Estava em Águeda, de férias, e fazer percursos entre o Soto Rio e a Pateira de Fermentelos e entretinha-me a coleccionar cromos dos Jogos Olímpicos de Munique e de uma série chamada "Povos e Costumes Exóticos". Já não tenho uma ideia exacta de quais eram os povos contemplados na antropológica colecção, mas, ou por sugestão de viagem, ou por recordação precisa, quase consigo assegurar que alguns dos grupos contemplados na colecção foram aqueles que vi aqui, num terreno quase encostado à fronteira chinesa. Para se chegar a Sapa, vindo de Hanói, tem-se uma viagem nocturna de comboio (cerca de 9 horas e meia) a que se adiciona mais 1 hora por estrada. O local, em si mesmo, não é mais do que uma sucessão de lojas, restaurantes e hotéis de todos os tipos, mais um mercado e uma igreja, mas é a porta para a exploração dos habitats de algumas das minorias étnicas vietnamitas que fazem, do contacto com os turistas, o seu modo de vida. Tentam vender um pouco de tudo e lá vão falando inglêse francês, geralmente de melhor qualidade do que o exibido por muitos dos guias. As roupagens e as casas distinguem mais cada grupo do que as suas características físicas, embora, para todos aqueles que têm formação na área das ciências sociais fique sempre a ideia que há ali um pouco de invenção da tradição, para turista ver e ficar fascinado. O fascínio é também aqui correlato da ignorância ou do desconhecimento. Invariavelmente, a admiração é maior em norte-americanos e europeus do norte do que em europeus do sul, Os mais velhos destes, lembram-se ainda bem do que eram as aldeias nacionais há 40 anos e não ficam estarrecidos perante fornos a madeira, máquinas de coser a pedais, noras e alcatruzes, chãos de casa em terra, telhados em palha, panelas de ferro e por aí adiante. Mesmo sem o efeito surpresa, há que dizer que a descida de Sapa para estas aldeias tribais é um excelente exercício, não só físico (sempre são uns 7 ou 8 km), mas também cultural. As crianças são o elemento mais visível, frequentemente às costas umas das outras - as de 7 transportam às costas as de 1 ou 2 e vão tentando vender umas pulseiras ou carteiras de pano aos turistas que passam. Grandes e pequenos, têm na boca três perguntas sacramentais - uére yu fron? uats yó neime? Bái someting frómi? Por vezes, vão mais longe e perguntam por mulher, filhos e idade. Os campos cultivados em socalcos são abundantes em arroz e milho e, por todo o lado, deslizam patos e galinhas, porcos chafurdam e búfalos esperam pela nova época de cultivo, momento em que serão chamados a desempenhar os seus serviços de trabalhadores forçados. Entre pontes de corda e madeira, quedas de água, nevoeiro espesso, temperaturas na ordem dos 10-12 graus e caminhos empedrados cortados por riachos, lá fui contactando com os locais, visitando as suas casas para um chazinho de boas vindas (onde se tem de por de parte a tendência natural dos ocidentais para a limpeza) e inteirando-me dos porquês de algumas casas não terem janelas (não deixam entrar os maus espíritos) ou terem disposições particulares. Tive ocasião de fotografar dezenas de crianças e visitar as suas escolas, onde entusiasticamente cantam temas tradicionais e aprendem a fazer as suas contas e, para minha grande satisfação, fui amavelmente recebido por gatos, pequenos e pequeníssimos que vieram sempre ter comigo para umas festas que os consolaram a eles e a mim. Alguns, ronronaram deliciados perante as minhas festas e presumo que seja uma experiência a que não estão muito habituados. Os gatos nas aldeias vietnamitas são preservados por serem bons auxiliares no combate às pragas de ratos que podem dizimar as colheitas. Sapa vale bem uma visita, quanto mais não seja para recordar as raízes dos meus interesses antropológicos.
sexta-feira, 27 de novembro de 2009
Povos e Costumes Exóticos
Estava em Águeda, de férias, e fazer percursos entre o Soto Rio e a Pateira de Fermentelos e entretinha-me a coleccionar cromos dos Jogos Olímpicos de Munique e de uma série chamada "Povos e Costumes Exóticos". Já não tenho uma ideia exacta de quais eram os povos contemplados na antropológica colecção, mas, ou por sugestão de viagem, ou por recordação precisa, quase consigo assegurar que alguns dos grupos contemplados na colecção foram aqueles que vi aqui, num terreno quase encostado à fronteira chinesa. Para se chegar a Sapa, vindo de Hanói, tem-se uma viagem nocturna de comboio (cerca de 9 horas e meia) a que se adiciona mais 1 hora por estrada. O local, em si mesmo, não é mais do que uma sucessão de lojas, restaurantes e hotéis de todos os tipos, mais um mercado e uma igreja, mas é a porta para a exploração dos habitats de algumas das minorias étnicas vietnamitas que fazem, do contacto com os turistas, o seu modo de vida. Tentam vender um pouco de tudo e lá vão falando inglêse francês, geralmente de melhor qualidade do que o exibido por muitos dos guias. As roupagens e as casas distinguem mais cada grupo do que as suas características físicas, embora, para todos aqueles que têm formação na área das ciências sociais fique sempre a ideia que há ali um pouco de invenção da tradição, para turista ver e ficar fascinado. O fascínio é também aqui correlato da ignorância ou do desconhecimento. Invariavelmente, a admiração é maior em norte-americanos e europeus do norte do que em europeus do sul, Os mais velhos destes, lembram-se ainda bem do que eram as aldeias nacionais há 40 anos e não ficam estarrecidos perante fornos a madeira, máquinas de coser a pedais, noras e alcatruzes, chãos de casa em terra, telhados em palha, panelas de ferro e por aí adiante. Mesmo sem o efeito surpresa, há que dizer que a descida de Sapa para estas aldeias tribais é um excelente exercício, não só físico (sempre são uns 7 ou 8 km), mas também cultural. As crianças são o elemento mais visível, frequentemente às costas umas das outras - as de 7 transportam às costas as de 1 ou 2 e vão tentando vender umas pulseiras ou carteiras de pano aos turistas que passam. Grandes e pequenos, têm na boca três perguntas sacramentais - uére yu fron? uats yó neime? Bái someting frómi? Por vezes, vão mais longe e perguntam por mulher, filhos e idade. Os campos cultivados em socalcos são abundantes em arroz e milho e, por todo o lado, deslizam patos e galinhas, porcos chafurdam e búfalos esperam pela nova época de cultivo, momento em que serão chamados a desempenhar os seus serviços de trabalhadores forçados. Entre pontes de corda e madeira, quedas de água, nevoeiro espesso, temperaturas na ordem dos 10-12 graus e caminhos empedrados cortados por riachos, lá fui contactando com os locais, visitando as suas casas para um chazinho de boas vindas (onde se tem de por de parte a tendência natural dos ocidentais para a limpeza) e inteirando-me dos porquês de algumas casas não terem janelas (não deixam entrar os maus espíritos) ou terem disposições particulares. Tive ocasião de fotografar dezenas de crianças e visitar as suas escolas, onde entusiasticamente cantam temas tradicionais e aprendem a fazer as suas contas e, para minha grande satisfação, fui amavelmente recebido por gatos, pequenos e pequeníssimos que vieram sempre ter comigo para umas festas que os consolaram a eles e a mim. Alguns, ronronaram deliciados perante as minhas festas e presumo que seja uma experiência a que não estão muito habituados. Os gatos nas aldeias vietnamitas são preservados por serem bons auxiliares no combate às pragas de ratos que podem dizimar as colheitas. Sapa vale bem uma visita, quanto mais não seja para recordar as raízes dos meus interesses antropológicos.
sexta-feira, 20 de novembro de 2009
A verdade e o agente laranja
É impossível falar de Saigão (Ho Chi Minh city) ou do Vietname, sem falar da guerra que dominou a história deste país ao longo de metade do século XX. Do mesmo modo, não é possível ignorar o fervor nacionalista dos vietnamistas ou a sua veneração pelo pai fundador. Todos os tours de Saigão começam ou incluem a visita ao museu dos crimes de guerra, perpetrados principalmente pelos americanos, mas também pelos franceses, antes da sua derrota histórica em Dien Bien Phu. A unilateralidade dos relatos da guerra ou a referência à "verdade dos facctos" não surpreende. Aquilo que causa estranheza é estarmos habituados a que esta releitura da história, com a sua limpeza das incoveniências, omissão dos erros e exagero de registos, seja feita por norte-americanos e outros ocidentais. Mas se atentarmos um pouco, as operações de releitura da história que formatam a realidade são sempre executadas pelos vencedores e pelo pêndulo da opinião pública. A guerra do Vietname foi a primeira machadada no sonho americano de potência imbatível, como Porto Arthur, em 1905, tinha sido a primeira manifestação de uma potência asiática capaz de derrotar um potentado europeu. A verdade dos factos não reside na utilização do agente laranja ou do napalm pelos americanos, mas na sua divulgação, com a concomitante omissão de outros tipos de crimes. A I Guerra Mundial foi reeescrita pelas mãos de quem a venceu, com uma atribuição única de responsabilidades aos vencidos dos Impérios centrais. Os crimes de guerra do segundo conflito mundial foram julgados em tribunais especiais, mas envolveram apenas derrotados, passando-se uma esponja sobre Dresden, Hiroshima, Berlim ou os campos de concerntração para americanos de origem japonesa. A história é feita pelos venccedores, da mesma forma que a justiça é a sua moral e o ressentimento é a moral dos vencidos. A Saigão falta-lhe o tom decadente, deliciosamente corrupto e moralmente repreensível que fez dela a grande cidade da guerra e espaço de todas as histórias. A Saigão de hoje é um não evento, algures entre uma cidade socialista a despontar para os encantos do capitalismo e uma velha senhora colonial que se quer desfazer dessas heranças comprometedoras. Esperava algo diferente de Saigão, mas encontrei motas, motas, bicicletas e motas, a que se soma uma população que, pela sua simpatia (!) pode ser considerada uma espécie de República Checa do Sudeste asiático. Tal como os seus congéneres de Praga, os habitantes de Saigão parecem não morrer de amores pelos estrangeiros e turistas e a arte da hospitalidade não se desenvolveu muito por estas bandas. Entre mercados e pagodes, museus e relatos de guerra, avancei decidido. O mais interessante da visita foi o avivar das recordações que tinha do final da guerra, com a entrada de blindados no palácio presidencial do sul, pondo assim efectivamente fim à guerra. Apesar de, nessa altura, as atenções dos portugueses estarem concentradas na revolução nacional em marcha, recordava perfeitamente a fachada do palácio do governo de Saigão e a saída dos dignitários que não tinham ainda fugido do país. De alguma forma, as imagens eram semelhantes às da entrada dos barbudos de Fidel em Havana na passagem de ano de 59. A visita ao palácio é um momento para uma sessão mais de propaganda de um regime que se mantém firme nas convicções e na retórica comunistas, mas que, na prática, caminha de braços abertos para as delícias do mercado, onde já nadam os seus vizinhos do norte. Em boa verdade, o Vietname está próximo cultural e linguisticamente da China e cabe afirmar que se trata apenas de um grupo que se estabeleceu a sul do potentado do Império do Meio e acabou por se expandir para sul, integrando a pouco e pouco territórios que fizeram parte do grande império khmer. Saigão, ela mesma, foi cidade cambodjana até há pouco tempo e muitos dos habitantes do sul do Vietname, são etnicamente khmers ou aparentados a eles. A herança francesa é visível sobretudo na escrita, nalgum catolicismo residual e numa certa arquitectura que ainda subsiste nalguns locais da cidade. Tudo o resto parece perdido e dá bem mostras da difereça de capacidade entre o sistema colonial britânico e todos os outros. Em 100 anos de Hong kong, fruto de uma ocupação no mínimo vergonhosa (resultado da guerra do ópio), os britânicos deixaram língua, instituições, cultura e rituais. Em 500 anos de Macau, os portugueses pouco deixaram em Macau e, em 100 anos de Indochina, pouco permanece da herança francesa. Os Vietnamitas têm uma noção clara de serem uma potência regional que, na prática, exerce um poder decisório sobre o Camboja e condiciona as políticas regionais.
