último comensal tinha aliás levado o resto de três pacotinhos (bem espremidos) que transformaram o sumo de laranja, de manga e de ananás num certamente muito saboroso tuti-fruti. Sem sumo, lá me ofereceram Coca-Cola (!), para rapidamente concluirem que também não tinham, mas ainda restava um resto de Tums (um sucedâneo da anterior, mas mais açucarada). Assim sendo, partir para umas torradinhas com manteiga, regadas com Tums. O pessoal da sala de pequenos-almoços era constituído por 4 parentes humanos das baratas, mas na sua versão tonta - corriam para todo o lado, mas não serviam ninguém. No meio da sala, planava uma impressora matricial daquelas de 9 agulhas que já quase não se vêem, mas que constituía um verdadeiro totem para o pessoal que por ali andava. Os ruídos das agulhas eram acolhidos com gestos de aprovação dos vários adoradores e as contas saiam a uma velocidade estonteante. Com tanta agitação, começou a sair um cheiro a queimado da torradeira, sinal claro que as minhas torradas já estavam em fase carbonizada. O bom do empregado acorreu solícito à torradeira e de forma quase miraculosa salvou as torradas de uma sorte infliz. Preparava-se já para as servir a este pobre e exausto guerreiro, mas devo ter feito um gesto indiciador de que não me encontrava de bom humor. Sinal que foi claramente entendido porque de imediato ele resolveu minorar o negrume do pão, friccionado violentamente as duas torradas uma contra a outra, até que a maior parte do queimado se transformou numa nuvem de fuligem. Sorriu encantado com a sua proeza, só para se ver contrariado pelo meu franzir de testa algo pronunciado. Não se intimidou, partiu para servir outro cliente, com uma visão periférica da torradeira claramente deficiente, e lá se decidiu a fazer mais duas torradas para mim. A manteiga também não abundava. havendo apenas um pacote de 250g que ia sendo cortado pelo mais jovem dos elementos em serviço (que não tinha mais de 16 anos). O rapazinho cortou uma fatia de manteiga, mas não a conseguiu descolar da faca, tendo de improvisar, molhando o dedo na boca e retirando a manteiga com o agora mais oleado indicador. Perante este cenário repulsivo (julgava eu), um dos empregados mais velhos repreendeu-o vivamente e deu-lhe um forte calduço na nuca, para não voltar a fazer daquelas (julgava eu). A repreensão saiu de modo loud and clear, mas, surpresa das surpresas, a admoestação não tinha a ver com a forma de cortar a manteiga, mas sim com a quantidade servida. O mais experiente resolveu, assim, cortar uma nova porção, usando um método não muito diferente do seu jovem camarada e com um gesto que fazia lembrar o António Silva no Pátio das Cantigas a ensinar como se fechava a porta ondulada do estabelecimento comercial, disse qualquer coisa próxima de um "Viu - assim é que se faz". Este hotel dava só por si para escrever uma novela com alguma piada. O aeroporto de Varanasi tem um terminal nacional e um internacional. O nacional serve três ou quatro destinos e o internacional, tanto quanto me apercebi, serve apenas um - Katmandu. Feliz coincidência porque Varanasi é hoje o que Katmandu foi anos atrás - um paraíso para ocidentais hippies ou neo hippies fascinados por um oriente que só existe na cabeça deles e que me faz sempre lembrar aquela bela expressão brasileira "quem gosta de pobreza é intelectual, pobre gosta mesmo é de luxo". Muitos dos europeuss e americanos que vi poraqui são daqueles que se fascinam por tudo o que achariam revoltante nos seus países de origem e fazem pensar em como o ódio e a paixão são tantas vezes irmãos gémeos, filhos dilectos do casamento entre a ignorância e a estupidez. Falar em terminais é uma força de expressão porque se trata na verdade de duas salas separadas por um corredor e com um sistema de check in que vai alternando entre as várias companhias que concorrem no espaço indiano. O meu voo era Jet Airways e, apesar do enorme atraso e da confusão entre despachar mala, fazer o check in, passar pela segurança e caminhar pela pista fora em direcção ao avião, só posso dizer que foi uma das melhores companhias em que viajei - pessoal eficiente e simpático, boas refeições e bancos com um pouquinho mais de espaço que o habitual. Dado o atraso já me imaginava a perder a ligação em Delhi ou, mais grave do que isso, chegar eu e não chegar a mala. Felizmente, o voo para Delhi foi transformado num voo para Mumbai, com escala em Delhi, e as coisas lá se compuseram. primeira fase da viagem foi divertida, com uma emigrante indiana nos States, de regresso a Delhi para controlar um Bed and Breakfast que possuia na capital. Tal como é habitual nos indianos, perguntou logo tudo o que podia sobre a minha pessoa - casado? filhos? Pais ainda vivos? Trabalha em quê? Business or pleasure? Depois de uma bateria de cerca de 20 minutos, lá começou a falar sobre o seu restaaurante em LA e a vida que agora tem nos EUA e que não poderia ter na Índia. Viajava acompanhada de um amigo indiano de Boston e tinham acabado de visitar as grutas de Khajurao - as tais que são famosas pelo seu conteúdo erótico explícito. A segunda parte foi menos interessante, mas mais movimentada, com uma família de 7 indianos, especialistas em arranjos, permutações e combinações que foram experimentando todas as hipóteses de sentar todos os elementos próximos uns dos outros, com a restrição de a mãe ter de viajar ao lado do seu filho gorducho. Levantei-me quatro ou cinco vezes até se ter encontrado uma solução satisfatória que, curiosamente passou por terem ficado mais afastados uns dos outros do que quando se sentaram nos seus lugares reservados. Pelo menos ficou a animação. O hotel de Mumbai é o melhor que tive na Índia, fica perto do aeroporto, mas a mais de uma hora das zonas centrais da cidade, o que não é muito prático. Mumbai não é a Índia, ou melhor, já não é bem a Índia. É uma cidade a fugir ao sub-continente e a procurar o Ocidente. Os táxis são táxis e os tuk tuks ficam às portas da cidade, a zona financeira mimetiza as cities dos países mais desenvolvidos e o ritmo da cidade já não está tão próximo do buzinar constante das outras cidades indianas. A minha guia, uma cristã de Bombaim, casada com um cristão goês, serviu-me o habitual pacote turístico - visita às lavandarias populares de Mumbai, casa onde viveu Gandhi (transformada em museu/biblioteca), passagem por um conhecido templo jainista, vislumbre do espaço cerimonial parsi (comunidade pequena, mas extremamente influente e rica, originariamente da Pérsia e que tem como figuras conhecidas o maestro Zubin Metha e Freddy Mercury) com a sua curiosa prática de disposição dos mortos aos elementos para serem comidos pelos pássaros e processados pelas forças naturais, ida a igrejas católica e anglicana de Mumbai, um saltinho ao Taj Mahal (hotel que sofreu o atentado que mantém as forças de segurança indianas em estado de sítio) e umas fotos à Gateway, espaço de onde partiram em 1947 os últimos regimentos britânicos, assinalando o fim do Raj e o desaparecimento da Jóia da Coroa do império. Claro que a minha amiga queria correr estes espaço para poder chegar ao importante - as lojas de alcatifas, jóias e demais artefactos, onde tem comissão. Uma vez mais, não houve negócio e não há dúvida que não dou grande interesse aos guias. A minha guia ficou muito interessada por Portugal, uma vez que ela é uma Pinto e Rebelo, por nascimento, e uma deSouza por casamento. Lá a esclareci o melhor que pude, ao mesmo tempo que lhe perguntava se sabia a origem de uma palavra que usava frequentemente para descrever alguns bairros por onde passávamos - posh. Só sabia que queria dizer rico, mas desconhecia a raiz indiana da palavra, ou melhor, do acrónimo. Posh é uma expressão que começou a ser usada nos barcos da carreira das Índias e que tinha a ver com o facto de os mais endinheirados poderem escolher os melhores lugares e que, invariavelmente, estes eram Port Out, Starboard Home - Bombordo para a Índia e Estibordo de regresso a casa. Registou cuidadosamente a expressão para a usar num próximo tour e eu fico à espera de ter contado a história correctamente, mas vendi-a da mesma forma que ma venderam. Aliás, o meu percurso de bom samaritano tem andado pelas ajudas a espanhóis e franceses em estado de pânico. Isto de não se falar inglês tem os seus riscos. Ontem no aeroporto de Varanasi, um francês já junto à porta de embarque e depois de a speaker ter anunciado o final call para Delhi, perguntou-me placidamente, se ela estava a dizer que o voo para Delhi estava muito atrasado. Lá o esclareci e o rapaz saiu que nem um foguete para o avião. Outras francesas num museu de Varanasi interrogavam-se sobre a expressão AD nas datações e concluiram por um apocalíptico Aprés Dieu, o que lhes parecia muito estranho. Lá lhes disse que era latim e não francês, mas não ficaram muito convencidas. Os espanhóis quando perdem o guia que fala espanhol ficam como os japoneses sem o guia que fala japonês - perdidos. Já são uma meia dúzia que tenho de guiar e agradeço aos deuses que levaram as iluminadas autoridades portuguesas de outrora a não dobrarem filmes. Caso contrário, hoje em dia estaria como os espanhóis e quando me lembrasse do "E tudo o vento levou", estaria a ouvir o Clark Gable a responder com desprezo olímpico para vivian Leigh - "Francamente, minha querida, estou-me nas tintas". Uau!

