sexta-feira, 20 de novembro de 2009

Ding Dong Obama Show




Banguecoque foi a divisão entre as duas partes da minha viagem, separando o mês indiano do mês indochinês. Limitei a minha estada na capital tailandesa a três dias e não me arrependi de o ter feito. A cidade vale uma visita, mas falta-lhe um toque qualquer que permite distinguir as cidades bonitinhas das fascinantes. Tem, é verdade, os traços genéricos das grandes cidades asiáticas que as transmutam de sapos diurnos em princesas nocturnas, por obra e graça dos néons à la Blade Runner. Tal como as pouco atraentes Singapura ou Tóquio, também Banguecoque conquista uma certa aura quando o sol desaparece e as luzes dos placards publicitários se iluminam. Quanto ao resto, a cidade é um enorme mercado, onde tudo se pode vender ou comprar e onde somos bombardeados permanentemente com estímulos de compra. Os preços são baixos e os shopaholics encontram aqui um lugar de perdição. O calor imenso não nos deixa esquecer o quão próximos estamos da linha equatorial e andar no meio do trânsito é um pequeno suplício. Desde que se aterra em Banguecoque até que se levanta voo, existe uma imagem tutelar que não pode ser ignorada por ninguém - o rei. O rei é uma espécie de Torre Eiffel - vê-se em todo o lado e por todos os lados. Não há como escapar a esta figura de ar eternamente jovem, cujas fotos de há 40 anos se parecem estranhamente com as de hoje. Pensei mesmo em perguntar se o rei descobriu o elixir da longa vida ou se fez um pacto diabólico, à maneira do Dorian Gray, mantendo-se jovem para todo o sempre. As fotos do rei são geralmente acompanhadas por cartazes encomiásticos que referem o quanto os seus súbditos se encontram reconhecidos pelos trabalhos do soberano. As críticas ao rei são mais raras do que os títulos do Leicester e o papel por ele desempenhado nas crises políticas é escamoteado pela imprensa e pelos principais agentes políticos. Deste modo, levanta-se um coro de indignação perante a recusa do Camboja em extraditar o antigo primeiro-ministro tailandês, condenado por corrupção, num processo que muitos observadores internacionais consideram duvidoso. Coro este que subiu de tom, logo quue se soube que o governo cambojano nomeou o trânsfuga conselheiro económico dos ministros khmeres. Deixemos então o nosso amigo rei e passemos aos súbditos. A Tailândia é um país de gente simpática e risonha (por isso é apresentado como o país dos sorrisos), mas os taxistas constituem uma notável excepção - são carrancudos e paarecem estar mal com o mundo. Costumo dizer que se conhece uma cidade quando se percebem as duas classes mais emblemáticas que nela habitam - taxistas e prostitutas. Os primeiros medem o nível de ressentimento de uma cidade e permitem perceber quem são os grupos alvo da raiva, da inveja ou da maledicência. As segundas, e falo de prostitutas de rua e não de escort girls (que são iguais em todo o lado) aferem o ritmo, a escala e o movimento das cidades e marcam os trends dos bairros e dos mercados. Não sei se a minha intuição corresponde à realidade, mas não deixa de ser veerdade que, em Banguecoque, estes parecem ser os grupos mais visíveis. Depois de uma viagem longa pelos canais da cidade e pela observação dos mercados aquáticos, resolvi passar para coisas mais directamente turísticas como entrar num show de cobras (venenosas e não venenosas), tendo o prazer de contactar directamente com uma das amiguinhas a quem tinham extraído previamente o veneno. Recusei ser fotografado com a dita não porque fosse caro, mas por achar que era um ultraje enganar os observadores. Não há coragem nenhuma em agarrar um animal a quem retiraram a arma letal e ser fotografado assim, equivaleria a meter a cabeça na boca de um leão desdentado ou lutar com um urso sem garras. De seguida, passei por vários mercados e templos, mas nenhum particularmente interessante. O número de ocidentais de meia-idade (leia-se acima dos 60) que viajam sozinhos é enorme mas, logo que chegam, é ver milagres de fazer inveja à Igreja Universal do Reino de Deus e demais seitas evangélicas. Trôpegos, cambaleantes, descontentes com a vida, macilentos, duros de ouvido e quase cegos, coxos, plenos de artroses e parkinsonados ganham nova vida assim que caminham por Silom ou Sukhumvit. De um lado e de outro, saltam ao seu encontro jovens tailandesas que, com uma pequena festa, os curam mais rapidamente que o bispo Edir Macedo nos seus melhores dias. E depois, bem, depois é vê-los rejuvenescer 20 anos e passear de mão dada com as ninfetas que os conquistam e lhes trazem um sorriso aos lábios. Ao meu lado, num Starbucks de Sukhumvit, uma inglesa virava-se para o marido e mostrava-se