Ding Dong Obama Show
Banguecoque foi a divisão entre as duas partes da minha viagem, separando o mês indiano do mês indochinês. Limitei a minha estada na capital tailandesa a três dias e não me arrependi de o ter feito. A cidade vale uma visita, mas falta-lhe um toque qualquer que permite distinguir as cidades bonitinhas das fascinantes. Tem, é verdade, os traços genéricos das grandes cidades asiáticas que as transmutam de sapos diurnos em princesas nocturnas, por obra e graça dos néons à la Blade Runner. Tal como as pouco atraentes Singapura ou Tóquio, também Banguecoque conquista uma certa aura quando o sol desaparece e as luzes dos placards publicitários se iluminam. Quanto ao resto, a cidade é um enorme mercado, onde tudo se pode vender ou comprar e onde somos bombardeados permanentemente com estímulos de compra. Os preços são baixos e os shopaholics encontram aqui um lugar de perdição. O calor imenso não nos deixa esquecer o quão próximos estamos da linha equatorial e andar no meio do trânsito é um pequeno suplício. Desde que se aterra em Banguecoque até que se levanta voo, existe uma imagem tutelar que não pode ser ignorada por ninguém - o rei. O rei é uma espécie de Torre Eiffel - vê-se em todo o lado e por todos os lados. Não há como escapar a esta figura de ar eternamente jovem, cujas fotos de há 40 anos se parecem estranhamente com as de hoje. Pensei mesmo em perguntar se o rei descobriu o elixir da longa vida ou se fez um pacto diabólico, à maneira do Dorian Gray, mantendo-se jovem para todo o sempre. As fotos do rei são geralmente acompanhadas por cartazes encomiásticos que referem o quanto os seus súbditos se encontram reconhecidos pelos trabalhos do soberano. As críticas ao rei são mais raras do que os títulos do Leicester e o papel por ele desempenhado nas crises políticas é escamoteado pela imprensa e pelos principais agentes políticos. Deste modo, levanta-se um coro de indignação perante a recusa do Camboja em extraditar o antigo primeiro-ministro tailandês, condenado por corrupção, num processo que muitos observadores internacionais consideram duvidoso. Coro este que subiu de tom, logo quue se soube que o governo cambojano nomeou o trânsfuga conselheiro económico dos ministros khmeres. Deixemos então o nosso amigo rei e passemos aos súbditos. A Tailândia é um país de gente simpática e risonha (por isso é apresentado como o país dos sorrisos), mas os taxistas constituem uma notável excepção - são carrancudos e paarecem estar mal com o mundo. Costumo dizer que se conhece uma cidade quando se percebem as duas classes mais emblemáticas que nela habitam - taxistas e prostitutas. Os primeiros medem o nível de ressentimento de uma cidade e permitem perceber quem são os grupos alvo da raiva, da inveja ou da maledicência. As segundas, e falo de prostitutas de rua e não de escort girls (que são iguais em todo o lado) aferem o ritmo, a escala e o movimento das cidades e marcam os trends dos bairros e dos mercados. Não sei se a minha intuição corresponde à realidade, mas não deixa de ser veerdade que, em Banguecoque, estes parecem ser os grupos mais visíveis. Depois de uma viagem longa pelos canais da cidade e pela observação dos mercados aquáticos, resolvi passar para coisas mais directamente turísticas como entrar num show de cobras (venenosas e não venenosas), tendo o prazer de contactar directamente com uma das amiguinhas a quem tinham extraído previamente o veneno. Recusei ser fotografado com a dita não porque fosse caro, mas por achar que era um ultraje enganar os observadores. Não há coragem nenhuma em agarrar um animal a quem retiraram a arma letal e ser fotografado assim, equivaleria a meter a cabeça na boca de um leão desdentado ou lutar com um urso sem garras. De seguida, passei por vários mercados e templos, mas nenhum particularmente interessante. O número de ocidentais de meia-idade (leia-se acima dos 60) que viajam sozinhos é enorme mas, logo que chegam, é ver milagres de fazer inveja à Igreja Universal do Reino de Deus e demais seitas evangélicas. Trôpegos, cambaleantes, descontentes com a vida, macilentos, duros de ouvido e quase cegos, coxos, plenos de artroses e parkinsonados ganham nova vida assim que caminham por Silom ou Sukhumvit. De um lado e de outro, saltam ao seu encontro jovens tailandesas que, com uma pequena festa, os curam mais rapidamente que o bispo Edir Macedo nos seus melhores dias. E depois, bem, depois é vê-los rejuvenescer 20 anos e passear de mão dada com as ninfetas que os conquistam e lhes trazem um sorriso aos lábios. Ao meu lado, num Starbucks de Sukhumvit, uma inglesa virava-se para o marido e mostrava-se indignada com aquele espectáculo degradante e referia a triste figura desempenhada pelos (tidos) por fleumáticos britânicos - "como é que eles podem acreditar que elas gostam deles - eles têm idade para ser avôs delas". Escapa à senhora que eles sabem perfeitamente o que fazem e o que elas sentem, mas que importa? Por um momento, um momento só, regressam ao passado e, pela primeira vez, em muitos anos, conquistam, é certo, em libras, uma pequena manifestação de afecto e saciarão a fome de pele a que a solidão condena tantos. Bnguecoque é uma cidade com esse condão de reverter o tempo para velhos caquéticos oou não que, mesmo sem o Viagra de contrabando que aqui se vende por todo o lado, recuperam os sonhos viris de outras eras. É impossível passar por esta cidade sem referir a presença avassaladora do sexo. Se a Índia é a terra dos corvos, boa metáfora para lixo reciclado e morte regeneradora, Banguecoque é a cidade que respira sexo por todos os poros, mas num ambiente curiosamente casto e moralista. É como se a cidade vivesse em dois campos paralelos que caminham lado a lado sem nunca se tocarem ou quererem saber um do outro. Muitas das prostitutas que circulam em Banguecoque são, no entanto, o que por aqui se chama ladyboys, ou seja travestis. Estes têm invariavelmente corpos mais esculturais e pernas mais longas e perfeitas que qualquer uma das suas colegas femininas. Não se pense, de qualquer forma, que o super-mercado do sexo é apenas abastecido por criaturas locais. É fácil encontrar filipinas, indonésias, chinesas, mas também russas e até nigerianas. Em face deste cenário, impunha-se uma visita à emblemática Patpong Road, que na verdade é mais um pequeno bairro do que uma rua, para observar in loco, o negócio em todo o seu esplendor. Logo à chegada, percebe-se de onde vem o maior número de consumidores - os letreiros e os restaurantes não deixam dúvidas, tudo está escrito em japonês e as saudações de boas vindas são todas proferidas em nihon-go. Se os restaurantes e bares não esclarecessem o assunto, uma simples observação da indumentária das jovens em espera, tiraria qualquer hesitação. O cosplay é aqui a regra e as meninas vestem-se de colegiais nipónicas, de enfermeiras e de hospedeiras, três grupos que são um must fetichista em qualquer parte do mundo, mas que em terra do sol nascente, atingem um patamar estratosférico. Depois de ter sido convidado por uma jovem com ar de estar em início de carreira para passar um bom momento e me assegurar que "I'll take good care of you sir!" e de vários angariadores me garantirem uma hora mágica com a melhor massagista de Patpong e, em caso de necessidade urgente, 2 pílulas de Cialis, a preço da chuva, resolvi seguir para o centro do negócio - um mercado nocturno onde as ourivesarias vendem preservativos (o que me pareceu muito adequado) e o bares de go go dancers são mais que muitos. Comecei a perceber que ali se vende gato por lebre quando reparei que os angariadores de massagens anunciavam cada um a sua massagista, mas a fotografia era sempre a mesma!!! Já me preparava para abandonar o local, quando da esquerda e da direita me foi sugerid0 à boca pequena um surpreendente "ding dong Obama show". O nome era sugestivo e uma vez que o Obama se encontra em tour pelo sudeste asiático, pensei que se tratava de uma encenação alusiva à vinda do novel presidente americano. Quanto ao ding dong confesso não ter conseguido imaginar do que se tratava, mas fiquei atraído pela proposta. Depois de entrar num normal bar, onde as raparigas dançam (!), em biquini, à média luz agarradas a um varão e com movimentos entre o lânguido e o risível, fui escoltado para o espaço do referido show. Não demorou muito tempo até ter percebido com as aterragens e levantares de voo sucessivos me deixaram um pouco para o surdo. Oh meus amigos é que nem ding dong nem Obama - a coisa era mais ping pong e banana show. Dispensando a parte mais hardcore da coisa, digamos apenas que percebi o porquê de os orientais ganharem todos os campeonatos de ténis de mesa. O treino deve ser intensíssimo para serem conseguidos tais resultados. As mesa tenistas em causa não necessitam obviamente de raquete, mas exibem uma qualidade de jogo que faz o júbilo da assistência, havendo alguns mesmo que respondem ao serviço, reenviando a bola para a sua origem. Quanto à banana, penso não serem necessárias explicações adicionais. Assim, muito mais instruído que que o antigo bispo de Braga, D. Eurico Dias Nogueira, após ter visto na TV o Império dos Sentidos, retirei-me, via Sky Train, para o meu hotel, pensando como é diferente o desporto na Tailândia.