terça-feira, 20 de outubro de 2009

Manhas de Cinza, Noites de Polvora




Este e o meu ultimo dia em Varanasi. O pequeno-almoco prolongou-se por quase quarenta minutos porque o servico e incrivelmente lento. Sai do hotel, mais tarde do que desejava, e parti para me perder nas ruas. O cheiro das manhas indianas e invariavelmente a queimado e a cinza. Nao e dificil ver aqui e ali, alguem a queimar parte do lixo da vespera que se acumulou nas bermas. Outros varrem melhor ou pior, os dejectos acumulados, enquanto as vacas fazem o seu trabalho e procuram algum resto de comida que tenha ficado esquecido. Na ausencia quase total de porcos, as vacas fazem o seu papel, comendo um pouco de tudo. Como nao sao animal comestivel, mas sagrado, ninguem se importara muito com os efeitos do seu regime dietetico na qualidade da carne. Ja eu, pela minha parte, dava tudo por um bom bifinho do lombo e os hindus que me perdoem, mas nao posso deixar de olhar para estas pachorrentas criaturas que passam por mim ou que se deitam no caminho, sem um salivar pavloviano. Por causa das vacas e dos porcos ate ja fui a um McDonalds aqui em Varanasi. Para os que nao sabem, esta e a minha segunda entrada num McDonalds e a primeira que se produz voluntariamente. A primeira em Moscovo, a segunda na India. Nao deixa de ser curioso que nunca tenha entrado numa loja do Ronald nem nos States nem em Portugal. Logo a entrada da loja existe uma seguranca reforcada porque o restaurante esta dentro de um centro comercial e o governo teme atentados. De qualquer forma, a revista que passam aos clientes e muito ndiaa, ou seja, pouco ou nada se controla e ate uma metralhadora pequena entrava. O centro comercial e uma atraccao local, mas nao tem mais do que uma duzia de lojas e um food court com quatro restaurantes. As vedetas sao as salas de cinema, onde se estreavam varias producoes de bollywood, e o McDonalds. Na entrada do restaurante, e para que nao restem duvidas, anuncia-se que nao ha nada feito com carne de vaca ou de porco e seus derivados. Perante esta situacao la tive de me contentar com um McChiken acompanhado pelas proverbiais fries e pela nao menos tipica Coke. Coke que, como muitos devem saber, esteve proibida no mercado indiano ate ha poucos anos, deixando o terreno livre para a Pepsi. Aparentemente, a proibicao devia-se recusa de divulgacao da formula secreta da empresa de Atlanta. Ja aqui na India contaram-me uma historia interessante que se tera passado ha pouco anos, aquando da visita de Clinton a India. Acompanhado da sua pequena Chelsea, Clinton tera ficado impressionado com a ecnica de construcao do Taj Mahal e ainda mais com a qualidade das juncoes das pedras marmoreas. Quando lhe disseram que as juntas estavam unidas com uma cola secreta que era super resistente e cuja formula era guardada religiosamente pelos descendentes dos operarios que construiram o mausoleu (os tais 2200 que vos falei anteriormente). Clinton quis visitar alguns desses fieis depositarios do segredo para que eles acedessem a revela-lo. Disse que era presidente dos EUA e eles nao se demoveram, que era o homem que nao tinha tido sexo com a Monica Lewinsky, mas eles nao cederam. Finalmente, um dos defensores do sacrossanto segredo acabou por propor uma troca - o segredo da cola pelo segredo da Coca Cola. Clinton teve de ceder, reconhecendo que nao possuia o segredo da agua suja do capitalismo e voltou a casa de maos a abanar. A troca parecia-me justa - a cola de um mausoleu pela cola da sociedade ocidental. O suporte de uma pedra pelo suporte de um mundo. Foi pena que a troca nao se tivesse produzido - haveria mais clones da Coca Cola e a arquitectura americana inauguraria certamente um novo estilo. Mas ja que falamos de um dos icones modernos de homenagem ao deus priapo - falo do Clinton obviamente - e assinalavel que na minha digressao pelos EAU e pela India me tenha apercebido ate que ponto duas culturas que cantaram e glorificaram o erotismo em seculos passados se tornaram surpreendente pudicas em tempos recentes. Na verdade, os descendentes da cultura que produziu o Kama Sutra (que ja me foi oferecido por varios vendedores que se agrupam a entrada de templos e museus, quer em versao iluminura quer em versao fotonovela, com actores indianos ginasticados e flexiveis, mas tambem com um pouquinho de peso a mais) ou as esculturas de Khajurao, tornaram-se muito avessos as coisas do sexo. Os filmes indianos sao de uma pureza cristalina, os casais em publico nao expressam afecto, os casaizinhos de namorados escondem-se num parque u num jardim e encostam delicadamente a cabeca um no outro, com um sorriso envergonhado. As mostras publicas do que se passa nos bastidores reduzem-se as campanhas de vendas de preservativos e a sua presenca em carrinhos de vendedores ambulantes. Tirando isso, parece ate milagre como ha 1000 milhoes de indianos pelas ruas. A sociedade indiana e uma sociedade vibrante de cores e sons, mas tambem de cheiros e paladares. E de longe a sociedade mais sensorial que ja conheci. Tudo aqui faz apelo ao jogo dos sentidos, ao respirar da cultura local. Muitos dos sons sao as desagradaveis buzinas que se ouvem 24/24 horas, muitos dos cheiros sao atrozes, muitos dos paladares sao agressivos, mas percebe-se que existe uma enorme riqueza e uma fantastica vibracao neste mundo, onde vida e morte convivem harmoniosamente. Ainda onte, no meio do transito caotico, desfilavam vacas e bois e um funeral de uma velhota percorria a cidade em direccao a um dos Ghats a sul onde se procederia a sua cremacao. O som dos canticos da corte que a companhava a falecida eram interrompidos por buzinas e sons de rua porque a vida prossegue ao seu ritmo normal. As cidades indianas sao cidades que nao dormem, existindo sempre movimento e energia no ar. Sao cidades que vivem sobre a memoria de um passado glorioso e que ambicionam conquistar um futuro que sera dificil. Percorrendo a India, temos a sensacao que mesmo os predios recem construidos ja sao velhos e decadentes. Nada aqui surge com a marca ou o cheiro da juventude. A patina impoe-se mesmo no feito ontem. Mas talvez sejam os cheiros os elementos mais evocativos e mais recuperadores de memorias perdidas. Chegado a India imediatamente recuperei memoria da minha infancia quando observava a ferragem de cavalos e o cheiro caracteristico dos cascos queimados ao serem ferrados. Mais de 30 anos em me lembrar bem desses acontecimentos e um simples cheiro foi suficiente para despertar as memorias. Do mesmo modo que as manhas sao de cinza, as noites sao de polvora, com as explosoes sucessivas de foguetes no ar. Ao contrario da pirotecnia japonesa que vive dos efeitos e das cores desenhadas no ar, fazendo alias jus ao nome do fogo de artificio na lingua niponica - Hana bi ou, literalmente, flores de fogo - a foguetaria indiana e mais ligada a explosao do que ao efeito, ao ruido celebratorio do que a delicadeza dos padroes e dos jogos de luz. Vendo e ouvindo os foguetes na India, na semana do Dhivalli, tambem recuperei outro cheiro de infancia, este ainda mais distante do que o dos cascos dos cavalos no ferrador. Ao passar por um dos locais de lancamento, o cheiro da polvora trouxe-me as memorias dos tiros das pistolas de "fluminantes", como lhes chamavamos na altura, e que resultavam de uma fitinha de pequenos explosivos enrolada dentro da pistola de brincar e que cada tiro fazia avancar com uma pequena explosao. As memorias tambem podem ser evocadas com comida, como me aconteceu ha tres dias quando me serviram Kir, algo que se parece muito com um arroz doce mais liquido, mas com um gosto nao muito diferente do nosso doce. La expliquei ao empregado que me afiancava que nunca tinha provado nada igual, que la pelas minhas bandas tambem se comia algo parecido. Quis saber o nome, como se escrevia e como se fazia. Respondi as duas primeiras, mas deixei a ultima sem resposta - nao e so a Coca Cola que tem os seus segredos. Muitos dos empregados indianos gostam de receer bem e sao hospitaleiros, chegando mesmo ao ponto do ridiculo. Numa das muitas lojas onde entrei, o dono queria tanto vender-me algo que afiancava que um jovem como eu, que nao poderia ter mais de 30 anos, deveria comprar umas certas pecas de ourivesaria para preparar um iminente casamento. la lhe disse que nem 30, nem casamento, ao que ele respondeu que eu estava muito bem conservado. Como troca de elogios e perante a sua insistencia para que eu calculasse tambem a sua idade, avancei com uns mais que elogiosos 50, para quem parecia ter 60 e muitos. Ainda bem que fui lisonjeiro, o homem tinha 53!!! Sorridente, confessou o seu segredo - nao trabalho muito e descanso o mais que psso. Olhando para museus e palacios, templos e fortes ha que reconhecer que os arquitectos de outros tempos desenhavam edificios adaptados ao ambiente, com habeis sistemas de circulacao de ar, respiradouros estrategicamente colocados, orientacao sabia de edificios, uso de agua em circulacao, etc e que fazem inveja as nossas construcoes que sao sorvedouros de energia. E se nos deslumbramos com a beleza do construido, nao esquecems o que poderia ainda ter sido edificado. E disso um bom exemplo, a construcao de um segundo Taj Mahal, em negro e na margem oposta do rio. Este plano desenvolvido pelo proprio construtor do Taj Mahal para albergar o seu corpo so foi parado porque o seu filho nao achou a ideia interessante para o depauperado cofre do Estado e prendeu o pai, executou os irmaos e subiu ao trono para por termo a tanto despesismo. Imagine-se o que teriam sido dois Taj Mahal. Encerro a minha cronica de hoje com uma das mais sabias construcoes dos soberanos Indianos de XVI e XVII - quartos limitados a sua figura e onde nem mulheres nem concubinas entravam. Chamavam-se esses quartos, quartos dos sonhos. Neles, o imperador pensava, dormia e logoa que entrava em REM passava a sonhar. E nao e o sonho o mais agradavel momento, mais puro deleite da imaginacao, onde os prazeres odem correr. Ah, que grande inveja do velho Akbar e dos seus sucessores - um quarto de sonhos.

