sexta-feira, 6 de novembro de 2009

O Salazar não gostava de fruta tropical





Escrevo esta entrada do blog numa casa barco, a observar o entardecer, rodeado de palmeiras e coqueiros e com o som dos corvos, mas também das galinhas, em fundo e com alguns mirones a tentar perceber o que é que estou a fazer junto à proa do barco. Depois da corrida de avião, vindo de Goa, a minha chegada a Kerala, um dos estados mais meridionais da Índia, juntamente com Tamil Nadu, com o qual faz fronteira, foi calma, tendo-me albergado num hotel de Kochi que já conheceu certamente melhores dias, mas que tem uma bela posição junto ao rio e a sua piscina faz lembrar sítios mais selectos, dedicados à high society. De qualquer forma, não cheguei a aquecer o lugar e ala que se faz tarde, em direcção a Munnar, uma espécie de estância alpina, em pleno estado de Kerala, mas a tocar Tamil Nadu e integrada numa das zonas de reserva natural dos Gates Ocidentais, a cordilheira com os montes mais altos a sul dos Himalaias. À medida que se percorre o caminho entre Kochi e Munnar, a paisagem vai mudando significativamente, especialmente por causa da altitude. As plantações de ananás, árvore da borracha, arroz, café e cardamomo cedem o seu lugar ao omnipresente e dominante chá que os ingleses souberam impor durante o século XIX e que tornaram quase numa monocultura das terras altas que têm a temperatura e a humidade necessárias à produção das folhas mágicas que entram em cena às 5 horas em ponta, graças aos contributos da tal infanta portuguesa que levou Bombaim no dote. Após a independência, a Índia resolveu apostar na continuidade e as plantações de chá transformaram-se num tapete verde que, à distância, parece ser um campo relvado. Esta parecença deve-se não só à verdura das folhas (especialmente nesta época de colheita), mas também à pequena distância entre arbustos (o que dá uma imagem compacta às plantações) e à pequeníssima altura de cada arbusto, não mais de 70 ou 80 cm. Esta pequenez não é natural, antes sendo fruto de trabalho humano que reduziu, por manipulações várias, árvores que podem chegar aos 15 metros em arbustos de pequena dimensão. Estamos ao nível de verdadeiros bonsais de chá. As plantações ocupam milhares de hectares e faz impressão imaginar como é que os trabalhadores rurais são capazes de escalar declives que não raramente superam os 30 graus e a altitudes de mais de 1000m e com escarpas assustadoras. Tendo em conta que uma das razões para a redução do tamanho das árvores foi o perigo da escalada para a recolha das folhas, convenhamos que o trabalho não passou propriamente a um passeio no parque. O aspecto é, no entanto, magnífico e os nossos olhos deleitam-se com a quantidade de verde. Como se trepa até mais de 2000 m, a temperatura também é mais agradável, pelo menos para os meus padrões, já que indianos e demais turistas já faziam as escaladas de algumas destas montanhas com um belo cachecol, luvas, impermeáveis e protectores de orelhas. Por mim, lá subi o que havia para subir, com a roupa do costume - uma t shirt e umas calças leves porque os calções recebem quase sempre a mesma reprimenda que os chinelos - joelhos e pezinhos são para andar tapados. Se não vi nada de Kochi porque parti de manhã para Munnar, vi tudo de Munnar porque tem muito pouco para ver. É uma vilória simpática, mas muito pequenina, caracterizada por umas dezenas de lojas, alguns hotéis (propriedade de políticos do estado), muitos albergues e uma igreja católica de alguma dimensão. Todas as estradas de Kerala são um desfile de igrejas, conventos, capelas, nichos, centros de peregrinagem católicos, protestantes, ortodoxos e sírios. Não fazia qualquer ideia, mas 25% da população de Kerala é cristã, remontando aqui o Cristianismo não à chegada dos portugueses, mas à presença, não sei se mítica se real, do