quinta-feira, 12 de novembro de 2009
Dilúvio no Coromandel
Sempre que viajo, tenho tendência para apanhar umas chuvas fortes. Foi assim em Pequim e, sobretudo em Praga, onde presenciei uma das maiores cheias dos últimos 50 anos. Para não fugir à regra, os meus últimos dias na Índia foram, no mínimo, molhados. A transição de Kerala para Tamil Nadu foi acompanhada por uma mudança radical nas condições atmosféricas e, durante uma semana, a minha rotina foi ver templos e assistir a chuvadas monumentais, seguidas de inundações. O mau tempo, provocado pela monção do Nordeste que desce até ao sudeste da Índia, foi responsável por algumas dezenas de mortes e por destruições várias e só não provocou mais desalojados porque estamos na Índia e os mais afectados já não possuem alojamento propriamente dito. Se em Kerala são raros os templos hindus que se podem visitar, o mesmo não se pode dizer de Tamil Nadu, onde existem vários onde se pode entrar gratuitamente, embora haja sempre um guia (que por vezes também é sacerdote hindu) que procura um fee para dizer o óbvio e falar das histórias das várias encarnações de Shiva ou do casamento deste com Parvati ou ainda dos filhos que tiveram. As narrações repetem-se, mas são sempre ditas com alguma graça e partem do princípio que os ocidentais são completamente ignorantes a respeito da história indiana ou da sua mitologia particular. Os templos que foram o meu refúgio da chuvaa e das intempéries não me inspiraram profundamente. Se a primeira impressão da arquitectura do período Chola pode ser de deslumbre, rapidamente se torna cansativa e confesso que apreciei mais a arquitectura do norte. Tal como acontece com a arquitectura barroca europeia, não aprecio nos templos do sul da Índia, o excesso de ornamentação e a redundância de formas. Tudo parece exagerado, demasiadamanete colorido e enfeitado. O que lhe sobra em floreados, falta-lhe em elegância. Durante uma semana percorri Madurai, Trichy, Thanjavur, Chidambaram, Mahabalipuram, Kanchipuran e Chennai e, apesar do carácter fragmentado da visita, deu para perceber a riqueza da aposta indiana em duas áreas fundamentais -a saúde e a educação. Todas as cidades, pequenas ou grandes, ostentam vários hospitais, muitas das vezes dedicados a especialidades como a medicina óptica ou o cancro e entre as cidades proliferam os campus universitários, com uma ênfase particular nas ciências exactas. Por outro lado, se viajarmos entre as 8 e as 10 da manhã ou entre as 4 e as 6 da tarde, as ruas estão pejadas de crianças, jovens e adolescentes, todos exibindo imaculadas fardas de múltiplas cores, mas onde o branco prevalece, que se dirigem às suas escolas a pé, de bicicleta, de moto ou de autocarro escolar. Muitos caminham descalços, mas todos parecem experimentar uma genuína satisfação ou alegria por poderem ir para as suas escolas e colégios. Embora a população cristã não seja percentualmente grande, não deixa de ser verdade que possui um peso desproporcionado na condução das matérias escolares e existe uma grandíssima quantidade de escolas que dão pelo nome de São Jorge, São Tomás, Virgem disto, Virgem daquilo, o que dá bem a ideia do papel que os vários núcleos cristãos têm assumido em questões educativas, especialmente no que respeita ao ensino feminino. A avaliar pela alegria das crianças no seu caminho escolar, pode bem ser que a Índia esteja à beira de uma evolução sem paralelo nos seus níveis de escolaridade e que a sua entrada em grande no século XXI esteja à porta. Pela parte que me toca, ainda bem que há quem leve a escola com um sorriso nos lábios, pois, para mim, foi sempre pouco menos do que um suplício e um espaço onde me aborrecia de morte. Se há recordações de infância e de adolescência que me dão calafrios são a ida matinal para a escola e ter aulas de algumas disciplinas (como os trabalhos manuais ou oficinais). Ainda hoje me lembro do suplício das segundas e quintas-feiras, onde tinha de fazer trabalhos em barro ou tecer em fada do lar - yuk. Deve ser daí que vem a minha tendência paraa estudar as formas do nojo. Não havia nada mais repulsivo do que as aulas de Trabalhos Manuais e de desenho que me deixavam fisicamente mais agoniado do que um cruzeiro pelos mares da Tasmânia. Quanto a Chennai e Kolkata, os meus últimos destinos na Índia são duas cidades de grande dimensão, mas totalmente diferentes. Chennai estende-se em torno de uma bela marginal que, nas mãos dos nossos vizinhos espanhóis, se tornaria rapidamente num dos maiores destinos turísticos mundiais (tal é o seu potencial) e possui imponentes edifícios vitorianos, nomeadamente estações de caminho de ferro) que são uma das heranças do Raj. o contrário de Mumbai que tendencialmente encapsula a pobreza e a miséria, Chennai é mais ostentatória e é fácil ver como a pobreza constitui o cenário dominante. Tive muito pouco tempo para me aclimatar à cidade porque a chuva era torrencial e quase não consegui sair do hotel. Quanto a Kolkata, a mais importante cidade de Bengala ocidental, e antiga capital do Raj, é uma cidade que mostra muitas das características de uma cidade destinada a dominar e marcar a sua posição - abundam os edifícios símbolo e marcadores de território que são um modo de ostentação de poder. As marcas da governação do Lorde Curzon são evidentes por todo o lado e não se limitam ao Victoria Memorial. É uma cidade vibrante, plena de comércio e possui o barulho típico da Índia, cruzado com as avenidas largas de cidade meia planeada. É a única cidade indiana que visitei que ainda possui a sua secular linha de eléctricos e os passeios podem ser percorridos a espaços, ao contrário do que acontece na maior parte dos outros lugares e lugarejos indianos, onde são invariavelmente transformados em urinóis públicos. Aliás, em Kolkata são muitos os pay for use toilets, que dão mostra de uma maior preocupação com a transformação do espaço público em esgoto a céu aberto. Despedi-me da Índia com a pena de ter perdido uma semana de viagem, devido ao mau tempo, mas fica prometido um post só com as minhas impressões indianas gerais.
sexta-feira, 6 de novembro de 2009
Entre Machos e Vikings
Depois do meu condutor de seis dias, o mais simpático e jovial indiano que conheci, me ter feito o tour de Kochi - na verdade dois porque a cidade está dividida entre Ernakulam e Fort Kochi - fiquei ainda mais convencido que Kerala é o Estado mais agradávelda Índia que já visitei. As cidades são mais limpas e harmoniosas que as suas congéneres do norte e as pessoas mais sorridentes e menos pressionantes para turistas. Como é de bom tom fui percorrendo os espaços de influência portuguesa, incluindo um desinteressante forte que passou para os holandeses durante o século XVI e a igreja de São Francisco, local onde Vasco da Gama foi sepultado antes da trasladação para Lisboa. Lá está tudo explicadinho, com referência aos Jerónimos e à Torre de Belém. A igreja estava toda engalanada e decorria um casamento no seu interior. A noiva tinha um ar assustado e o noivo apresentava uma expressão de “tirem-me deste filme”, mas à porta da igreja aguardava-os um resplandecente Hyundai, uma das marcas mais vistas por terras indianas, juntamente com o dominante Tata e com os Suzuki produzidos em colaboração com uma fábrica indiana. Depois das igrejas de Fort Kochi que são mais que muitas ainda tive oportunidade de observar as tradicionais redes de pesca chinesas, manobradas a braços e alavancas e que dão um espectáculo diário a quem passa, dirigi-me a uma língua de areia que recebe o pomposo nome de praia de Fort Kochi. As águas não são muito limpas e, embora a temperatura da água do mar Arábico seja convidativa, não será o lugar mais recomendável para banhos. Depois de um retemperador almoço de camarão tigre, segui para Ernakulam, a zona de Kochi onde se desenvolve o projecto de um novo porto e onde existe uma base naval importante. Também desse lado da cidade se encontra uma bela marginal de 2 km que não é tão impressionante como a de Mumbai, mas é bem organizada. A visita ao mercado permitiu-me confirmar que Kerala voga entre as igrejas cristãs e os cartazes de campanha dos vários partidos comunistas. Desde os idos de 75 que não via tantas imagens dos camaradas Marx e Engels e do inefável pai dos povos - o camarada Staline, de tão boa memória. Os cartazes do PCI são no entanto afogados pelos do sindicato comunista que se encontram literalmente em todo o lado. Na verdade, houve uma altura que para passar o tempo da minha jornada automobilística resolvi organizar uma competição entre bandeiras do sindicato CITU e templos cristãos, mas rapidamente desisti porque o embate já ia com um resultado na ordem das centenas para ambos os competidores. As imagens dos nossos camaradas são vistas em cartazes, desenhos, decalques, demonstrando uma enorme riqueza de semblantes, mas sempre com respeito pelo cânone. Também por aqui existe um PC (ml), mais uma achega para o meu saudosismo, e não é que o líder partidário possui um bigode que lembra muito o grande educador da classe operária e do povo trabalhador em geral, o camarada Arnaldo Matos. Trata-se até de um bigode muito socialista que se afasta do modelo bigode indiano que todo o homem que é homem usa por aqui. Os bigodes indianos, ao contrário dos portugueses, que murcham e definham (como no sketch dos Gato Fedorento) estão vivos, pujantes e recomendam-se. Mesmo os actores de cinema destas paragens não dispensam este apêndice capilar que os mostra mais viris e convincentes. Isto apesar dos homens de Kerala vestirem uma saia tradicional e eu ter alguma desconfiança de homens com saias (já não bastavam os escoceses). Pois bem, as saiais e os bigodes não retiram, no entanto, as preocupações aos indianos que se têm vindo a render a modelos de vestuário íntimo mais moderno e que são anunciados abundantemente nos outdoors que proliferam por todas as estradas do país. A roupa íntima masculina não deixa dúvidas sobre o que pretende - as marcas mais vistas dão pelo nome de “Macho” e “Honk” e existe mesmo outra marca de roupa que não se circunscreve às simples trousses, cuecas ou slips, que se chama Viking. Ora bem, entre machos latinos e loiros escandinavos, lá vão os indianos marcando a sua virilidade que, ao abrir a televisão, se vê profundamente abalada pelas mulheres (o sistema matriarcal é dominante em Kerala) e pelo seu comportamento. Os homens começam sempre por ameaçar ou dar tareias reais, mas acabam sempre a levar que contar. Deve ser por isso que as cuecas têm os nomes que têm e talvez seja essa também a razão para tantos anúncios de rua para clubes de musculação - um homem prevenido com cuecas macho e musculado no ginásio Arnold (Schwarzenneger) está aí para as curvas. O mercado é enorme e pode-se encontrar literalmente um pouco de tudo e a preços que são invariavelmente baixos. Depois de mais uma passeata por lojas e tendinhas, dirigi-me para a praia mais importante da região e que se estende por mais de 10 km. É uma praia magnífica que não fica a dever nada às de Goa, mas que não tem praticamente ninguém e poucas infra estruturas turísticas. Acredito que em meia dúzia de anos o cenário se altere radicalmente e a especulação imobiliária se instale. Fiquei cerca de duas horas sentado na areia e à medida que o sol descia iam chegando famílias indianas para molhar os pezinhos. Alguns homens arriscam o mergulho (com as suas saias brancas vestidas), as mulheres e as raparigas (integralmente vestidas) deixam a água subir até à cintura e os rapazitos lá se banham mais à ocidental. Depois do sol se pôr, é uma corrida para casa e tudo fica deserto. Como era o último dia com o meu condutor e tinha de ficar à espera do comboio para Madurai às 23.30, aceitei de bom grado o seu amável convite para jantar em casa da mãe. Embora um pouco envergonhado pela pobreza da casa, decidiu mostrar-me o sítio onde vivia e que consistia numa pequena cozinha e em duas divisões sem praticamente nenhum móvel. O quarto dele, onde se instalou uma pequena mesa para jantarmos, não teria mais que uns 6 metros quadrados e tinha como recheio um divã. Ao pai, à mãe e ao irmão, juntaram-se vários vizinhos que vieram contribuir para o jantar do convidado estrangeiro e tive o gosto de usufruir da extraordinária amabilidade e hospitalidade daquele grupo de vizinhos. Como o meu condutor não se esqueceu de dizer, em Kerala todos se dão bem, independentemente da religião. Um dos vizinhos, que vive também numa pobre habitação, possui um mestrado em economia, mas não conseguiu emprego compatível e faz agora alguns biscates. A população de Kerala tem as maiores taxas de escolaridade de toda a Índia e é a grande fornecedora de trabalhadores mais ou menos qualificados para os EAU, especialmente para o Dubai. O jantar foi um belo caril de lulas, bem condimentado, e um guisado de borrego extremamente saboroso. Depois de me despedir dos simpáticos vizinhos fui guiado até à estação de Ernakulam, onde me despedi com alguma emoção deste rapaz que conduziu o Tata Indica nos limites do praticável mas que, acima de tudo, se revelou um bom amigo. À despedida, e depois de colocar a minha mala no comboio, ofereceu-me uma estatueta de Lorde Ganesha, o deus de cabeça de elefante, que abençoa os novos empreendimentos, pedindo-me que a colocasse num lugar importante da minha casa. A viagem para Madurai não teve história e desta vez não fui visitado por nenhum amigo roedor e as osgas, que tinham sido companheiras de todos os hotéis da passada semana, também não apareceram, provavelmente por a temperatura ambiente não ser convidativa para seres reptileanos se sangue frio. Quase todos os passageiros iam recorrendo a um cobertorzinho de lã para se abrigarem do ar condicionado que vomitava ar frio. À chegada a Madurai alojei-me num hotel semelhante a todos os outros onde tenho pernoitado e que têm como pior característica as casas de banho, onde o chuveiro não possui compartimento próprio o que causa verdadeiras inundações sempre que acabo as minhas abluções. Mais uma vez, o banhinho foi frio, mas recuperador de energias. A volta por Madurai foi rápida, mas deu para ver duas das mais magníficas obras de toda a Índia - o templo de Minashki Sundareshvara e o Palácio de Thirumalai Nayaka. O primeiro é um complexo de templos dedicados a Shiva e à sua esposa Parvati que em Tamil recebem os nomes de Sundareshvara e Minashki. Os templos originais com 3 mil anos foram sendo rodeados por novas construções, adquirindo a forma contemporânea, ao longo de gerações. A obra teve o seu final no século XVIII e vale a pena uma visita demorada. Algumas das torres portais piramidais elevam-se a mis de 50 m e exibem uma decoração exuberante quer na forma quer nas cores. Quanto ao palácio, embora seja apenas uma parte da construção original do século XVII e resultado das obras de conservação empreendida no século XIX por Lord Napier, possui uma arquitectura belíssima e alberga um interessante espólio arqueológico. Infelizmente, só pude visitar uma parte porque as galerias superiores estavam a ser usadas para filmagens de mais um sucesso da cinematografia indiana. O dia estava chuvoso e tive de percorrer todo o templo como penitente descalço, o que não era grave não fosse o facto de os meus pés branquinhos parecerem os únicos que estavam cobertos pela lama do caminho. Por onde passava, lá vinham uns risitos testemunho do vivo contraste entre a minha pele e a terra molhada. Amanhã, bem cedo, partida para Trichy.