indignada com aquele espectáculo degradante e referia a triste figura desempenhada pelos (tidos) por fleumáticos britânicos - "como é que eles podem acreditar que elas gostam deles - eles têm idade para ser avôs delas". Escapa à senhora que eles sabem perfeitamente o que fazem e o que elas sentem, mas que importa? Por um momento, um momento só, regressam ao passado e, pela primeira vez, em muitos anos, conquistam, é certo, em libras, uma pequena manifestação de afecto e saciarão a fome de pele a que a solidão condena tantos. Bnguecoque é uma cidade com esse condão de reverter o tempo para velhos caquéticos oou não que, mesmo sem o Viagra de contrabando que aqui se vende por todo o lado, recuperam os sonhos viris de outras eras. É impossível passar por esta cidade sem referir a presença avassaladora do sexo. Se a Índia é a terra dos corvos, boa metáfora para lixo reciclado e morte regeneradora, Banguecoque é a cidade que respira sexo por todos os poros, mas num ambiente curiosamente casto e moralista. É como se a cidade vivesse em dois campos paralelos que caminham lado a lado sem nunca se tocarem ou quererem saber um do outro. Muitas das prostitutas que circulam em Banguecoque são, no entanto, o que por aqui se chama ladyboys, ou seja travestis. Estes têm invariavelmente corpos mais esculturais e pernas mais longas e perfeitas que qualquer uma das suas colegas femininas. Não se pense, de qualquer forma, que o super-mercado do sexo é apenas abastecido por criaturas locais. É fácil encontrar filipinas, indonésias, chinesas, mas também russas e até nigerianas. Em face deste cenário, impunha-se uma visita à emblemática Patpong Road, que na verdade é mais um pequeno bairro do que uma rua, para observar in loco, o negócio em todo o seu esplendor. Logo à chegada, percebe-se de onde vem o maior número de consumidores - os letreiros e os restaurantes não deixam dúvidas, tudo está escrito em japonês e as saudações de boas vindas são todas proferidas em nihon-go. Se os restaurantes e bares não esclarecessem o assunto, uma simples observação da indumentária das jovens em espera, tiraria qualquer hesitação. O cosplay é aqui a regra e as meninas vestem-se de colegiais nipónicas, de enfermeiras e de hospedeiras, três grupos que são um must fetichista em qualquer parte do mundo, mas que em terra do sol nascente, atingem um patamar estratosférico. Depois de ter sido convidado por uma jovem com ar de estar em início de carreira para passar um bom momento e me assegurar que "I'll take good care of you sir!" e de vários angariadores me garantirem uma hora mágica com a melhor massagista de Patpong e, em caso de necessidade urgente, 2 pílulas de Cialis, a preço da chuva, resolvi seguir para o centro do negócio - um mercado nocturno onde as ourivesarias vendem preservativos (o que me pareceu muito adequado) e o bares de go go dancers são mais que muitos. Comecei a perceber que ali se vende gato por lebre quando reparei que os angariadores de massagens anunciavam cada um a sua massagista, mas a fotografia era sempre a mesma!!! Já me preparava para abandonar o local, quando da esquerda e da direita me foi sugerid0 à boca pequena um surpreendente "ding dong Obama show". O nome era sugestivo e uma vez que o Obama se encontra em tour pelo sudeste asiático, pensei que se tratava de uma encenação alusiva à vinda do novel presidente americano. Quanto ao ding dong confesso não ter conseguido imaginar do que se tratava, mas fiquei atraído pela proposta. Depois de entrar num normal bar, onde as raparigas dançam (!), em biquini, à média luz agarradas a um varão e com movimentos entre o lânguido e o risível, fui escoltado para o espaço do referido show. Não demorou muito tempo até ter percebido com as aterragens e levantares de voo sucessivos me deixaram um pouco para o surdo. Oh meus amigos é que nem ding dong nem Obama - a coisa era mais ping pong e banana show. Dispensando a parte mais hardcore da coisa, digamos apenas que percebi o porquê de os orientais ganharem todos os campeonatos de ténis de mesa. O treino deve ser intensíssimo para serem conseguidos tais resultados. As mesa tenistas em causa não necessitam obviamente de raquete, mas exibem uma qualidade de jogo que faz o júbilo da assistência, havendo alguns mesmo que respondem ao serviço, reenviando a bola para a sua origem. Quanto à banana, penso não serem necessárias explicações adicionais. Assim, muito mais instruído que que o antigo bispo de Braga, D. Eurico Dias Nogueira, após ter visto na TV o Império dos Sentidos, retirei-me, via Sky Train, para o meu hotel, pensando como é diferente o desporto na Tailândia.

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