apóstolo São Tomé, correntemente conhecido pelo apóstolo das Índias. Estas igrejas e capelas que ocupam cada esquina da estrada e que se sucedem a um ritmo avassalador que faz parecer o Minho uma terra de ímpios, hereges e apóstatas., têm a notável característica de se diferenciarem claramente das igrejas de Goa. Se estas seguem o modelo canónico do colonizador e oferecem uma faceta barroca clara com algumas cedências ao clima, já as igrejas de Kerala (não importa se católicas ou ortodoxas) assumiram uma feição tão indiana que as cores e as formas fazem lembrar templos hindus e só um olhar atento às cornijas permite perceber que lá dentro está São Sebastião, São Jorge ou a Virgem Maria e não Ganesh ou Vishnu. A iconografia cristã casou aqui perfeitamente com o substrato hindu e, talvez por isso, tenha levado a conversões que surpreenderam os portugueses aquando a sua chegada a Calecute e depois a Cochim. A fusão é tal que algumas igrejas católicas impõem aos fiéis a entrada no templo sem sapatos à boa maneira hindu e muçulmana, sendo os locais de culto muito mais despojados do que os que encontramos noutras latitudes. Estamos aqui muito perto do equador e os níveis de calor e de humidade à altura do mar são muito elevados, não espantando, por isso, que colonizadores habituados a outros climas procurassem refúgio nas montanhas, onde os Verões são suportados e o ambiente está curiosamente próximo dos mundos insulares. Para os britânicos em missão na Índia, Munnar deveria parecer o paraíso na terra. Para além das plantações já referidas, Kerala produz também chocolate, a partir do cacau que aqui cresce e que é vendido um pouco por todo o lado. As bananeiras de vários tipos e os coqueiros são presença massiva nas zonas mais baixas. Um dos elementos positivos da minha chegada à Índia foi lembrar como as bananas podem ser um excelente fruto, doce e agradável ao paladar. Se há 40 anos, os portugueses se podiam deliciar com bananas de Angola e de São Tomé, após a descolonização passámos a consumir as insípidas bananas centro e sul americanas que sempre me pareceram uma imposição sem sentido. Já não bastava as Repúblicas das bananas, ainda temos que aturar as companhias americanas a venderem-nos gato por lebre. As bananas indianas são aliás tão pequeninas que não passariam as normas de calibragem da nossa União Europeia, sempre entretida em apostar que o maior é melhor. Mas aqui, como em tantas outras coisas, o pequeno é bem melhor e estou rendido ao paladar que julgava perdido desde a minha adolescência. Só espero que um importador misericordioso leia este apontamento e comece a importar bananas a sério e dar uma corrida à vergonha que é o domínio da infame Chiquita que só tem tamanho e nenhum paladar. Esta recordação induzida pelas pequeninas bananas indianas, fez-me também lembrar como a terrível mania de normalizar e tornar tudo igual, vai destruindo a diversidade. Cerca de 70 a 80% das espécies de maçãs existentes a nível mundial no início do século XX estão hoje extintas ou em extinção, em nome da produtividade e da calibragem. Que saudades das maçãs de Palmela com que me deliciava todos os anos em Sesimbra, que memórias agradáveis das suculentas e ácidas Casanova (ou será que era Casa Nova?). Esta ditadura que nos impõe comida sem gosto e sentimentos de violação de algum código sempre que nos banqueteamos com algo saboroso, tem longa tradição. Espero não sobreviver para presenciar uma sociedade em que a carne já foi banida, o café obliterado, o álcool condenado às trevas e os açúcares destruídos em praça pública. Mas já faltou mais!! Os Epicuristas têm sido demasiado brandos com esta cambada do politicamente correcto. Às malvas com a saúde e com as dietas, abaixo o insípido e o normalizado, viva o excesso e o empanturramento. Mas dizia eu que esta mania das proibições