O Salazar não gostava de fruta tropical
Escrevo esta entrada do blog numa casa barco, a observar o entardecer, rodeado de palmeiras e coqueiros e com o som dos corvos, mas também das galinhas, em fundo e com alguns mirones a tentar perceber o que é que estou a fazer junto à proa do barco. Depois da corrida de avião, vindo de Goa, a minha chegada a Kerala, um dos estados mais meridionais da Índia, juntamente com Tamil Nadu, com o qual faz fronteira, foi calma, tendo-me albergado num hotel de Kochi que já conheceu certamente melhores dias, mas que tem uma bela posição junto ao rio e a sua piscina faz lembrar sítios mais selectos, dedicados à high society. De qualquer forma, não cheguei a aquecer o lugar e ala que se faz tarde, em direcção a Munnar, uma espécie de estância alpina, em pleno estado de Kerala, mas a tocar Tamil Nadu e integrada numa das zonas de reserva natural dos Gates Ocidentais, a cordilheira com os montes mais altos a sul dos Himalaias. À medida que se percorre o caminho entre Kochi e Munnar, a paisagem vai mudando significativamente, especialmente por causa da altitude. As plantações de ananás, árvore da borracha, arroz, café e cardamomo cedem o seu lugar ao omnipresente e dominante chá que os ingleses souberam impor durante o século XIX e que tornaram quase numa monocultura das terras altas que têm a temperatura e a humidade necessárias à produção das folhas mágicas que entram em cena às 5 horas em ponta, graças aos contributos da tal infanta portuguesa que levou Bombaim no dote. Após a independência, a Índia resolveu apostar na continuidade e as plantações de chá transformaram-se num tapete verde que, à distância, parece ser um campo relvado. Esta parecença deve-se não só à verdura das folhas (especialmente nesta época de colheita), mas também à pequena distância entre arbustos (o que dá uma imagem compacta às plantações) e à pequeníssima altura de cada arbusto, não mais de 70 ou 80 cm. Esta pequenez não é natural, antes sendo fruto de trabalho humano que reduziu, por manipulações várias, árvores que podem chegar aos 15 metros em arbustos de pequena dimensão. Estamos ao nível de verdadeiros bonsais de chá. As plantações ocupam milhares de hectares e faz impressão imaginar como é que os trabalhadores rurais são capazes de escalar declives que não raramente superam os 30 graus e a altitudes de mais de 1000m e com escarpas assustadoras. Tendo em conta que uma das razões para a redução do tamanho das árvores foi o perigo da escalada para a recolha das folhas, convenhamos que o trabalho não passou propriamente a um passeio no parque. O aspecto é, no entanto, magnífico e os nossos olhos deleitam-se com a quantidade de verde. Como se trepa até mais de 2000 m, a temperatura também é mais agradável, pelo menos para os meus padrões, já que indianos e demais turistas já faziam as escaladas de algumas destas montanhas com um belo cachecol, luvas, impermeáveis e protectores de orelhas. Por mim, lá subi o que havia para subir, com a roupa do costume - uma t shirt e umas calças leves porque os calções recebem quase sempre a mesma reprimenda que os chinelos - joelhos e pezinhos são para andar tapados. Se não vi nada de Kochi porque parti de manhã para Munnar, vi tudo de Munnar porque tem muito pouco para ver. É uma vilória simpática, mas muito pequenina, caracterizada por umas dezenas de lojas, alguns hotéis (propriedade de políticos do estado), muitos albergues e uma igreja católica de alguma dimensão. Todas as estradas de Kerala são um desfile de igrejas, conventos, capelas, nichos, centros de peregrinagem católicos, protestantes, ortodoxos e sírios. Não fazia qualquer ideia, mas 25% da população de Kerala é cristã, remontando aqui o Cristianismo não à chegada dos portugueses, mas à presença, não sei se mítica se real, do apóstolo São Tomé, correntemente conhecido pelo apóstolo das Índias. Estas igrejas e capelas que ocupam cada esquina da estrada e que se sucedem a um ritmo avassalador que faz parecer o Minho uma terra de ímpios, hereges e apóstatas., têm a notável característica de se diferenciarem claramente das igrejas de Goa. Se estas seguem o modelo canónico do colonizador e oferecem uma faceta barroca clara com algumas cedências ao clima, já as igrejas de Kerala (não importa se católicas ou ortodoxas) assumiram uma feição tão indiana que as cores e as formas fazem lembrar templos hindus e só um olhar atento às cornijas permite perceber que lá dentro está São Sebastião, São Jorge ou a Virgem Maria e não Ganesh ou Vishnu. A iconografia cristã casou aqui perfeitamente com o substrato hindu e, talvez por isso, tenha levado a conversões que surpreenderam os portugueses aquando a sua chegada a Calecute e depois a Cochim. A fusão é tal que algumas igrejas católicas impõem aos fiéis a entrada no templo sem sapatos à boa maneira hindu e muçulmana, sendo os locais de culto muito mais despojados do que os que encontramos noutras latitudes. Estamos aqui muito perto do equador e os níveis de calor e de humidade à altura do mar são muito elevados, não espantando, por isso, que colonizadores habituados a outros climas procurassem refúgio nas montanhas, onde os Verões são suportados e o ambiente está curiosamente próximo dos mundos insulares. Para os britânicos em missão na Índia, Munnar deveria parecer o paraíso na terra. Para além das plantações já referidas, Kerala produz também chocolate, a partir do cacau que aqui cresce e que é vendido um pouco por todo o lado. As bananeiras de vários tipos e os coqueiros são presença massiva nas zonas mais baixas. Um dos elementos positivos da minha chegada à Índia foi lembrar como as bananas podem ser um excelente fruto, doce e agradável ao paladar. Se há 40 anos, os portugueses se podiam deliciar com bananas de Angola e de São Tomé, após a descolonização passámos a consumir as insípidas bananas centro e sul americanas que sempre me pareceram uma imposição sem sentido. Já não bastava as Repúblicas das bananas, ainda temos que aturar as companhias americanas a venderem-nos gato por lebre. As bananas indianas são aliás tão pequeninas que não passariam as normas de calibragem da nossa União Europeia, sempre entretida em apostar que o maior é melhor. Mas aqui, como em tantas outras coisas, o pequeno é bem melhor e estou rendido ao paladar que julgava perdido desde a minha adolescência. Só espero que um importador misericordioso leia este apontamento e comece a importar bananas a sério e dar uma corrida à vergonha que é o domínio da infame Chiquita que só tem tamanho e nenhum paladar. Esta recordação induzida pelas pequeninas bananas indianas, fez-me também lembrar como a terrível mania de normalizar e tornar tudo igual, vai destruindo a diversidade. Cerca de 70 a 80% das espécies de maçãs existentes a nível mundial no início do século XX estão hoje extintas ou em extinção, em nome da produtividade e da calibragem. Que saudades das maçãs de Palmela com que me deliciava todos os anos em Sesimbra, que memórias agradáveis das suculentas e ácidas Casanova (ou será que era Casa Nova?). Esta ditadura que nos impõe comida sem gosto e sentimentos de violação de algum código sempre que nos banqueteamos com algo saboroso, tem longa tradição. Espero não sobreviver para presenciar uma sociedade em que a carne já foi banida, o café obliterado, o álcool condenado às trevas e os açúcares destruídos em praça pública. Mas já faltou mais!! Os Epicuristas têm sido demasiado brandos com esta cambada do politicamente correcto. Às malvas com a saúde e com as dietas, abaixo o insípido e o normalizado, viva o excesso e o empanturramento. Mas dizia eu que esta mania das proibições já vem de outros tempos. O Dom António de Oliveira Salazar (como é conhecido no museu arqueológico de Goa) devia ter qualquer coisa contra a fruta. Falo de fruta real e não daquela que o Pinto da Costa gosta e que oferece juntamente com chocolatinhos e café com leite aos árbitros da nossa Liga mais valiosa. Desta fruta julgava eu que o Salazar também não apreciava, mas a recente biopic da SIC fez-me ver a personagem com outros olhos. Ora, com tantas províncias ultramarinas nunca percebi por que é o nosso presidente do conselho deixava vir bananas, mas não mangas, papaias e outras delícias tropicais. Acho que estas últimas tinham um potencial subversivo enorme que escapava às bananas. Podem perguntar porquê, mas a resposta é simples. As bananas eram uma importante arma no combate ao socialismo e tinham por isso lugar na mesa de qualquer português sensato. Convém lembrar como os cidadãos da RDA ao atravessarem o muro tinham como principal preocupação comprar bananas, esse fruto que era tão importante no Leste como a liberdade. Ainda me recordo como da primeira vez que estive na Rússia, as bananas eram tão importantes que estavam numeradas. Perante a minha perplexidade, o meu amigo Yuri esclareceu-me - “cada número significa um peso e vais pagar a banana de acordo com esse peso” - a banana não era uma banana, era sobretudo uma especiaria tão importante como o açafrão. Se as bananas eram uma arma anti-socialista, já manga e a papaia eram frutos quase tão perigosos como a Coca-Cola. Os frutos podiam transmutar um país de brandos costumes num país tropicalista que, com os calores, se podia bem despir de preconceitos e demais benzeduras, a Coca-Cola podia colocar-nos na rota de consumismos delirantes e de drogas bem mais potentes. Por isso mesmo, cresci a comer bananas e a beber a saudosa Canada Dry, de boa memória, enquanto esperava pelo dia libertador em que pudesse beber a Coke. Quando pela primeira vez bebi a água suja do imperialismo yankee foi uma experiência de anti-clímax e cedo comecei a ansiar pelo regresso da Canada Dry. Deste anseio brotaram outros e quando dei por mim, já não eram só a Canada Dry e a Laranjina C, na sua bojuda garrafa e com a música do Tequila, que eu desejava, eram os Gallapiat (conhecidos em Portugal por Pequenos Vagabundos), o Daktari do adorável Clarence , o leão vesgo, o Skippy the bush kangaroo. Se o Salazar fez de mim um insatisfeito, a Coca Cola tornou-me num saudosista. A viagem na casa barco de Allepey foi um dos pontos altos desta minha travessia da Índia. A navegação é suave e feita ao ritmo descomprometido e relaxado dos habitantes de Kerala. Voga-se entre coqueiros, bananeiras, palmeiras e as aves são aos milhares. De um lado o lago, do outro campos de arroz recentemente inundados à espera de nova sementeira. As casas-barco são todas idênticas, embora o seu tamanho seja variável. Vejo passar as que acolhem três e quatro casais e as que possuem um double deck. A minha tem apenas um quarto e eu sou o único passageiro com uma tripulação que envolve o piloto e uma espécie de cozinheiro-mordomo que trata das restantes questões. O almoço é um peixinho suculento preparado à maneira de Kerala e o jantar será com lagostins acabados de pescar e comprados por mim a um pescador local que se chega ao nosso barco com a proposta - 900 rupias por 8 lagostins. Fez-se o negócio e o jantar foi de estalo e como se sabe a gastronomia é um elemento essencial da cultura dos povos. Um povo culto é um povo que come bem e tem uma rica tradição culinária. É por isso que ainda hoje fico intrigado pela construção do império britânico - como é que um grupo de comedores de fish and chips que não sabe distinguir comida de uma sola de sapato, foi capaz de erguer um domínio dobre parte importante do globo.