segunda-feira, 19 de outubro de 2009

Voyeurismo em Varanasi


Convivo mal com a religiao, muito mal mesmo. Desde ha muitos anos que a maior parte das manifestacoes religiosas me deixam sempre num estado de desconforto. Mas confesso que nunca senti um desconforto tao grande como hoje em Varanasi. Varanasi ou Benares, como ainda e conhecida por muitos, e uma das cidades mais santas do hinduismo, senao mesmo a mais santa e e tambem reverenciada por budistas por ter sido o lugar da primeira preleccao de Siddharta Gautama. Deixei o hotel pelas 5 da manha, de modo a poder seguir as ablucoes matinais dos peregrinos no Ganges, ou Ganga (como e conhecido por aqui). O acesso ao rio faz-se atraves de inumeros ghat ou escadarias, por onde os peregrinos descem ate entrar no rio. O banho antes do nascer do sol tem peculiares qualidades para a remissao dos pecados e prepara activamente o crente para a sua vida quotidiana. Antes de chegar, ja via passar muitos homens e mulheres que tinham completado os seus rituais e que caminhavam ora com garrafas ora com frascos ou latas com agua do rio sagrado. Bem sei que uma coisa e a pureza fisica e outra e a pureza espiritual, mas avaliando a cor da agua nas garrafas, pensaria duas vezes, antes de a usar para o que quer que fosse e nao me passaria pela cabeca, pura ou impura, beber daquela agua. Entrei pelo ghat mais central, onde se amontovam centenas de peregrinos e onde o numero de turistas era tambem imenso. Uma enorme excursao de tailandeses, claramente identificados e impecavelmente vestidos de branco e um grupo tambem vasto de japoneses, estes com o rosto completamente coberto com mascaras (nao sei se receando a gripe A ou se temendo os efluvios do Ganges) aproximavam-se do rio. Cheguei ao barco que me tinha sido destinado e um remador que ja tinha idade para duas reformas preparou-se para zarpar do cais. Para chegar ao barco, tive de passar por varios outros que se encontravam mais perto do cais, o que me valeu alguns sustos e desequilibrios e um quase mergulho sem ritual no rio sagrado. Logo que entrei no barco tive uma sensacao viva de desconforto, como se nao pertencesse aquele espaco e nao fosse mais do que um voyeur a tirar fotos a algo em que nao acredito e nao posso acreditar. Era um desconforto maior do que aquele que sinto a entrar em igrejas cristas ou mesmo em mesquitas ou sinagogas. Senti que estava ali rigorosamente a mais e que o meu cepticismo nao se enquadrava com a crenca dos fieis. Nunca consegui entender a esperanca e o espirito das religioes, nem o seu apaziguamento das revoltas e a sua aceitacao de uma certa ordem. Menos percebo no hinduismo, a busca do nirvana e do fim da caminhada recorrente de ressurreicao em ressurreicao. Se acreditasse que se poderia escapar a esse processo de regressar permanentemente, eu nao quereria faze-lo. Reencarnar tem pelo menos o merito de se poder voltar com uma vida melhor e mais interessante, mas a ideia de quietude, de beatitude, ou a ideia de uma vida espiritual eterna nao me seduzem e teria mesmo medo dela, se fosse um crente. Custa-me perceber como alguem pode acreditar que haja alguma coisa depois disto, seja de que tipo for e a conviccao dos fieis hindus que se banham no Ganges e para mim um pouco assustadora. Fiz o percurso de quase sete km, visualizando muitos dos ghats e dos peregrinos, uns completamente vestidos, outros semi nus, uns em modernos calcoes de banho, outros com mais tradicionais roupas interiores, mas todos irmanados do mesmo espirito. Alguns trazem mesmo sabao e tomam o seu banho fisico, ao mesmo tempo que o seu banho ritual. O volume de produtos quimicos lancados para o Ganges e avassalador e qualquer banho aqui e um risco obvio para a saude de homens, mulheres e criancas. Embora o mal estar me acompanhasse, o espectaculo do nascer do Sol sobre o Ganges na margem contraria a Varanasi, e supostamente no lado mau do rio, melhorou os meus animos. O lado mau significa que quem morre na margem errada nao tem a compensacao de quem morre na margem certa. Se os que morrem em Varanasi tem caminho aberto para o nirvana, os que falecem do outro lado, tem um destno infernal pela frente. Entre banhistas e turistas, o barco foi deslizando Ghat a Ghat de forma lenta e repousada. Sob a luz do primeiro Sol, avistei o que parecia um tronco de arvore a flutuar no Ganges, mas a medida que o objecto se aproximava, vi que tinha uma forma de boneco ritual usado talvez nas festas de Dhivalli dos ultimos dias. Mas quando o objecto estava a cerca de 5 a 6 metros, percebi de que se tratava e, se preciso fosse, o proprio guia dissipou quaisquer duvidas - era um corpo humano, inchado e em decomposicao que, embora nao seja tecnico forense e o meu conhecimento da materia se reduza a alguns episodios dos CSI, mostrava claros sinais de ter morrido ha varios dias. Com um filosofico, "e frequente", o meu guia desvalorizou a questao e continuamos viagem, enquanto o grupo de japoneses no barco seguinte demonstrava menos calma e clamava com algum horror. Por pudor, nao fotografei a cena e nao inquiri o meu guia sobre o significado da frequencia destes eventos, mas senti-me uma vez mais terrivelmente voyeurista perante aquela cena e achei que tinha de sair daquele espaco rapidamente. O hinduismo, como muitas formas politeistas ate me atrai de algum modo, pela prevalencia de uma dimensao estetica que escapa a quase todos os monoteismos, cheios de um deus senhor de si que exige submissao absoluta e respeito. Para mim essa componente estetica e fundamental na minha apreciacao das religioes. Como nao creio em nenhuma, prefiro a liturgia ortodoxa porque e mais agradavel que a catolica e esta mais bela que a protestante. Talvez por isso as mitologias nordica ou greco-romana cheias de deuses de paixoes humanas, permeaveis ao incesto, a vinganca, a retaliacao, a preferencia descarada por uns e nao por outros me parecam mais dignas de apreco. Deusas que se submetem ao juizo dos homens para declarar a mais bela, deuses que se relacionam com mortais e dao origem a semi-deuses, panteoes que permanecem abertos e acolhem novas divindades oriundas de outras paragens, sempre me inspiraram mais que os monoteismos, essa invencao Akhnatoniana que, derrotada no seu tempo, acabou por ser vitoriosa a prazo. As guerras entre politeistas nunca foram travadas em nome da submissao de uns deuses a outros. Quantas foram as vezes que os derrotados legaram os seus deuses aos vencedores, mas com o monoteismo nada disto se passa. E o hiduismo? O hinduismo com os seus deuses que possuem manifestacoes diversas e mais incolume a penetracao de novos ocupantes no seu panteao e possui uma rigidez que nao encontramos nas restantes formas politeistas. Ou talvez nao se possa entender o hinduismo como um politeismo real. Apos a saida do rio, visitei as ruas labirinticas de Varanasi, com o espectaculo habitual de pobreza, vacas, lixo e dejectos, mas com a vibracao de todo o sub continente e com todas as cores de que a India e prodiga. Terminei este pequeno tour cerca das 8 da manha e pouco depois segui para a segunda parte, com passagem pelo museu arqueologico onde se encontra a origem do simbolo nacional indiano - a roda e os quatro leoes de Ashoka - e pelo espaco dos primeiros ensinamentos do Buda e uma replica da figueira onde teve a sua inspiracao. Terminei a minha digressao com uma passagem por um templo chamado Mother India e que esta despojado de qualquer decoracao, excepto um mapa gigante da India e paises adjacentes, de modo a poder ser usado por todas as religioes. Amanha tenho mais um dia em Varanasi e depois parto para a Mumbai que um dia foi Bombaim e que serviu como pagamento do dote de Catarina de Braganca aquando do casamento com CarlosII. Com ela foi o cha, que se tornou numa instituicao britanica, mas manteve-se o portugues como a unica lingua ocidental que chama ao cha, o mesmo que japoneses, chineses e indianos. Ah, ja agora, tambem o ananas e aqui ananas.

Sabem quem e Moises Henriques?