já vem de outros tempos. O Dom António de Oliveira Salazar (como é conhecido no museu arqueológico de Goa) devia ter qualquer coisa contra a fruta. Falo de fruta real e não daquela que o Pinto da Costa gosta e que oferece juntamente com chocolatinhos e café com leite aos árbitros da nossa Liga mais valiosa. Desta fruta julgava eu que o Salazar também não apreciava, mas a recente biopic da SIC fez-me ver a personagem com outros olhos. Ora, com tantas províncias ultramarinas nunca percebi por que é o nosso presidente do conselho deixava vir bananas, mas não mangas, papaias e outras delícias tropicais. Acho que estas últimas tinham um potencial subversivo enorme que escapava às bananas. Podem perguntar porquê, mas a resposta é simples. As bananas eram uma importante arma no combate ao socialismo e tinham por isso lugar na mesa de qualquer português sensato. Convém lembrar como os cidadãos da RDA ao atravessarem o muro tinham como principal preocupação comprar bananas, esse fruto que era tão importante no Leste como a liberdade. Ainda me recordo como da primeira vez que estive na Rússia, as bananas eram tão importantes que estavam numeradas. Perante a minha perplexidade, o meu amigo Yuri esclareceu-me - “cada número significa um peso e vais pagar a banana de acordo com esse peso” - a banana não era uma banana, era sobretudo uma especiaria tão importante como o açafrão. Se as bananas eram uma arma anti-socialista, já manga e a papaia eram frutos quase tão perigosos como a Coca-Cola. Os frutos podiam transmutar um país de brandos costumes num país tropicalista que, com os calores, se podia bem despir de preconceitos e demais benzeduras, a Coca-Cola podia colocar-nos na rota de consumismos delirantes e de drogas bem mais potentes. Por isso mesmo, cresci a comer bananas e a beber a saudosa Canada Dry, de boa memória, enquanto esperava pelo dia libertador em que pudesse beber a Coke. Quando pela primeira vez bebi a água suja do imperialismo yankee foi uma experiência de anti-clímax e cedo comecei a ansiar pelo regresso da Canada Dry. Deste anseio brotaram outros e quando dei por mim, já não eram só a Canada Dry e a Laranjina C, na sua bojuda garrafa e com a música do Tequila, que eu desejava, eram os Gallapiat (conhecidos em Portugal por Pequenos Vagabundos), o Daktari do adorável Clarence , o leão vesgo, o Skippy the bush kangaroo. Se o Salazar fez de mim um insatisfeito, a Coca Cola tornou-me num saudosista. A viagem na casa barco de Allepey foi um dos pontos altos desta minha travessia da Índia. A navegação é suave e feita ao ritmo descomprometido e relaxado dos habitantes de Kerala. Voga-se entre coqueiros, bananeiras, palmeiras e as aves são aos milhares. De um lado o lago, do outro campos de arroz recentemente inundados à espera de nova sementeira. As casas-barco são todas idênticas, embora o seu tamanho seja variável. Vejo passar as que acolhem três e quatro casais e as que possuem um double deck. A minha tem apenas um quarto e eu sou o único passageiro com uma tripulação que envolve o piloto e uma espécie de cozinheiro-mordomo que trata das restantes questões. O almoço é um peixinho suculento preparado à maneira de Kerala e o jantar será com lagostins acabados de pescar e comprados por mim a um pescador local que se chega ao nosso barco com a proposta - 900 rupias por 8 lagostins. Fez-se o negócio e o jantar foi de estalo e como se sabe a gastronomia é um elemento essencial da cultura dos povos. Um povo culto é um povo que come bem e tem uma rica tradição culinária. É por isso que ainda hoje fico intrigado pela construção do império britânico - como é que um grupo de comedores de fish and chips que não sabe distinguir comida de uma sola de sapato, foi capaz de erguer um domínio dobre parte importante do globo.

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