Adam’s Rib
O ponto alto da passagem por Munnar foi a visita ao parque natural de Erakulam, onde tive ocasião de escalar um dos picos até perto do topo e ver alguns (poucos) animais selvagens. Fiz a escalada em companhia de um indiano, de uma japonesa e de uma galesa. Se o indiano parecia estar como eu a fazer uma escalada de um parque natural, já as duas jovens pareciam ir a caminho do Nirvana e o êxtase místico passeava-se no seu rosto, só superado pelo frio que sentiam, fruto dos mais de 1800 metros do local. A galesa de Wrexham e a japonesa de Osaka tinham-se encontrado na Índia e descobrindo interesses comuns, decidiram-se pela ida para um Ashram na região. Explicava a galesa o programa das festas - levantar às cinco para as orações, depois sessão de yoga, pequenos almoço ligeiro, seguido de meditação e mais orações. Nesse momento, a japonesa virou-se para mim e proferiu esta frase assassina - “it must be wonderful, don’t you think?”Oh minha amiga, começar o dia às 5 da manhã e seguir para as orações é a minha ideia de felicidade. Escusado será dizer que desci a montanha rapidamente e em força, não se fosse dar o caso de ser convidado para integrar tão convidativa experiência. Mesmo assim, o autocarro que nos transportava à base demorou tanto que os meus companheiros conseguiram uma notável proeza de catching up que foi suficiente para a galesa me deixar o seu contacto de email (não vá eu ter um assomo de espiritualidade born again) e para a japonesa me perguntar se eu já estava “retired” e por isso com tempo para passeatas. Disse adeus ao Babu, à Hiromi e à Kate e fui à vida que isto de tanta espiritualidade cansa muito. A travessia da zona montanhosa de Munnar também me trouxe a percepção das disputas fronteiriças entre estados. Depois de cruzar belos lagos e barragens e de ver um ponto famoso pelos seus ecos, iniciei a subida para o Observation Point que marca uma vista belíssima sobre toda a região. Só que a chuva e o nevoeiro eram tantos que não se via nada a 10 metros quanto mais a 40 ou 50 Km. A parte mais curiosa da história reside no facto de os últimos 1000 metros da subida demorarem mais a fazer do que os 15 km anteriores porque o estado de Kerala considera que o pico é de Tamil Nadu e o estado de Tamil Nadu afirma que a responsabilidade é de Kerala. Perante tamanho impasse, a estrada fica por alcatroar e é um pesadelo percorrê-la. O estado dessas estradas motivou o meu amigo condutor a umas paragens estratégicas de sua devoção onde rezou a deuses hindus e a santos cristãos por protecção. Só não foi à mesquita porque não havia nenhuma no caminho. A passagem por Kerala deveria ter como um dos pontos principais de interesse a visita à reserva natural de Periyar e o possível avistamento de um grupo de tigres. Outrora abundantes nas florestas indianos, os mais imponentes felinos asiáticos estão agora circunscritos a uma meia dúzia de espaços protegidos. Disse deveria porque de facto não aconteceu. Foi a segunda desilusão da minha viagem, depois de não ter conseguido ir até ao Ras Musandam. Os tigres sempre foram o meu animal de eleição, mas nunca tive oportunidade de os ver onde devem estar - em liberdade. A impossibilidade da visita deve-se ao facto de a reserva ser apenas acessível de barco e de todos os passeios de barco no parque estarem suspensos até que sejam apuradas as causas de um acidente que aconteceu há cerca de um mês e onde morreram 46 dos 78 passageiros do barco. Aparentemente, o barco virou por má distribuição de pesos entre bombordo e estibordo, devido a uma correria súbita de quase todos os passageiros para um dos lados da embarcação. Sem tigres nem passeio de barco, a minha passagem por Tekhady limitou-se a cinco momentos: a visita a um Spice Garden ayurvédico, uma sessão de artes marciais de Kherala - Kalaripayatu -, uma sessão de teatro tradicional - Kathakali, uma visita a uma plantação de chá - Peryar Connemara Estate e uma massagem ayurvédica de 70 minutos. No que respeita ao spice garden, curiosamente gerido por devotos da virgem Maria, em mais uma demonstração de fusão cultural e religiosa, fiquei a saber que as diversas plantas oferecem cura para tudo, excepto a psoríase. Bastava perguntar por uma doença e logo vinha célere a planta milagrosa. Esta aqui substitui a insolina, aquela ali acaba com as tosses, estoutra elimina artrites, acolá pode ver uma que cura as enxaquecas, ali mais à frente temos uma para o fígado e outra que destrói cálculos renais, esta trata mulheres frígidas, a outra é uma espécie de viagra indiano. Para além destas, ainda tínhamos algumas mais simples que combatiam o mau hálito, tonturas e maleitas menores. Como é normal nestas coisas, a seguir à visita segue-se o proverbial aconselhamento de compra - desde plantas aromáticas a especiarias e a plantas medicinais. Como não quis nenhum condimento, e para não parecer sovina, resolvi comprar a poção mágica para as enxaquecas, já que, ao contrário de uma especiaria chamada all spices (não confundir com a água de colónia Old Spice que dita por indianos se confunde facilmente com a especiaria) e que reúne aroma e propriedades de muitas outras, parece não haver nenhuma planta medicinal para curar várias doenças e fazer uma espécie de 6 em 1 ou 7 em 1. Isso sim, seria óptimo para mim - em vez de carregar uma bateria de pílulas de todas as cores, trazia apenas um comprimido muito simples. O tratamento das enxaquecas passa pela aplicação de umas gotas da poção acima do nariz, depois nas têmporas, deixar cair umas gotas na parte superior da nuca e depois junto ao maxilar - cura garantida pelo menos para 10 anos. Com estes argumentos não pude resistir e por 380 míseras rupias já me via transportado para os terrenos do Elixir do Amor e já me parecia ouvir o início da ária Bravo, Bravo Dulcamara e eu armado em pobre Nemorino à espera que o elixir milagroso lhe traga o seu amor. No meu caso, era mais o alívio das enxaquecas. Fico à espera da próxima nevralgia para actuar. O Kalaripayatu é uma arte marcial ancestral que para melhor entendimento tem o seu quê de jogo do pau cruzado com capoeira. Os movimentos são muito dançados e com saltos vários e depois exibe-se a mestria dos praticantes com espadas e escudos ou facas e escudos. A modalidade é essencialmente de exibição, um pouco à maneira dos kata que conhecemos nas artes marciais japonesas. Confesso que esperava mais espectacularidade, mas foi mesmo assim interessante, ainda que os voos picados dos insectos que rodeavam o espectáculo tivessem estragado parte da festa. O teatro é essencialmente mímica acompanhada de música e mesmo as figuras femininas são interpretadas por homens que representam cenas dos clássicos hindus, nomeadamente do Mahabharata. O espectáculo tem um narrador que explica acção e a dinâmica está próxima em muitos aspectos do kabuki japonês. A luz, a cor e a riqueza dos trajos oferecem um paladar muito particular à acção. A visita à plantação de Connemara (nome muito irlandês para a produção de chá numa herdade do sub continente) permite ver todas as fases e etapas que vão do cultivo até ao produto acabado e é essencialmente uma visita didáctica e esclarecedora. Por indicação do meu condutor, dirigi-me a uma grande especialista de massagem ayurvédica para ser aconselhado a fazer uma sessão especial da dita, de forma a fica melhor alinhado com o cosmos - eu que estou sempre desalinhado. Um pouco baralhado perante o cardápio que parecia a lista de vinhos do Tavares Rico, fiz um esforço para parecer inteligente e esclarecido e escolhi uma bela massagem que custava 1000 rupias, incluía banho a vapor, um óleo com um cheiro requintado e 70 minutos de fricção, tareia e relaxamento. A professora encaminhou-me para um dos seus discípulos que sorridente me disse que iria gostar muito. A música ambiente era digna dos melhores Ashrams e a primeira coisa a fazer é despojar-me dos bens materiais ou, neste caso, da roupinha que trazia vestida. Assim, e tal como vim ao mundo, embora um bocadinho mais pesado, dirigi-me para a marquesa onde deveria ser massajado, mas recebi ordem de paragem porque me faltava vestir uma tangazinha que é o último grito da moda de Varanasi, mas que não se ajusta muito a corpos um pouco mais adiposos do que os dos gurus que se banham no Ganges. Desta forma, houve algumas partes de mim que ficaram onde não deviam e, como se dizia há alguns anos, avancei para a massagem um pouco descomposto, embora pense que o fio dental da tanga me ficava a matar e estou a pensar aderir à moda para rentrée estival de 2010, onde farei certamente o sucesso das praias algarvias e destronarei finalmente o Zézé. A massagem foi uma completa desilusão. Esperava que me caminhassem pelas costas e nada! Esperava ouvir os meus ossos a estalarem ou a rangerem qual dobradiças envelhecidas e nicles! Muito óleo (de facto era tanto que quase escorregava pela marquesa abaixo), muitos movimentos rápidos de massagem da cabeça aos pés, mas nada de especial. Mais uns nós dos dedos nos pés, uns movimentos para relaxar músculos e já está. Agora fica a relaxar cinco minutos e depois massagem facial e banho a vapor numa daquelas caixas de madeira em que se fica com a cabeça de fora, envolta numa toalha, e o resto do corpo apanha vapor. O óleo era tanto que cada vez que me sentava na cadeira do banho a vapor, escorregava quase até ao chão. Não foi uma experiência de excelência e acho que , pelo meu ar, o massagista percebeu que eu não estava convertido. De tal forma que a massagem acabou com duas violentas palmadas no rabo que não me pareceram adequadas ao programa e me recordaram uma cena idêntica julgo que no Adam’s Rib, em que o Spencer Tracy acaba a massagem à Katherine Hepburn da mesma forma, gerando uma reacção violenta por parte desta. Não reagi violentamente, mas fui-me embora com um desejo na alma - na Tailândia é que vai ser, quero uma massagista a caminhar-me pelas costas.