Ha hora aprazada, la segui viagem de Agra para Varanasi. Tinha reserva num compartimento de 4 camas em 2nd class AC, uma das muitas classes que definem os caminhos de ferro indianos. Esta rigida estratificacao deve ser o resultado, ou melhor, o somatorio de uma sociedade de castas que aderiu ao CF lancado pelo colonizador elitista. Se os britanicos nao gostavam de se misturar com racas inferiores, tambem os membros das castas superiores indianas nao apreciavam por ai alem o convivio com grupos inferiores. Assim, e depois de pagar ao carregador para me por a mala no comboio - cama 27 da carruagem 1 - fiquei confrontado com compartimentos diminutos e com uns reposteiros mais velhos que o Matusalem, que ja de si nao era novo quando morreu. Procurei a minnha bela berth e assim que entrei no compartimento, verifiquei que o beliche 27 era na parte de baixo e que por cima de mim havia outro convidado das Indian Railways, de camisolinha interior de alcas e de sorriso no rosto e do lado contrario, estava ocupada outra imaculada caminha azul, com uma simpatica indiana a resmungar qualquer coisa. Entre as camas sobra um espaco diminuto onde nao cabe uma mala, mas que ja tinha a malinha de cabine da indiana e os sapatinhos da dita, mais as sandalias do rapaz de bigode e sorriso no rosto colocado por cima de mim. Tentei mover a mala da indiana para passar e colocar os meus haveres a bom recato, mas a indiana, com uma intepretacao notavel do discurso de Obama, mas em versao negativa, la me ia respondendo a pergunta "Posso desviar a sua mala" com um solene " No, You cannot", assim mesmo, sem abreviatura. Depois de mais tres perguntas sobre os meus movimentos, que me valeram a mesma resposta, "No, You cannot", suspirei e resolvi nao fazer ondas, colocando a mala e a mochila na minha alegada cama, desembrulhei o cartaozito que continha dois lencois e um cobertor, estendi um a cobrir o virginal assento, coloquei o outro por cima, dado que o ar condicionado estava para o fortezinho, desdenhei o esburacado cobertor e estendi os pes para cima da mala. Nao retirei os sapatos porque estava no andar de baixo e ja tinha visto passar um roedor que, embora de tamanho diminuto, nao quis tentar com uma refeicao facil feita de dedos dos pes. Julgo ate que tudo esta pensado nestes comboios, o tamanho dos ratos sobe a medida que desce a qualidade das cabinas e das composicoes. Assim, havera apenas amostras de rato em 1st AC e depois ratos de campo ate se chegar as ratazanas que tinha visto na estacao de Agra, mas que nao tinham autorizacao para entrar em carruagens de classe e com ar condicionado. Uma vez instalado, procurei colocar a minha almofada contra a janela, de maneira a poder usufruir da leitura do meu Kindle, mas foi sol (ou noite) de pouca dura porque, como ja devem imaginar, quando perguntei se podia manter a luz acesa sobre a minha berth, a indiana, ja coberta pelo lencol, respondeu ainda mais assertivamente "No, you cannot". Com esta prova de capacidade coloquial, la me recostei o melhor que pude e tentei descobrir um nicho entre a cortina e a janela, para ver a paisagem nocturna e passar um bocadinho melhor as 12 horas e meia de viagem. Mas ate este pequeno prazer me foi negado porque o vidro estava com uma fractura rendilhada que impedia qualquer visao. Voltei a suspirar e entre roncos de ressono do Indiano das alcinhas e conversa no sono da indiana obamista, la fui passando a noite sem pregar olho. Do outro lado do corredor, no lado onde so ha duas camas, vi passar japoneses, holandesas, ingleses, alemaes, passando a acreditar que a classe em que viajava e, como dizia o guia, a classe de eelicao dos CF indianos. As carruagens indicavam que a ultima desparasitacao ja havia sido feita ha algum tempo e aparentemente, a que havia sido prevista para Setembro nao se tinha realizado. Os 600 km em 12 horas justificam-se nao so pela velocidade estonteante do comboio, mas principalmente pelas inumeras paragens que demoram 10 20 ou mesmo 30 minutos. Estas paragens dao para tudo, incluindo entrada de vendedores, de pedintes e de gente que se limita a espreitar para os compartimentos, provavelmente a espera de um olhar conhecido. Quanto a mim, la me debatia com um problema de tipo capitao Haddock, so que em vez de tentar descobrir se devia dormir com a barba para dentro ou para fora do lencol, procurava decidir qual a altura a que devia por os pes. A partir das 3 da manha, ja nao tinha posicao e o corpo estav completamente dorido da desconfortavel posicao. Achei que ja tinha a minha conta e acabei por levantar a parte superior do improvisado colchao e prendi essa parte a parede, ficando com um banco mais ou menos normal. Embora o vizinho de cima tenha sido rapido a dizer que nao era assim que as coisas funcionavam, reolvi ignora-lo e la consegui passar pelo sono. Quando acordei, la para as 4, ja nao tinha os meus acompanhantes ao lado e em cima e presumi que ja tinham saido de cena, numa qualquer estacao do percurso e gabei-lhes o sentido de orientacao porque ninguem indica a estacao em que se parou e so o cumprimneto estrito dos horarios garante que estamos a sair na estacao exacta. A casa de banho do comboio merece os maiores encomios, uma vez que nao destoa do restante ambiente e nao implica nenhuma dissonancia cognitiva. Esta, apesar disso, num patamar que oscila entre o filthy e o awful. La continuei viagem, com mais uma visao de um ratito, nao sei se o mesmo do inicio da viagem ou um parente proximo e, com o raiar do dia voltei ao meu Kindle e a uma leitura muto academica - Stigler a perorar sobre os Anial Spirits smithianos e nao so. Assim que retomei a leitura, o meu compartimento que tinha estado vazio por uma duas horas, voltou a ser ocupado agora por um indiano de aspecto sombrio e que parecia um pouco agastado com o mundo. Com a leitura, as horas la passaram mais rapidamente e pelas 12.30 cheguei a Varanasi, tendo-me dirigido para o hotel Siddharta que me aguardava ansiosamente. O hotel, como quase todos onde tenho pernoitado, e um bom exemplo de decadencia. Provavelmente ja teve melhores dias, mas agora e uma clara espelunca, mas com algum estilo. Neste hotel nada funciona - autoclismo, televisao, telefone, refeicoes. Pedi para mudar de quarto, mas explicaram-me que o mal era geral e que os outros quartos nao estavam melhor. Resolvi ficar. Os lencois estao lavados, mas as nodoas abundam e as toalhas sao mais ou menos fofas, mas a brancura de outrora foi substituida pelo belo tom antracite que esta muito em moda nos hoteis indianos e que fica muito bem com o estado das paredes e do chao. Julgo que seja uma moda meia estacao e ate aos proximos desfiles de Paris e Roma, esta vai ser a cor que encontrarei. Como nao tinha drmido nada no comboio, dediquei a tarde ao repouso e adiei a visita a cidade propriamente dita para um reconfortante amanha. O jantar foi como sempre muito bom, embora me esteja rapidamente a converter ao vegetarianismo, nao por qualquer operacao de transformacao mitico-religiosa, mas porque estou farto de borrego/cabrito e de galinha, duas das carnes que menos aprecio. Estava desejoso de ver o culminar do mundial de F1, mas com a televisao fora de combate, nao pude acompanhar o GB brasileiro nem sequer pude seguir as vicissitudes da actuacao de uma jovem promessa do cricket australiano que da pelo nome de Moises Henriques. Entao nao e que o rapaz me tinha surgido na vespera num oraculo de TV que declarava que esta jovem sensacao do cricket australiano tinha nascido no Funchal e era conterraneo do world famous Cristiano Ronaldo? Pois e, o cricket nao tem merecido as nossas atencoes, mas deviamos comecar a olhar para este desporto com outros olhos.