terça-feira, 27 de outubro de 2009
A carreira das 15.20
Saí hoje de Goa, na carreira das 15.20. Em boa verdade era um bimotor da Kingfisher (companhia que possui um pouco de tudo, de cervejas a aviões eque vai ombreando com a Tata na disputa pelo primeiro lugar do ranking empresarial indiano) que fazia a ligação Goa-Chennai, mas com paragem em todas as estações e apeadeiros. Assim, quando vi que para uma distância relativamente curta, o avião demoraria três horas e meia, logo imaginei que ou o bimotor era mesmo muito lento ou iríamos ter várias paragens. E assim foi - primeiro Mangalore (não confundir com a capital do Hi Tech indiano que dá pelo nome de Bangalore), depois Kozhikode (conhecida em Portugal por Calecute, a tal cidade onde o Vasco da Gama "confraternizou"com o samorim local) e finalmente Kochi ou Cochim, onde me apeei. O avião continuava o seu curso e ainda pararia antes de Chegar a Chennai (antiga Madras ou Madrasta). Apesar das três descolagens e, felizmente, das três aterragens, a viagem até correu bem e o tempo passou-se raazoavelmente depressa, especialmente porque me ia lembrando dos bons dias passsados a percorrer Goa e também, há que ser sincero, porque as companhias de aviação indianas ainda não se renderam ao politicamente correcto e as hospedeiras continuam a ser hospedeiras e não assistentes de bordo. É que uma assistente de bordo é escolhida pelas fantochadas do mérito e da competência, blah, blah, blah, o que dá como resultado que quando fui a Minneapolis, a Northwest tinha um trio de assistentes de bordo que parecia saído de um filme de terror, passado algures entre um sanatório de inválidos e um lar da terceira idade. Um arrastava-se de ponta a ponta do avião, cambalenado entre filas e outra, com as vibrações do avião, abanava de tal forma que a dentadura de cima batia ritmadamente na dentadura de baixo. A terceira tinha, para parafrasear o saudoso sr. Guerra, um ar de catanha pilada, tais eram as rugas. Eu sei que todos têm direito à vida, mas meus senhores poupem-me a certos espectáculos. Clarificadas as águas, é evidente que não sei como são feitos os concursos para a Kingfisher, para a Spice Jet e para as demais companhias indianas, mas não posso deixar de registar que os resultados são muito melhores do que os conseguidos por companhias americanas e europeias. Dá gosto viajar na Emirates e na Gulf Air, mesmo com as jovens engalanadas com um veuzinho, é um descanso para vista entrar num avião da Singapore Airlines ou da Cathay Pacific, mas também é um genuíno prazer andar pelos ares indianos, onde as tarifas são baixas e os corredores dos pássaros de ferro são percorridos por jovens que não são actrizes de Bollywood, mas que estão uns furos acima do que é comum ver-se pelas ruas das cidades indianas. Actrizes e actores de Bollywood que estão em todo o lado, sendo raro abrir a televisão, sem ver referências às mais recentes produções, campanhas publicitárias, escândalos, rumores, etc. A revista de bordo da Kingfisher era totalmente dedicada ao universo dos estúdios indianos e suas produções e o conteúdo anda muito próximo do das nossas revistas de sociedade que encontramos frequentemente nas salas de espera dos consultórios médicos. Olhando com atenção para as histórias e boatos vários, para os filmes e publicidade, uma ideia transparece, elas estão muito acima deles, ou seja, era fácil pegar numa destas actrizes e fazê-la uma vedeta do cinema norte-americano, mas não consigo vislumbrar um único elemento masculino a poder entrar numa grande produção de Hollywood.
segunda-feira, 26 de outubro de 2009
Don Juan Carlos de Bourbon anuncia o Euro
Sem acesso continuado a Internet, aqui vai a cronica possivel em 20 minutos de tempo de antena. E eis-me em territorio Goes - o mais pequeno estado da Uniao Indiana, mas que, por razoes historicas, se mantem o mais evidentemente ligado as terras lusas. Logo a chegada ao aeroporto e facil verificar que proliferam nomes e expressoes portuguesas, umas muito fieis, outras adulteradas por quase cinquenta anos de afastamento. O aeroporto ainda fica a uma hora de viagem de Panaji (Nova Goa) e a cerca de uma hora e um quarto de Candolim, onde acabei por ficar. O territorio de Goa divide-se em dois distritos, um norte e um sul que acabei por visitar em dois dias, ou pelo menos vi as atraccoes mais usualmente referidas, incluindo a reliquia barroca que e Velha Goa, uma especie de florescimento contra-reformista em selva tropical. A Se e demias igrejas que formam o nucleo duro de Velha Goa sao ainda muito frequentadas pela populacao catolica local e, como visitei a cidade num domingo, havia varias cerimonias em curso. Aproveitei tambem para ver o museu arqueologico que possui uma sala onde estao representados em quadro a maior parte dos governadores e vice-reis do estado da India, com a curiosidade de o ultimo, Vassalo e Silva, nao ter direito a quadro, mas a foto de tipo oficial. La consta tambem Dom Antonio de Oliveira Salazar, assim mesmo, como ultimo primeiro ministro ao tempo dos governadores e os presidentes Carmona, Craveiro Lopes e Americo Thomaz, nenhum deles com Dom, mas o ultimo num quadro que o representava como nunca o tinha visto, quase mesmo com um perfil iluminado ou talvez inteligente. Tambem esta apresentavel ao publico uma estatua de Camoes e as entradas sao ao preco da chuva - quatro rupias. A maior afluencia da-se para a visita ao tumulo de Sao Francisco Xavier que e aberto de 10 em 10 anos, para se confirmar a incorruptibilidade do corpo. Mesmo hindus e muculmanos eram vistos na visita. A igreja do convento de frades agostinhos esta em ruina e e a unica peca arquitectonica de grande dimensao que mostra sinais de profunda decadencia. A cidade esta bem cuidada e como e comum por estas partes, os cidadaos locais tem muito orgulho nos seus relvados verdejantes que, neste clima, devem gastar quilolitros de agua todos os dias - coisas das herancas inglesas. O estilo dos goeses e bem mais modelo relax do que o dos outros indianos e, por aqui, as coisas levam o seu tempo. Os Fernandes, os Albuquerques, os Rebelos, os Pintos estao por toda a parte e nao e dificil ver que muitos constituem uma importante classe media. Muitas casas e solares de arquitectura indo-portuguesa sobrevivem e existem ate aqueles que se tornaram num misto de loja e museu, de modo a assegurar a sobrevivencia das familias. Visitei alguns detes solares que apresentam uma cristalizacao notavel do tempo, sendo possivle relembrar casas senhoriais portuguesas do seculo XIX, com adaptacoes devidas ao clima tropical e a idiossincrasia dos proprietarios goeses e a sua interpretacao por vezes livre das tradicoes portuguesas. Como ainda sou do tempo de se estudar na escola a geografia do entao ja defunto estado da India, percorrer Goa traz um avivar de memorias. Foi assim, o cruzeiro crepuscular no Mandovi, ou percorrer cidades com nomes como Vasco da Gama, ou locais de grande beleza como Dona Paula. Por todo o lado, se veem turistas internos e externos e Goa tem vindo a tornar-se no grande destino de ferias de praia em territorio indiano. Os russos sao a comunidade mais ouvida e existem ja anuncios e placards escritos em russo em varios locais do territorio. O potencial turistico esta tambem a ser incrementado pelo recurso ao jogo, especialmente com os casinos fluviais do Mandovi que percorrem a avenida marginal de Panaji. Durante o cruzeiro, tive oportunidade de verificar ate que ponto esta dimensao do jogo parece ser invasiva da vida de Goa. Ironias do destino, os ultimos territorios portugueses do Oriente sao hoje o presente e o futuro do jogo mundial - Macau e Goa afirmam-se pela paixao pelo risco, factor que mais do que qualquer crenca une os homens de todas as latitudes. Perante tantos estrangeiros, a resposta dos indianos e muito curiosa e abundam os pedidos de fotografias, com a familia a fazer pose entre os turistas que passam. Uma inglesa dizia-me com ar enfastiado que estava farta de ser fotografada com e sem consentimento e perguntava-se "o que e que eles acham que eu sou - algum bicho exotico?" Pois e, isto da inversao do estranho e do exotico tem destas coisas. O bom do ocidental, habituado a ver o exotico e a definir-se como normal nem sempre aprecia ser vitima da inversao dos tabuleiros. A vermelhusca inglesa nao se coibia, no entanto de fotografar a esquerda e a direita, e logo ficou entusiasmadissima com a exibicao de um mini rancho a intepretar a Ti Anica de Loule e o oh Malhao, Malhao, com letras quase incompreensiveis e que fotografou com pertinencia. Ainda mais feliz ficou quando um jovem indiano de look bollywoodiano, com uma poupinha a Elvis e com uns oculos escuros extremamente uteis para a noite sobre o Mandovi, lhe disse coisas doces ao ouvido. Passado pouco tempo, ja ela dizia para a amiga do lado - "he's so deliciously cute!" A amiga torceu o nariz, nao muito seduzida pelos avancos do nosso jovem de perfil cinematografico, mas rapidamente a outra a convenceu a entrar na onda, ja que havia mais peixe no mar... O cruzeiro de uma hora foi acompanhado por muita musica tecno indiana e goesa, tendo fixado uma cuja refrao era qualquer coisa ligado a "a tua boca". O DJ portava-se admiravelmente, recuando e avancando a dita musica e durante uns cinco minutos fui acompanhado por aquela batida e pela tua boca. Seja ela de quem for, espero que ja tenha tido descanso. O dia foi passado entre igrejas, templos hindus, praias (belissimas e algumas com cerca de 25 km de extensao) e lojas, sim lojas. Uma vez mais, o condutos que contratei insistia em que eu visitasse todas as lojas possiveis e imaginarias. La lhe fui dizendo que nao sou um shopaholic e que nao queria comprar nem carpetes, nem pulseiras nem cachecois nem mantas nem Ganeshas, nem Vishnus, nem nada. Nao ficou impressionado e sempre me foi dizendo que o importante era entrar, dar dois dedos de conversa e vir-me embora. Assim fiz, em cercade meia duzia de lojas e, quando visitei a ultima, dise-lhe "no more shops, ok!!". Respondeu-me com um sorriso: "no need sir, thanks to you I've got the last stamp on my card - I can now buy the tyre". Ficou resolvido o misterio - cada entrada de um cliente na loja garante um carimbo e ao fim de uns tantos, o condutor e pago em generos ou em dinheiro. Mais uma boa accao do promeneur solitaire. Promeneur solitaire e alias uma situacao que intriga muito os meus interlocutores que nao percebem muito bem por que e que alguem viaja em lazer sozinho. Por isso insistem sempre que eu devo estar numa viagem de negocios, entrecortada pelo lazer. A minha confirmacao de ser do lazer, deixa-os sempre um pouco atordoados. Voltando as fotos com os indianos e os estrangeiros, visitava eu o Forte da Aguada, imponente construcao lusa do seculo XVII e local hoje conhecido por ter o resort mais luxuoso do territorio, quando tive ocasia de ver tres pacientes filandesas que iam posando ao lado de todos os eleemntos de uma excursao vinda do estado de Gujarat. Os excursionistas deveriam ser cerca de meia centena e as fotos assemelhavam-se as de um casamento, onde a finlandesas faziam o papel dos noivos e os indianos eram os convidados. Safei-me pela esquerda baixa, principalmente porque nao sou mulher nem loiro e arranquei para mais um cruzeiro para observacao de golfinhos e das atraccoes locais. Ora bem, no meu barco ia uma familia de nove elementos que vinha.... do Gujarat e, como e facil imaginar, depois de uma breve hesitacao e reaccao pudica, la tive de pousar com filhos e filhas ao colo e ja me via ameacado pela mulher do meu interlocutor, mas este la decidiu (uff) nao coloca-la ao meu colo, mas ao meu lado. Depois da sessao fotografica, perguntaram-me qual a unidade monetaria portuguesa e qual o seu valor. Fazendo de embaixador da boa vontade, resolvi puxar da carteira e oferecer uma moeda de euro a cada um dos dois ramos da familia. Ficaram felicissimos, mas para mal dos meus pecados, as duas moedas tinham efigie de Don Juan Carlos e la ficou perturbada uma vez mais a historia de que Portugal nao pertence a Espanha. A tarde de hoje foi passada na praia de Candolim (com uma agua tao calda como nunca encontrei, nem mesmo na Grande Barreira de Coral australiana) a dormitar, a ouvir russo e a receber propostas de massagens nos pes, no corpo e em todo o lado, insistindo os(as) massagistas que eu parecia estar em desequilibrio - olha a novidade!!! Recusei massagens, pulseiras e demais ofertas, mas deliciei-me com um banhinho de excelencia. E pronto, muito haveria a dizer das minhas aventuras e desventuras goesas, mas fica para outro dia. Amanha, voo para Kochi, em mais uma daquelas cidades por onde os nossos ilustres antepassados caminharam ha alguns seculos.