sábado, 17 de outubro de 2009

Um amor imenso




Agra e uma cidade comum, mas oferece do mais belo que ja vi na India. O Taj Mahal e, de facto, um exercicio soberbo de arquitectura, de equilibrio, de simetria, de localizacao, de vistas e exibe uma leveza raramente encontrada em edificios deste tipo. E e tambem um mausoleu dedicado a um grande amor, um amor daqueles que raramente se encontra na vida real, sobretudo por transcender a vida dos proprios amantes. Nao o procurei, nao o planeei, mas foi uma coincidencia feliz que a minha visita ao Taj Mahal tenha ocorrido exactamente um ano, ao dia, apos a morte do meu pai. Hoje, mais do que em qualquer dia deste ultimo ano lembrei-o e sobretudo imaginei o quanto ele gostaria de ter feito esta viagem. Nao acredito que a India fosse o seu destino de eleicao, mas teria certamente apreciado a viagem, ele que tinha o bichinho do viajante, embora nunca tenha conseguido concretizar essa parte dos seus sonhos. Como muitos pais, sublimou os seus desejos e viveu-os muito pelos actos dos filhos a quem sempre se dedicou e por quem, em parte, abdicou de algo que gostaria de ter feito. Tenho a certeza que teria ficado deliciado por poder dizer que o seu rapaz estava a fazer uma volta ao mundo (ou quase) e iria proclamar jusnto dos amigos que ele tem um blog onde regista as suas desventuras no velho sub continente. Quase consigo imagina-lo ao telefone, a falar comigo e a perguntar "Entao filho, esta tudo a correr bem?" e depois eu dizer-lhe qualquer coisa sobre o nosso Sporting e ele responder qualquer coisa de diferente porque nunca conseguia ouvir e passarlogo o telefone a minha mae. Mas a visita ao Taj Mahal tambem e significativa por ser um mausoleu ao amor e, embora seja suspeito e nao isento, nunca encontrei nenhum homem que amasse tanto a companheira de uma vida como o meu pai. Ao longo dos mais de 50 anos que viveram em conjunto, sempre olhou para ela como se fosse a menina que tinha comecado a namorar ha mais de meio seculo. Ja perto da morte, continuava tao apaixonado como no inicio. Para mim, que sou cinico e ceptico como o meu pai nunca foi, que nunca amei, como o meu pai amou, so posso prestar-lhe a homenagem devida a um homem que nao so era bom, mas a quem devo algumas das melhores coisas que tive na vida, nomeadamente a minha paixao por saber e o gosto pelos livros. Tenho pena que nao possa ter concretizado muitos dos seus sonhos ou tenha decidido nao os viver, por achar que assim proporcionava uma melhor vida aos dois filhos. Tenho pena que tenha morrido sem que pudesse ter visto um neto. Tenho pena que nao possa ter tido um ano mais que desejava, ele que amava a vida como eu nunca amei nem amarei. Mas tenho a certeza que, apesar de sentir o fim aproximar-se e ter a nocao da morte, tenha sido feliz e realizado. Nesse sentido, nao posso deixar de exprimir uma pontinha de inveja por um homem que teve o que nunca tive nem terei, mas a quem presto aqui a minha homenagem. Agra e, pois, uma cidade entre o vermelho e o branco marmoreo fo Taj Mahal - um branco que muda de tonalidade consoante a luz do sol ou da lua e dos reflexos do ceu, mais claro ou mais plumbeo. O guia foi o melhor que ate aqui encontrei e foi um bom cicerone quer no Taj Mahal quer no forte de Agra, sempre com descricoes cuidadas e com palavras acertadas. Ao contrario de muitos guias, respondia as perguntas que lhe fazia, sem repetir o que ja tinha dito. Foi uma jornada interessante e provou que se pode sempre aprender. Por outro lado, la me encaminhou na direccao de um fotografo que me propos tirar 36 fotografias deste figurao em pose junto ao Taj Mahal. Disse-lhe que nao que nao apreciava propriamente o modelo e que so a minha mae olharia para a fotografia de um modelo tao fraco. Ele insistiu, e la reduziu o numero para o minimo possivel - 15 - e que ainda me dava uma de brinde. Assim, la fiquei com 16 belas fotografias do Taj Mahal, manchadas pelo meu sorriso amarelo e as minhas poses ridiculas. Ate fiquei com uma foto, de braco levantado como se estivesse a agarrar o ponto mais alto do mausoleu. depois de ver o resultado, so nao me escondi atras de uma arvore porque nao havia nenhuma e a paisagem era arida. Bom, la ficara a minha mae com umas 15 fotografias, dou outra a minha irma, que por amor fraternal, nao dira que nao, e procurarei esquecer este momento que fica registado nos anais como mais uma vergonha pela qual um homem as vezes passa. Como hoje e o Dhivalli, o tal festival que tem consumido as energias indianas dos ultimos dias, nao irei a um espectaculo para o qual tinha uma pre-reserva. Como ja fiz o check-out do hotel, terei de andar ai de um lado para outro, a fazer horas para apanhar o meu comboio nocturno para Varanasi, o que devera ser uma experiencia inesquecivel, especialmente para mim, que sou tao esquisito com o dormir e vou viajar acompanhado de mais tres cromos, dos quais nao sei nada. Ja tive hoje a minha dose de visitas a lojas que fazem parte de todos os programas turisticos, onde me tentaram impingir desde mesas de marmore, feitas pelos descendentes daqueles que construiram o Taj Mahal (parece haver ai uns 2200), mas que vivem bem pior que os seus antepassados que, segundo rezam as cronicas ganhavam qualquer coisa como 10000 USD contemporaneos. O guia garatiu-me que os imperadores mughal eram empregadores de categoria e que nao recorriam nunca a trabalho escravo para estas obras importantes, recrutando por todo o mundo e importando os melhores produtos, como era o caso, dos vidros belgas. Os Mughal eram de facto extremamente tolerantes e produziram uma resplandecente fusao de estilos e de culturas que constitui testemunho de uma riqueza que a India nao mais atingiu. Finalizo esta cronica de hoje, com muito calor, completamente suado, imaginando o que vai ser a experiencia do comboi, sem sequer poder passar-me por agua!!! Esta e para duas leitoras especiais! Varanasi, antiga Benares, a cidade mais santa dos hindus, a cidade dos gat e do Ganges sera o proximo destino.

Um rapaz honesto




Hoje nao ha acentos nem cedilhas. Estou a escrever de um cyber cafe. Tenho estado sem net, o que nao e muito agradavel. Ontem fiz a jornada de Jaipur para Agra, entre os acompanhantes do costume - vacas, caes, mercados de rua, lixo (muito), excrementos (ainda mais) e uma pequena chuvada para arrefecer os animos. Nesta auto-estrada, as faixas eram inteiramente livres e veiculos em contra-mao, pelo menos pelos nossos padroes, eram mais que comuns. Tinha agendada uma visita ao complexo de palacios e templos de Fatehpur Sikri e assim fiz. Fui acompanhado por um esperto guia muculmano, cheio de manha e de recursos que me orientou no complexo esquema de edificios. Em primeiro lugar, vale a pena dizer que a visita e um dos musts desta parte da minha jornada. O complexo e lindissimo e deve a sua origem ao grande imperador Akbar, rapaz dado a sincretismos religiosos e matrimoniais, cuja tolerancia ficou tao assinalada como a diversidade cultural das suas tres mulheres (fora as concubinas reais que eram mais que muitas). Durante alguns anos, ao longo do seu reinado, Akbar pretendeu mesmo fundir os islao, o cristianismo e o hinduismo numa grande religiao universal, ideia esta que nao esta muito longe da simbologia da bandeira da Uniao Indiana - laranja dos hindus, branco dos cristaos e verde dos muculmanos. Neste espirito, Akbar casou com uma muculmana turca (conhecida pela sultana), com uma crista portuguesa de Goa, de sua graca Maria, e com uma hindu. No entanto, apesar do melhor dos seus esforcos Akbar teve muitos anos sem filhos ate que finalmente a sua esposa hindu lhe deu um rapaz que iria ser o seu herdeiro. Em homenagem aos contributos de um sufi a quem Akbar atribuiu o milagre do nascimento, construiu um templo branco, no meio do recinto de templos que forma Fatehpur. Nesse templo particular dedicado ao sufi, e suposto (ja vamos ver em troca de que) pedir tres desejos - um para o proprio, outro, para alguem que se ama e outro para um amigo ou familiar. Alias, pelo que percebi, os dois ultimos podem estar relacionados com quem quer que se deseje. Estes desejos sao realizados, atando uma fitinha previamente fornecida a uma das janelas rendilhadas em pedra do templo. Julgava eu que tudo isto se passava na maior pacatez e sentido de hospitalidade indiano, mas nao. Fui encaminhado para uma area reservada, onde os ajudantes do iman residente me explicaram como e que o processo decorria - comparava-se um pano para sari para oferecer aos pobres, bem como a fitinha e la poderiamos ir ao pe do sufi, depositar o pano e atar a fitinha e expressar os desejos (que deveriam ser secretos para se poderem realizar). E o preco para tamanha generosidade de pedidos - tres nem menos? Comecava nas 1500 rupias e continuava por ai acima. Eu, como profundo crente e sobretudo como protector das viuvas e dos orfaos, la acedi a comprar o paninho mais barato para poder ir ver a tal procissao das fitas atadas as janelas de pedra. Parti com a confirmacao do guia e do jovem assistente do ima que aquele dinheirito ia ser bem empregue, que nao estavam ali para enganar ninguem e que nao forcavam ninguem a comprar, bla, bla, bla. Continuei a visita do complexo que, como disse, merece a pena ser visto e sentei-me a espera que o guia fosse a mesquita realizar as suas obrigacoes de oracao - sempre era uma sexta-feira. Enquanto o guia fazia as suas rezas a hora certa, uns miudos que tinham corrido ao meu lado durante a subida de tuk tuk, vieram outra vez ter comigo. O primeiro queria saber quanto valia em rupias, a moeda de 50 centimos que lhe tinha sido dada por um espanhol forreta e depois de saber que so valia cerca de 35 rupias e de dizer um palavrao qualquer em hindi, dedicado provavelmente a nobre mae do subdito de Juan Carlos, perguntou-me se eu aceitava a moeda de volta, mesmo que em troca de apenas 10 rupias. Logo a seguir perguntou-me se os espanhois eram todos assim e se eu, porque recusara a troca, tambem era espanhol. Como nao acedi aos pedidos de troca nem de compra de postais, la lhe dei uma esferografica para ver se o jovem se ia embora. So que o colega, tambem dos seus sete ou oito anos, era um petiz mais arguto e disse-me logo - como e que pode dizer que nao tem dinheiro para me dar, se comprou essa porcaria do pano, mais a fitinha que lhe devem ter custado ai umas 500 rupias. Respondi-lhe que tinha custado um pouco mais e imeditamente franziu o sobrolho, abanou a cabeca e fez um gesto esclarecedor em qualquer lingua quando nos queremos referir aos meritos intelectuais daquele com quem falamos. Continuou imediatamente o miudo, dizendo: deu esse dinheiro e metade e para o guia, uma grande percentagem e para o ajudante e so o resto e que vai para caridade - eles sao uns grandes vigaristas. Eu, ando aqui com postais mas nao forco ninguem. Quem compra compra quem nao quer, nao quer. I don't push anyone. Perante tao clarividente e honesto jovem, tive de me render a evidencia - nao passo de um patego ocidental, com a agravante de ate saber que esta a ser enganado e ainda assim nao protesta e nao diz nada - e uma especie de reverse colonialism. Enfim! O guia la voltou dos seus deveres religiosos, correu com os dois miudos, dizendo que eram uns malandros(!!) e encaminhou-me para o local em que podia exprimir os meus desejos, completamente abencoados nao so pela minha dadiva, mas tambem por estarem a ser feitos numa sexta-feira - tudo muitissimo auspicioso. Quanto aos desejos propriamente ditos, tenho de os manter para mim, sob pena de nao se concretizarem. Esqueci-me foi de perguntar se essas aspiracoes eram de todos os tipos ou se as mais pecaminosas ideias estariam excluidas do rol. Optei por exprimir desejos totalmente impuros para que, em caso de nao realizacao, se possa dizer que nao foi a divindade que nao cumpriu, mas fui eu, que pelos meus impuros pensamentos e palavras, actos e omissoes (que tambem devem existir no Islao), me candidatei a um violento correctivo. Exprimir desejos e aceitavel, mas ha que ter tento, controlo e exprimir tudo nos ditames correctos da submissao que, como ja disse anteriormente, e a ideia chave do Islao. Portanto, la vim do templo mais impuro do que tinha entrado, mas satisfeito por ter tao impuros desejos, mesmo num espaco sagrado e regressei ao tuk tuk para descer a colina ate ao carro e ao meu condutor, o nosso velho conhecido Mr Singh, um homem que tem por habito, nas rectas, tirar as maos do volante e comecar a rezar. Rezar estav quase eu a comecar quando via o numero de carrocas, vacas, tractores e motoretas que passavam em contra mao, rente ao nosso Tata Indigo que , apesar do modelo nao o indicar, era branco. Seguiu-se a troca de guias e la fui ate Agra com um novo e sabedor mestre de cerimonias que me disse imediatamente o que poderia mostrar em Agra, para la das reliquias que sao o Taj Mahal e o forte de Agra.