sexta-feira, 23 de outubro de 2009
Os portugueses e o tiro ao alvo
quinta-feira, 22 de outubro de 2009
To Kill a Cockroach e o Clark Gable
Depois de três dias em Varanasi, estava pronto para partir para a capital financeira da ìndia e sua cidade mais populosa. Despedi-me sem saudades do já mencionaado hotel Siddharta, onde passei uma última noite em justas heróicas, mas leais, com algumas baratas voadoras. Sem qualquer arma química disponível, resolvi lutar com o que tina mais à mão que, neste caso, era um chinelo. Depois de várias contendas em que me cobri de glória, o resultado terminou como uma vitória esmagadora dos humanos e uma derrota histórica para as infames criaturas que perderam cinco portentosos elementos da sua força aérea. Em Varanasi abundavam os placards que anunciavam produtos que eliminavam as baratas que não vemos, pois eu contentava-me com um produto que se limitasse a exterminar as visíveis (os jainistas que me perdoem). Depois de uma noite tão cansativa de luta feroz, esperava um pequeno-almoço reconfortante, mas quando cheguei já não havia sumo. O último comensal tinha aliás levado o resto de três pacotinhos (bem espremidos) que transformaram o sumo de laranja, de manga e de ananás num certamente muito saboroso tuti-fruti. Sem sumo, lá me ofereceram Coca-Cola (!), para rapidamente concluirem que também não tinham, mas ainda restava um resto de Tums (um sucedâneo da anterior, mas mais açucarada). Assim sendo, partir para umas torradinhas com manteiga, regadas com Tums. O pessoal da sala de pequenos-almoços era constituído por 4 parentes humanos das baratas, mas na sua versão tonta - corriam para todo o lado, mas não serviam ninguém. No meio da sala, planava uma impressora matricial daquelas de 9 agulhas que já quase não se vêem, mas que constituía um verdadeiro totem para o pessoal que por ali andava. Os ruídos das agulhas eram acolhidos com gestos de aprovação dos vários adoradores e as contas saiam a uma velocidade estonteante. Com tanta agitação, começou a sair um cheiro a queimado da torradeira, sinal claro que as minhas torradas já estavam em fase carbonizada. O bom do empregado acorreu solícito à torradeira e de forma quase miraculosa salvou as torradas de uma sorte infliz. Preparava-se já para as servir a este pobre e exausto guerreiro, mas devo ter feito um gesto indiciador de que não me encontrava de bom humor. Sinal que foi claramente entendido porque de imediato ele resolveu minorar o negrume do pão, friccionado violentamente as duas torradas uma contra a outra, até que a maior parte do queimado se transformou numa nuvem de fuligem. Sorriu encantado com a sua proeza, só para se ver contrariado pelo meu franzir de testa algo pronunciado. Não se intimidou, partiu para servir outro cliente, com uma visão periférica da torradeira claramente deficiente, e lá se decidiu a fazer mais duas torradas para mim. A manteiga também não abundava. havendo apenas um pacote de 250g que ia sendo cortado pelo mais jovem dos elementos em serviço (que não tinha mais de 16 anos). O rapazinho cortou uma fatia de manteiga, mas não a conseguiu descolar da faca, tendo de improvisar, molhando o dedo na boca e retirando a manteiga com o agora mais oleado indicador. Perante este cenário repulsivo (julgava eu), um dos empregados mais velhos repreendeu-o vivamente e deu-lhe um forte calduço na nuca, para não voltar a fazer daquelas (julgava eu). A repreensão saiu de modo loud and clear, mas, surpresa das surpresas, a admoestação não tinha a ver com a forma de cortar a manteiga, mas sim com a quantidade servida. O mais experiente resolveu, assim, cortar uma nova porção, usando um método não muito diferente do seu jovem camarada e com um gesto que fazia lembrar o António Silva no Pátio das Cantigas a ensinar como se fechava a porta ondulada do estabelecimento comercial, disse qualquer coisa próxima de um "Viu - assim é que se faz". Este hotel dava só por si para escrever uma novela com alguma piada. O aeroporto de Varanasi tem um terminal nacional e um internacional. O nacional serve três ou quatro destinos e o internacional, tanto quanto me apercebi, serve apenas um - Katmandu. Feliz coincidência porque Varanasi é hoje o que Katmandu foi anos atrás - um paraíso para ocidentais hippies ou neo hippies fascinados por um oriente que só existe na cabeça deles e que me faz sempre lembrar aquela bela expressão brasileira "quem gosta de pobreza é intelectual, pobre gosta mesmo é de luxo". Muitos dos europeuss e americanos que vi poraqui são daqueles que se fascinam por tudo o que achariam revoltante nos seus países de origem e fazem pensar em como o ódio e a paixão são tantas vezes irmãos gémeos, filhos dilectos do casamento entre a ignorância e a estupidez. Falar em terminais é uma força de expressão porque se trata na verdade de duas salas separadas por um corredor e com um sistema de check in que vai alternando entre as várias companhias que concorrem no espaço indiano. O meu voo era Jet Airways e, apesar do enorme atraso e da confusão entre despachar mala, fazer o check in, passar pela segurança e caminhar pela pista fora em direcção ao avião, só posso dizer que foi uma das melhores companhias em que viajei - pessoal eficiente e simpático, boas refeições e bancos com um pouquinho mais de espaço que o habitual. Dado o atraso já me imaginava a perder a ligação em Delhi ou, mais grave do que isso, chegar eu e não chegar a mala. Felizmente, o voo para Delhi foi transformado num voo para Mumbai, com escala em Delhi, e as coisas lá se compuseram. primeira fase da viagem foi divertida, com uma emigrante indiana nos States, de regresso a Delhi para controlar um Bed and Breakfast que possuia na capital. Tal como é habitual nos indianos, perguntou logo tudo o que podia sobre a minha pessoa - casado? filhos? Pais ainda vivos? Trabalha em quê? Business or pleasure? Depois de uma bateria de cerca de 20 minutos, lá começou a falar sobre o seu restaaurante em LA e a vida que agora tem nos EUA e que não poderia ter na Índia. Viajava acompanhada de um amigo indiano de Boston e tinham acabado de visitar as grutas de Khajurao - as tais que são famosas pelo seu conteúdo erótico explícito. A segunda parte foi menos interessante, mas mais movimentada, com uma família de 7 indianos, especialistas em arranjos, permutações e combinações que foram experimentando todas as hipóteses de sentar todos os elementos próximos uns dos outros, com a restrição de a mãe ter de viajar ao lado do seu filho gorducho. Levantei-me quatro ou cinco vezes até se ter encontrado uma solução satisfatória que, curiosamente passou por terem ficado mais afastados uns dos outros do que quando se sentaram nos seus lugares reservados. Pelo menos ficou a animação. O hotel de Mumbai é o melhor que tive na Índia, fica perto do aeroporto, mas a mais de uma hora das zonas centrais da cidade, o que não é muito prático. Mumbai não é a Índia, ou melhor, já não é bem a Índia. É uma cidade a fugir ao sub-continente e a procurar o Ocidente. Os táxis são táxis e os tuk tuks ficam às portas da cidade, a zona financeira mimetiza as cities dos países mais desenvolvidos e o ritmo da cidade já não está tão próximo do buzinar constante das outras cidades indianas. A minha guia, uma cristã de Bombaim, casada com um cristão goês, serviu-me o habitual pacote turístico - visita às lavandarias populares de Mumbai, casa onde viveu Gandhi (transformada em museu/biblioteca), passagem por um conhecido templo jainista, vislumbre do espaço cerimonial parsi (comunidade pequena, mas extremamente influente e rica, originariamente da Pérsia e que tem como figuras conhecidas o maestro Zubin Metha e Freddy Mercury) com a sua curiosa prática de disposição dos mortos aos elementos para serem comidos pelos pássaros e processados pelas forças naturais, ida a igrejas católica e anglicana de Mumbai, um saltinho ao Taj Mahal (hotel que sofreu o atentado que mantém as forças de segurança indianas em estado de sítio) e umas fotos à Gateway, espaço de onde partiram em 1947 os últimos regimentos britânicos, assinalando o fim do Raj e o desaparecimento da Jóia da Coroa do império. Claro que a minha amiga queria correr estes espaço para poder chegar ao importante - as lojas de alcatifas, jóias e demais artefactos, onde tem comissão. Uma vez mais, não houve negócio e não há dúvida que não dou grande interesse aos guias. A minha guia ficou muito interessada por Portugal, uma vez que ela é uma Pinto e Rebelo, por nascimento, e uma deSouza por casamento. Lá a esclareci o melhor que pude, ao mesmo tempo que lhe perguntava se sabia a origem de uma palavra que usava frequentemente para descrever alguns bairros por onde passávamos - posh. Só sabia que queria dizer rico, mas desconhecia a raiz indiana da palavra, ou melhor, do acrónimo. Posh é uma expressão que começou a ser usada nos barcos da carreira das Índias e que tinha a ver com o facto de os mais endinheirados poderem escolher os melhores lugares e que, invariavelmente, estes eram Port Out, Starboard Home - Bombordo para a Índia e Estibordo de regresso a casa. Registou cuidadosamente a expressão para a usar num próximo tour e eu fico à espera de ter contado a história correctamente, mas vendi-a da mesma forma que ma venderam. Aliás, o meu percurso de bom samaritano tem andado pelas ajudas a espanhóis e franceses em estado de pânico. Isto de não se falar inglês tem os seus riscos. Ontem no aeroporto de Varanasi, um francês já junto à porta de embarque e depois de a speaker ter anunciado o final call para Delhi, perguntou-me placidamente, se ela estava a dizer que o voo para Delhi estava muito atrasado. Lá o esclareci e o rapaz saiu que nem um foguete para o avião. Outras francesas num museu de Varanasi interrogavam-se sobre a expressão AD nas datações e concluiram por um apocalíptico Aprés Dieu, o que lhes parecia muito estranho. Lá lhes disse que era latim e não francês, mas não ficaram muito convencidas. Os espanhóis quando perdem o guia que fala espanhol ficam como os japoneses sem o guia que fala japonês - perdidos. Já são uma meia dúzia que tenho de guiar e agradeço aos deuses que levaram as iluminadas autoridades portuguesas de outrora a não dobrarem filmes. Caso contrário, hoje em dia estaria como os espanhóis e quando me lembrasse do "E tudo o vento levou", estaria a ouvir o Clark Gable a responder com desprezo olímpico para vivian Leigh - "Francamente, minha querida, estou-me nas tintas". Uau!
terça-feira, 20 de outubro de 2009
Manhas de Cinza, Noites de Polvora
Este e o meu ultimo dia em Varanasi. O pequeno-almoco prolongou-se por quase quarenta minutos porque o servico e incrivelmente lento. Sai do hotel, mais tarde do que desejava, e parti para me perder nas ruas. O cheiro das manhas indianas e invariavelmente a queimado e a cinza. Nao e dificil ver aqui e ali, alguem a queimar parte do lixo da vespera que se acumulou nas bermas. Outros varrem melhor ou pior, os dejectos acumulados, enquanto as vacas fazem o seu trabalho e procuram algum resto de comida que tenha ficado esquecido. Na ausencia quase total de porcos, as vacas fazem o seu papel, comendo um pouco de tudo. Como nao sao animal comestivel, mas sagrado, ninguem se importara muito com os efeitos do seu regime dietetico na qualidade da carne. Ja eu, pela minha parte, dava tudo por um bom bifinho do lombo e os hindus que me perdoem, mas nao posso deixar de olhar para estas pachorrentas criaturas que passam por mim ou que se deitam no caminho, sem um salivar pavloviano. Por causa das vacas e dos porcos ate ja fui a um McDonalds aqui em Varanasi. Para os que nao sabem, esta e a minha segunda entrada num McDonalds e a primeira que se produz voluntariamente. A primeira em Moscovo, a segunda na India. Nao deixa de ser curioso que nunca tenha entrado numa loja do Ronald nem nos States nem em Portugal. Logo a entrada da loja existe uma seguranca reforcada porque o restaurante esta dentro de um centro comercial e o governo teme atentados. De qualquer forma, a revista que passam aos clientes e muito ndiaa, ou seja, pouco ou nada se controla e ate uma metralhadora pequena entrava. O centro comercial e uma atraccao local, mas nao tem mais do que uma duzia de lojas e um food court com quatro restaurantes. As vedetas sao as salas de cinema, onde se estreavam varias producoes de bollywood, e o McDonalds. Na entrada do restaurante, e para que nao restem duvidas, anuncia-se que nao ha nada feito com carne de vaca ou de porco e seus derivados. Perante esta situacao la tive de me contentar com um McChiken acompanhado pelas proverbiais fries e pela nao menos tipica Coke. Coke que, como muitos devem saber, esteve proibida no mercado indiano ate ha poucos anos, deixando o terreno livre para a Pepsi. Aparentemente, a proibicao devia-se recusa de divulgacao da formula secreta da empresa de Atlanta. Ja aqui na India contaram-me uma historia interessante que se tera passado ha pouco anos, aquando da visita de Clinton a India. Acompanhado da sua pequena Chelsea, Clinton tera ficado impressionado com a ecnica de construcao do Taj Mahal e ainda mais com a qualidade das juncoes das pedras marmoreas. Quando lhe disseram que as juntas estavam unidas com uma cola secreta que era super resistente e cuja formula era guardada religiosamente pelos descendentes dos operarios que construiram o mausoleu (os tais 2200 que vos falei anteriormente). Clinton quis visitar alguns desses fieis depositarios do segredo para que eles acedessem a revela-lo. Disse que era presidente dos EUA e eles nao se demoveram, que era o homem que nao tinha tido sexo com a Monica Lewinsky, mas eles nao cederam. Finalmente, um dos defensores do sacrossanto segredo acabou por propor uma troca - o segredo da cola pelo segredo da Coca Cola. Clinton teve de ceder, reconhecendo que nao possuia o segredo da agua suja do capitalismo e voltou a casa de maos a abanar. A troca parecia-me justa - a cola de um mausoleu pela cola da sociedade ocidental. O suporte de uma pedra pelo suporte de um mundo. Foi pena que a troca nao se tivesse produzido - haveria mais clones da Coca Cola e a arquitectura americana inauguraria certamente um novo estilo. Mas ja que falamos de um dos icones modernos de homenagem ao deus priapo - falo do Clinton obviamente - e assinalavel que na minha digressao pelos EAU e pela India me tenha apercebido ate que ponto duas culturas que cantaram e glorificaram o erotismo em seculos passados se tornaram surpreendente pudicas em tempos recentes. Na verdade, os descendentes da cultura que produziu o Kama Sutra (que ja me foi oferecido por varios vendedores que se agrupam a entrada de templos e museus, quer em versao iluminura quer em versao fotonovela, com actores indianos ginasticados e flexiveis, mas tambem com um pouquinho de peso a mais) ou as esculturas de Khajurao, tornaram-se muito avessos as coisas do sexo. Os filmes indianos sao de uma pureza cristalina, os casais em publico nao expressam afecto, os casaizinhos de namorados escondem-se num parque u num jardim e encostam delicadamente a cabeca um no outro, com um sorriso envergonhado. As mostras publicas do que se passa nos bastidores reduzem-se as campanhas de vendas de preservativos e a sua presenca em carrinhos de vendedores ambulantes. Tirando isso, parece ate milagre como ha 1000 milhoes de indianos pelas ruas. A sociedade indiana e uma sociedade vibrante de cores e sons, mas tambem de cheiros e paladares. E de longe a sociedade mais sensorial que ja conheci. Tudo aqui faz apelo ao jogo dos sentidos, ao respirar da cultura local. Muitos dos sons sao as desagradaveis buzinas que se ouvem 24/24 horas, muitos dos cheiros sao atrozes, muitos dos paladares sao agressivos, mas percebe-se que existe uma enorme riqueza e uma fantastica vibracao neste mundo, onde vida e morte convivem harmoniosamente. Ainda onte, no meio do transito caotico, desfilavam vacas e bois e um funeral de uma velhota percorria a cidade em direccao a um dos Ghats a sul onde se procederia a sua cremacao. O som dos canticos da corte que a companhava a falecida eram interrompidos por buzinas e sons de rua porque a vida prossegue ao seu ritmo normal. As cidades indianas sao cidades que nao dormem, existindo sempre movimento e energia no ar. Sao cidades que vivem sobre a memoria de um passado glorioso e que ambicionam conquistar um futuro que sera dificil. Percorrendo a India, temos a sensacao que mesmo os predios recem construidos ja sao velhos e decadentes. Nada aqui surge com a marca ou o cheiro da juventude. A patina impoe-se mesmo no feito ontem. Mas talvez sejam os cheiros os elementos mais evocativos e mais recuperadores de memorias perdidas. Chegado a India imediatamente recuperei memoria da minha infancia quando observava a ferragem de cavalos e o cheiro caracteristico dos cascos queimados ao serem ferrados. Mais de 30 anos em me lembrar bem desses acontecimentos e um simples cheiro foi suficiente para despertar as memorias. Do mesmo modo que as manhas sao de cinza, as noites sao de polvora, com as explosoes sucessivas de foguetes no ar. Ao contrario da pirotecnia japonesa que vive dos efeitos e das cores desenhadas no ar, fazendo alias jus ao nome do fogo de artificio na lingua niponica - Hana bi ou, literalmente, flores de fogo - a foguetaria indiana e mais ligada a explosao do que ao efeito, ao ruido celebratorio do que a delicadeza dos padroes e dos jogos de luz. Vendo e ouvindo os foguetes na India, na semana do Dhivalli, tambem recuperei outro cheiro de infancia, este ainda mais distante do que o dos cascos dos cavalos no ferrador. Ao passar por um dos locais de lancamento, o cheiro da polvora trouxe-me as memorias dos tiros das pistolas de "fluminantes", como lhes chamavamos na altura, e que resultavam de uma fitinha de pequenos explosivos enrolada dentro da pistola de brincar e que cada tiro fazia avancar com uma pequena explosao. As memorias tambem podem ser evocadas com comida, como me aconteceu ha tres dias quando me serviram Kir, algo que se parece muito com um arroz doce mais liquido, mas com um gosto nao muito diferente do nosso doce. La expliquei ao empregado que me afiancava que nunca tinha provado nada igual, que la pelas minhas bandas tambem se comia algo parecido. Quis saber o nome, como se escrevia e como se fazia. Respondi as duas primeiras, mas deixei a ultima sem resposta - nao e so a Coca Cola que tem os seus segredos. Muitos dos empregados indianos gostam de receer bem e sao hospitaleiros, chegando mesmo ao ponto do ridiculo. Numa das muitas lojas onde entrei, o dono queria tanto vender-me algo que afiancava que um jovem como eu, que nao poderia ter mais de 30 anos, deveria comprar umas certas pecas de ourivesaria para preparar um iminente casamento. la lhe disse que nem 30, nem casamento, ao que ele respondeu que eu estava muito bem conservado. Como troca de elogios e perante a sua insistencia para que eu calculasse tambem a sua idade, avancei com uns mais que elogiosos 50, para quem parecia ter 60 e muitos. Ainda bem que fui lisonjeiro, o homem tinha 53!!! Sorridente, confessou o seu segredo - nao trabalho muito e descanso o mais que psso. Olhando para museus e palacios, templos e fortes ha que reconhecer que os arquitectos de outros tempos desenhavam edificios adaptados ao ambiente, com habeis sistemas de circulacao de ar, respiradouros estrategicamente colocados, orientacao sabia de edificios, uso de agua em circulacao, etc e que fazem inveja as nossas construcoes que sao sorvedouros de energia. E se nos deslumbramos com a beleza do construido, nao esquecems o que poderia ainda ter sido edificado. E disso um bom exemplo, a construcao de um segundo Taj Mahal, em negro e na margem oposta do rio. Este plano desenvolvido pelo proprio construtor do Taj Mahal para albergar o seu corpo so foi parado porque o seu filho nao achou a ideia interessante para o depauperado cofre do Estado e prendeu o pai, executou os irmaos e subiu ao trono para por termo a tanto despesismo. Imagine-se o que teriam sido dois Taj Mahal. Encerro a minha cronica de hoje com uma das mais sabias construcoes dos soberanos Indianos de XVI e XVII - quartos limitados a sua figura e onde nem mulheres nem concubinas entravam. Chamavam-se esses quartos, quartos dos sonhos. Neles, o imperador pensava, dormia e logoa que entrava em REM passava a sonhar. E nao e o sonho o mais agradavel momento, mais puro deleite da imaginacao, onde os prazeres odem correr. Ah, que grande inveja do velho Akbar e dos seus sucessores - um quarto de sonhos.
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