quinta-feira, 15 de outubro de 2009

Perfume de Elefante




Em primeiro lugar, um aviso à navegação para os mais puristas da língua - o blog, tem erros, falta de pontuação e gralhas. Eu sei! Mas escrevo estas crónicas nos intervalos em que a net funciona, não tenho spelling checker no meu netbook e tenho de me despachar em 20 minutos, no máximo. Por isso, nunca edito nem corrijo. Tem desvantagens de forma, mas tem mais autenticidade porque é tudo ao fluir da pena. É por isso que horas não são oras e espáduas às vezes ficam espadas e por aí adiante. De manhã, uma grande contrariedade. Não há água! Oh inclemência, oh martírio, estará periclitante a sorte deste nobre e querido menino. Vou para o pequeno-almoço completamente irritado e nem a torrada com uma manteiga insípida e um café aguado desliza bem. Regresso a tempo de tomar um duche rápido com água fria, que a caldeira demorava a aquecer, provoco uma pequena inundação, faço a mala e aí vou eu para o Forte de Jaipur, obra interessantíssima, mas mais interessante ainda foi a subida até lá por uma colina extremamente engarrafada e com choques frontais, ultrapassagens no limite, derrapagens e com veículos dóceis, mas por vezes um pouco cansados. Já perceberam que os veículos estão vivos e dão pelo nome de elefantes. É verdade, fiz o percurso de 20 minutos no dorso de um pacato elefante que, por sorte dele, só teve de alombar com os meus 92 ou 93 kg., mais o peso negligenciável do cornaca. Já o seu vizinho(a) de trás manifestava mais dificuldades, tendo sido ultrapassado por dois competidores mais poupados e a correr em negative split (como mandam as regras). Olhando com mais pormenor, percebi as dificuldades do paquiderme, nas suas costas sentava-se um casal espanhol bastante ruidoso que, juntos, deviam pesar uns 250kg. Ele há elefantes com azar. O trabalho é feito por 115 mudos primos afastados dos mamutes que lá vão colina acima colina abaixo, justificando com o suor do rosto, os míseros cuidados que lhes são dedicados. Mas consolem-se, o trabalho já não é tão árduo como antigamente. Até há poucos anos, trabalhavam de sol a sol e alguns chegavam ao fim do dia mais mortos que vivos. Entrou em acção uma liga de defesa dos direitos animais que conseguiu interceder pelos pobres e limitou os trajectos diários a 4. Assim, chegam de manhã cedo e lá para o meio-dia têm o trabalho concluído e vão para casa para as massagens devidas a atletas de alta competição. A viagem em si mesma não teve grandes emoções. O balançar ritmado dificulta as fotografias, mas como se vai agarrado a uma espécie de grade que nos protege das quedas, a coisa até não vai muito mal. O único problema é que o chão está coberto de excrementos dos transportadores (sempre são 115) e de vez em quando, as trombas vão ao chão, inspiram e lá voa qualquer coisita em direcção ao cornaca e ao passageiro. Não fui dos mais afectados, mas as minhas calças já não estão virginalmente preservadas e o meu cheiro ficou marcado para o resto do dia, tendo de usar dose extra de repelente porque durante uns 10 minutos, eu oferecia néctar e ambrósia para os insectos que pairavam pela zona e que incluíam as maiores libelinhas que alguma vez vi. Como disse, a visita vale a pena e dispensam-se as descrições arquitectónicas ou os comentários do guia relativamente ao número de mulheres e concubinas do marajá de Jaipur, desde a constituição do reino, ao seu trabalho para o grão mogol e por aí adiante. Foi uma visita de cerca de duas horas que constituiu um tempo bem passado. Desci depois para o Wind Palace onde o marajá passava os meses insuportáveis de Verão (temperaturas perto dos 50 graus) e que fica no meio de um lago artificial. Aí caí na asneira de aceitar fotografar um grupo de raparigas indianas que, obviamente, pediram de imediato dinheiro. Quando dei, saltaram mais umas que correram na minha direcção - velhas, novas, assim assim, mas todas mais magras do que as modelos anorécticas dos desfiles de Milão. Perante a minha recusa, a grávida apontou para a barriga e sinalizou que tinha de comer e, para o caso de eu não acreditar na gravidez, baixou o vestido para que eu visse pela dimensão do peito que estava mesmo grávida. Movida pelo gesto da sua companheira, outra das raparigas resolveu também mostrar os seus dotes peitorais, apontando para a minha mão e fazendo sinal de agarrar. Lá consegui dizer que não que já não havia mais dinheiro para ninguém, mas lá apareceu o guia a dizer que eram um grupo de very dity hookers (se ele não dissesse eu não dava por nada!!) e no meio da confusão lá me escapuli para o carro. Bem, safei-me das dirty hookers, mas não me safei do guia que, como é proverbial, corta duas visitas a monumentos com idas a lojas onde tem comissão e que são invariavelmente as melhores da cidade, com artistas únicos e objectos da maior qualidade. A minha sorte é que digo sempre que vou em viagem de três meses e que não é fácil transportar muita bugiganga. Nunca ficam condoídos e dizem logo que podem mandar tudo pelo correio, do Japão à Europa e de África aos Estados Unidos. Depois, faço o número do português pobrezinho, mas este resulta mal porque andar três meses por fora custa algumas coroas e já que o faço, bem posso dar algum a ganhar a indianos mais pobres. Lá acabei por comprar umas lembranças natalícias em período de Dhivali e arranquei para o resto da visita a um observatório astronómico notável, com cálculos de hora com margens de dois segundos e feito há mais de 100 anos, e que permite, para os que são mais desses terrenos, traçar mapas astrológicos, com ascendentes e descendentes (estes não sei se existem). Depois do observatório fui ver o palácio, bem interessante, dos marajás de Jaipur, com histórias várias, incluindo a de um deles que media 2,10m, pesava 220 kg e bebia 5 litros de leite ao pequeno-almoço. Tirei umas fotos pagas aos guardas e fui almoçar. No regresso, mais uma incursão por lojas, para dizer que não queria mais tapetes, tecidos, móveis, jóias, mas escreveram o meu nome num bago de arroz!! E lá tive de comprar qualquer coisita para justificar a amabilidade. De regresso, fui surpreendido pela mudança de hotel, mas vá lá que este é um bocadinho menos mau que o anterior e o ar condicionado funciona. Um chuveiro (frio) lá me tirou parte do cheiro a paquiderme. Amanhã, mais 5 horas de viagem, a caminho de Agra e do Taj Mahal que só verei no sábado porque sexta é dia santo dos muçulmanos e está tudo fechado.

Uma auto-estrada sui generis




Depois de um dia intenso em Delhi, chegou a hora de partir para Jaipur. O condutor do meu carro - o Sr. Singh (obviamente um Sikh), com o seu turbante azul, barba muito branca e passos ligeiros, disse-me que a distância era de 250 km e que deveríamos demorar cerca de 5 horas pela auto-estrada. Estava em ritmo distendido e, depois de na véspera ter visto um pelo da barba do profeta e um dos seus chinelos na grande mesquita de Delhi, estava tranquilo e pronto para o que desse e viesse - tal é o poder apaziguador das relíquias. A saída de Delhi demorou cerca de 1 hora e um quarto, no ambiente de trânsito mais caótico que já vi - 6 faixas transformadas em 10, motos pelas bermas, peões a correr, bicicletas, riquexós, num ambiente de caos organizado. O lema indiano para as estradas é good horn, good brakes e good luck, o que faz todo o sentido do mundo. No entanto, as buzinadelas constantes não são um sinal de impaciência pela ausência de atenção ou movimento dos outros, mas uma marca de identidade. Buzinar quer dizer estou aqui, prestem atenção a mim, que vou pela esquerda (ou pela direita, ou por qualquer lado). O condutor indiano não deseja passar percebido, quer ser notado, visto e principalmente ouvido. Um condutor sem buzina é um condutor morto, ou à espera de o ser. Quase todos os camiões, e são milhares deles a percorrer os 250 km de Delhi para Jaipur, têm pintado na sua traseira “please horn “ou, de modo ainda mais cívico “it is ok to horn”. Deste modo, os camiões saberão a localização de outros veículos e poderão comportar-se de acordo com a audibilidae do outro. Isto é tanto mais importante quanto verifiquei que muitos condutores põem simplesmente para dentro o retrovisor esquerdo (aqui conduz-se na wrong side) porque é de nula utilidade em ambientes de condução ao ouvido e não à vista. Os condutores indianos devem mesmo ser os maiores calculadores de distâncias que a terra alguma vez viu e conseguem encontrar espaços, onde um ocidental não faria entrar nem um carro de linhas. Um dos efeitos destes sons estridentes é que os animais se habituaram a eles e estão caladinhos e nem piam. Isto é válido para cães, vacas, galinhas, patos, camelos, cabras, elefantes, cavalos e macacos, só para mencionar aqueles que entraram na “auto-estrada” em determinados momentos do percurso. Ainda na saída para a auto-estrada e com milhares de veículos à minha volta, ouvi o Sr Singh murmurar qualquer coisa, parar o carro numa das faixas, sair do carro, saltar entre carros e motas e desaparecer no horizonte. Sozinho no belo Tata branco, comecei a ver todo o tipo de rodas e carroçarias a deslizarem à esquerda e à direita, comigo próximo de me tornar em recheio de sandwich. Não sou de me assustar, mas tive de pensar que seria o meu último dia. Para minha tranquilidade, verifiquei que havia mais condutores a fazer o mesmo e que nenhum tinha sinalizado a sua paragem. O que o Sr Singh foi fazer nunca o saberei, embora tenha visto que transportava um papel amarrotado e velho com qualquer coisa escrita em hindi e com um carimbo azul que ocupava quase toda a folha. Se em relação ao Sr. Singh tenho dúvidas sobre o que fez, o mesmo não posso dizer de muitos dos restantes. Estes dirigiam-se invariavelmente à berma, imediatamente transformada em urinol público, o que na Índia é não só comum como invariavelmente aceite. À noite, chegado a Jaipur, tive ocasião de verificar que os passeios são escolhidos não para os peões caminharem, pois invariavelmente vão pela estrada, no meio de todo o tipo de objectos com rodas, mas para satisfazerem necessidades mais urgentes, maioritariamente do tipo mais rápido, mas, por vezes, de um tipo mais lento, a menos que a aflição seja muita. Já a população feminina é menos dada a estas satisfações públicas de necessidades, embora as sem abrigo que dormem ao relento e que são milhares, não se coíbam d eo fazer ou de se banharem com uns púcaros de água. Depois desta breve digressão sobre sanitários ao relento, voltemos à viagem. O sr. Singh regressou ao carro, depois de uns 5 minutos que me pareceram horas e arrancou energicamente em diagonal, passando da meia faixa mais à esquerda para a meia faixa mais á direita em menos de um fósforo, passando uns, intimidando outros, fazendo test braking a mais alguns e dando toques (suaves) nalguns outros. Uma vez cumprido cm sucesso este empreendimento, virou-se para trás com um largo sorriso, à espera provavelmente dos meus parabéns. Tendo saído desta circular de Delhi, esperava eu que o caminho pela auto-estrada fosse calmo. Erros meus, má fortuna… Não, a cavalgada de buzinadelas, travagens bruscas, paragens intempestivas e sustos vários ainda não tinha terminado e esperava-me uma longa jornada. Mesmo depois de sair de Delhi, a neblina de poluição e calor continua. Os meses depois da Monção são os piores para os asmáticos e é muito comum ver gente com lenços na boca para evitar fumos e restante matéria (de todos os tipos) em circulação no ar. Pela minha parte, estou com os brônquios para as curvas e não há poluição que me chegue (por enquanto). Uma das portadoras de lenço, com umas pernas incrivelmente gordas e brancas tinha passado por mim em Delhi com um ar de horror e completamente perturbada dizia para o seu igualmente avantajado marido “This is just awful… I had no idea that indians hated jews so much!!! Look, look, there it is again… Shame on you, shame on you”. Só consegui perceber a revolta e a irritação da robusta yankee quando olhei para a porta da casa apontada e verifiquei que no seu portal estava um dos símbolos mais comuns do hinduísmo - uma suástica sinistrogira, exactamente igual às que foram incorporadas na simbologia nazi e que nos filmes de Hollywood aparecem quase invariavelmente representadas como suásticas dextrogiras. Não disse nada à senhora, mas para informação dos mais perturbados, convém referir que a civilização hindu precede em alguns anitos o camarada Adolfo e que suásticas é o que não falta nas representações religiosas e míticas dos Balcãs à América do Sul, do norte da Europa à Índia. Mas deixemos este fait divers e regressemos à viagem. O desfile de camiões de todos os tipos e em todas as condições, ocupando indiferentemente as duas faixas de rodagem era tão constante que me pus a observá-los com mais atenção e notei, coisa maravilhosa, que possuem um registo de propriedade ora pintado ora decalcado na parte traseira do veículo. Registo de propriedade não significa nenhuma afirmação legal ou legalizada, mas apenas: este carro - segue-se a indicação da matrícula - pertence ao sr Suresh qualquer coisa, morador em. Como muitas das matrículas traseiras estão desaparecidas em combate e muitos pára-choques já foram substituídos por uns novos, em madeira, parece fazer todo o sentido tomar umas precauçõezinhas. À medida que a viagem corria, dei-me conta que muitos destes países em processo de modernização acelerada têm a característica de deles se poder dizer que os visitámos cedo de mais. Tudo estará feito em 10, 15, 20 anos. E é provavelmente esta esperança diferida no tempo que os faz viver estoicamente numa miséria que seria insuportável para outros. Quanto a nós, é bem possível que um visitante possa dizer que chegou tarde de mais - nada há para conquistar e só resta a complacência e o deixa andar. Por aqui há vida como só pode existir para aqueles que têm de lutar por ela. Para mais de 600 ou 700 milhões de indianos viver significa acordar todos os dias e saber que é preciso esforço e luta para chegar ao terminal. Não faço uma apologia da miséria, do sofrimento ou das dificuldades enobrecedoras de carácter, mas nunca encontrei ninguém tão vivo como nas ruas de Delhi ou Jaipur. A auto-estrada dá uns ares à nacional 125 e existem cruzamentos por todo o lado, de onde podem surgir tractores, carroças e peões, para além de vacas e camelos. Os condutores pareceram-me mais cuidadosos em evitar as vacas do que os peões que caminham aceleradamente para o trabalho com as suas pequenas marmitas nas mãos. Ainda assim, é inacreditável ver como, vindos do nada, surgem todos os tipos de obstáculos. Já para não falar nas alturas em que esta excelente via rápida cruza uma localidade com as suas barracas de zinco a cair de podre, mas onde há sempre algo para vender, no meio de excrementos, lixo, crianças nuas e esgoto. Nesses casos, a estrada interrompe-se numa rotunda, para continuar um pouco mais além. A reciclagem do lixo tem aqui um outro valor, quiçá menos ecológico, mas certamente mais ligado à sobrevivência. Reciclar é pesquisar o que ainda há de aproveitável no lixo, não é reutilizá-lo. Reciclar o lixo é arranjar um pedaço para comer, encontrar algo que componha a barraca onde se vive, ou se encontre um pedaço de ferro velho que se possa vender. E os homens não são os únicos que espreitam no lixo, corvos em bando e vacas pachorrentas fazem o mesmo. Aqui e ali sou confrontado com algo que a Índia oferece com alta qualidade - a educação. No meio da estrada emergem motas carregadas com 12 a 15 alunos, onde no máximo, caberiam 4 ou 5. Ruidosos e imaculados nas suas fardas de colegiais, eles constituem a elite de estudantes que, infelizmente para a Índia, um dia encontrarão o caminho para Harvard ou para o MIT para não mais regressarem. Este é sem dúvida um dos pontos de divergência entre os dois grandes gigantes asiáticos - a China aposta numa formação base para todos, mas não forma (por enquanto) técnicos de ponta nos sectores mais decisivos. Já a Índia cultiva a excelência, mas continua com taxas de analfabetismo estratosféricas. Nas grandes universidades indianas que, em sectores tecnológicos estão entre as melhores do mundo, chegam a existir 100 candidatos para cada vaga e os poucos que entram são uma elite predestinada ao sucesso. Na China, o analfabetismo é residual e a força de trabalho básica é das mais capazes. Por enquanto, e em termos de resultados, a China vence por assentamento de espadas. Mas cabe perguntar, o que acontecerá quando a Índia despertar deste torpor e desta falta de organização. Para quem tem dúvidas sobre o impacto dos elementos sociais, culturais e políticos nos processos de desenvolvimento visite os dois colossos asiáticos e responda. Mesmo na via rápida, sempre que o Sr Singh pára, lá tenho uma batalhão de pedintes a bater no vidro e vendedores de todos os tipos de fios, pulseiras, objectos de madeira e afins. Os hotéis e motéis de beira de estrada são barracas esquálidas que devem ter como clientela os milhares de camionistas que aqui circulam. O mais espantoso é alguns deles anunciarem restaurante e hotel com ar condicionado num espaço que não superará os 50 m2. Páro para almoçar no meio do caminho, num restaurante chamado Dughera que, comparado com os restantes, é luxuoso, facto facilmente comprovável pela clientela ocidental e pelos preços da refeição - à volta de 6 euros, demasiado caro para qualquer camionista em trânsito. Aqui e ali, como seria de esperar numa estrada de camionistas em qualquer parte do mundo, transitam algumas prostitutas, demasiado cansadas para assediar quem quer que seja. Quando se entra no Rajastão, os camelos começam a substituir os cavalos e os passageiros das motos já não estão sós a não usar capacete, os condutores também não o têm. Cruzo uma reserva de tigres (já restam muito poucos na Índia e multiplicam-se os hotéis de luxo à entrada de Jaipur. O hotel é desagradável, mas deve ter sido um belo edifício quando a cidade rosa (nome dado a Jaipur pela coloração avermelhada dos seus edifícios) estava no seu auge e quando o Maharaja de Jaipur era uma grande figura nos anais do pólo e nas recepções internacionais. O ar condicionado não funciona e está um calor insuportável. A casa de banho é de ir às lágrimas, mas pelo menos o repelente que uso parece mesmo afastar os insectos. Lá terei de colocar a rede para dormir sem ser comido vivo. O chuveiro é isso mesmo, uma chuvinha de água fria que cai no chão e aproveita o inclinado do solo para resvalar para um orifício de aspecto sinistro e sujo. Saio para as ruas de Jaipur, situadas dentro das muralhas e existe uma agitação febril porque se está comemorar a semana que termina com o Dhivali, um festival que no sábado terá o seu corolário e que envolve, um pouco como o Natal cristão, troca de presentes. É a hora de regresso a casa dos trabalhadores e há milhares deles em movimento para apanharem os autocarros que, por milagre ainda andam, e que os transportarão a casa. Estes são tão velhos como os de Delhi, mas não exibem o dístico que é mostrado pelos da capital - a maior frota do mundo movida a combustível ecológico. A avaliar pelo estado dos veículos, pelo barulho e pelo fumo, nem me atrevi a perguntar qual a ecologia escondida no combustível. Em Jaipur vende-se de tudo na rua. Latas, tecidos, fruta, madeiras, móveis, comida feita localmente em grandes potes e marmitas, etc. Caminho entre ratos, vacas deitadas, pedintes já em sonolência, lixo, excrementos de diversas proveniências, cidadãos que tomam o seu banho retemperador e motas e carros e bicicletas e gente e gente eruído e buzinas e tudo. Ando cerca de três km, entre barracas e gente, até que chego ao gold souk, organizado muito à maneira árabe e que apresenta uma enorme quantidade de lojas de diamantes, ouro, pedras preciosas, muito do agrado dos indianos. Fico-me pelo restaurante Niros, uma pérola recomendada em todos os guias, onde como, como é usual na Índia, muito bem e pago apenas 11 euros. Faço os 3km de volta e preparo-me para a ida ao Amber Fort amanhã. O calor é muito e não consigo dormir. Bom, amanhã é outro dia.

terça-feira, 13 de outubro de 2009

A miúda de Delhi






Ver Delhi num dia é obviamente uma tarefa impossível. Mas um dia era o que tinha destinado para a capital e assim ficou. Assim que saí do hotel, o cenário dos pedintes a atravessarem-se à frente dos carros manteve-se e, acho que pela primeira vez em muito tempo, tive um assomo de sentimento paternal. Uma miudinha de 4 ou 5 anos, mais nua que vestida e pouco mais que pele e osso fazia flic flacs na estrada, à espera que o espectáculo (perigoso) lhe pudesse render umas míseras rupias. A criança tinha um daqueles sorrisos desarmantes , com os dentinhos muito certinhos e brancos a despontarem por debaixo de uma camada de sujidade que nem sequer permitia perceber qual a tez original da pele. O cabelo roçava o bronze, num misto de coloração solar e patina imposta pelo tempo sem ser lavado. Tive um daqueles ataques de pena que me chegam de 10 em 10 anos, de que não gosto nada e nos deixam um amargo de boca e confesso que tive vontade de pegar na miúda e trazê-la comigo. Eu que nunca pensei em adoptar ninguém, fiquei preso aos olhos negros e brilhantes da pequena de Delhi. Claro que não posso ignorar que o sentimento teve o seu correlato lógico na beleza da criança e, não há que mentir, não sentiria o mesmo ataque de piedade, se ela fosse feia e antipática. Como o trânsito não tem contemplações, rapidamente a perdi de vista e o ataque de piedade ficou por aqui e ainda bem porque corria o risco de não deixar de experimentar estas emoções, pelo menos em Delhi. A manhã foi despendida entre os monumentos e memoriais mais significativos da capital, com a passagem obrigatória pelo local onde Gandhi foi assassinado em 1948 e pelo parque em sua memória e ainda pela maior mesquita da Índia e pelo túmulo do segundo imperador mogol, trabalho precursor do Taj Mahal, com a diferença que este foi mandado erguer por uma viúva e o outro por um viúvo. Ambos são, no entanto, monumentos ao amor eterno e irrepetível. Entre visitas, e como não podia deixar de ser, fiz o meu baptismo de riquexó a pedais, com um indiano que pesava para aí uns 50 quilos a dar mostras de uma força que eu com quase o dobro do peso não consigo sequer imaginar. Condutor (ciclista) e conduzido (sentado) têm de dar alguma prova de coragem, dadas as tangentes (às vezes são mesmo secantes) que carros e motas passam aos milhares destes veículos em circulação. As bicicletas transportam tudo - por mim passaram ciclistas com 5 (sim, cinco) garrafas de gás de tamanho igual às portuguesas e sem serem peso pluma (os transportadores também não se parecem com a miúda da bilha da Galp), com sofás cama (!!), com electrodomésticos vários, computadores empilhados, com roupa de lavandaria, com papel e cartão (com uma altura de dois metros) e com gelo. O ciclista do gelo transporta-o embrulhado numa serapilheira inenarrável e parte-o com um picador em porções que vai distribuindo por vendedores de refrigerantes da mesma zona. A avaliar pela cor do gelo, percebe-se o porquê da recomendação de nunca aceitar gelo nas nossas bebidas. Depois de o ver partido, acreditem que estou sensível à ideia de beber tudo morninho. Os preços de entrada nos monumentos e parques variam com a origem do veraneante. Assim, o preço mais comum para indianos é de 10 rupias (cerca de 16 cêntimos) e, para estrangeiros é de 250 (cerca de 4 euros). A única benesse concedida aos forasteiros é que têm uma bicha só para si, enquanto os indianos esperam tempo sem fim para comprar as entradas. A manhã foi passada numa sucessão de calçar e descalçar à entrada de mesquitas e memoriais. Lá andei de piuguinha, armado em pipi, enquanto os indianos e a maior parte dos turistas iam descalços. Digo maioria porque alguns adquiriam uns panos que se colocam à volta dos pés para evitar a sujidade e as pedrinhas que se prendem aos pés. Muitos templos avisam - pode deixar os seus sapatos deste lado, por sua conta e risco, mas se os deixar aqui, tomamos conta deles (por 10 a 15 rupias). É verdade que não guardam nada, mas sempre se evita ficar à procura dos nossos entre umas centenas de pares. A comida indiana, ao contrário da chinesa, não tem uma diferença profunda entre o que é comido internamente e o que se vende nos restaurantes de suposta comida étnica. Os caris, os achars, os papadams, os kormas e os vindaloos são semelhantes e não há propriamente um choque de sabores. Quem gosta de spicy food está aqui nas suas sete quintas e pode regalar-se com a comida local. O único problema é que não sou um apaixonado nem por galinha nem por cabrito e porco e vaca são bichos que não entram na ementa local. Antes de almoço quase tive um encontro de terceiro grau com uns elefantes que viravam a esquina, mas de forma pachorrenta e com duas carroças puxadas por uns cavalos mais magros que os donos. Aliás, animais magros é o que se vê com fartura. Os cães, a quem não se ouve um ai, deslizam calmamente pelas estradas, mas não precisam de qualquer exame para comprovar que estão famélicos. Delhi está cheia de cães vadios, mas gatos ainda não vi (para pena minha). À tarde segui para o palácio presidencial que fica no topo de uma Avenida que lembra os Champs Elysées e se debruça sobre as duas câmaras do parlamento e sobre os palácios governamentais. Tudo aqui respira um ar britânico, não só pelo sistema westminsteriano, mas também por os portões presidenciais serem cópias de Buckingham. Mesmo mais de 60 anos depois da independência da maior democracia do mundo, a presença do Raj permanece bem viva na toponímia, nas instituições, nalguma arquitectura e no comportamento e pose dos funcionários públicos. Algo que se vê com muita frequência são casais de rapazes em passeio de mão dada, cenário que tinha já visto no Dubai e no aeroporto do Bahrain. Tanto quanto me foi dado perceber, trata-se de um gesto aceitável e sem qualquer conotação de comportamento homossexual. Tendo em consideração a postura dos países islâmicos relativamente à homossexualidade, seria estranho se estes passeantes fossem mais do que meros amigos. Vi hoje também o meu primeiro encantador de serpentes (que queria 100 rupias por uma fotografia da sua encantada bailarina) e tomei contacto com os avisos relativos a pickpocketing em Delhi, fenómeno outrora pouco comum, mas agora tornado frequente pela crise. Crise que divide as opiniões dos indianos com quem falei - para uns, a Índia não sentiu nada, para outros, está-se a viver um período difícil. Num dia, não dá para perceber… As obras estão por todo o lado e as mais visíveis são as do metro que vai ser alargado significativamente. Mas o carácter inventivo dos indianos é extraordinário e, tal como os passeios se transformam em pistas de motociclismo, quando inteiros, também se metamorfoseiam em alicerces de barracas que suportarão uma família durante alguns dias. Mais surpreendente ainda é a transformação de espaços de terra nos passeios em pequenas hortas, ode cultivadores improvisados vão buscar os seus vegetais - não me perguntem como funciona porque só vi uns velhotes com ancinhos e sachos a tomarem conta das verduras, debruçados sobre a terra. O final de jornada foi passado a tentarem convencer-me a comprar anéis, pulseiras, lenços, cortinas, divãs, alcatifas, brincos, perfumes e até mobília. Foi difícil recusar porque a armada de vendedores aproximava-se sempre com mais argumentos simpáticos e com baixas de preço consideráveis. Bem, já vai um tapete de Kashmir a caminho da minha mãe - veremos se chega ou se fica pelo caminho. Cheguei cansado ao hotel e ainda tive de tratar de problemas do troço de viagem para o Vietname e Birmânia e começar a fazer a mala para amanhã me por a caminho de Jaipur, capital do Rajastão. Encerro o dia e não consigo deixar de pensar na pequenita dos flic flacs e no que poderá fazer pela sua vida.