Estava em Águeda, de férias, e fazer percursos entre o Soto Rio e a Pateira de Fermentelos e entretinha-me a coleccionar cromos dos Jogos Olímpicos de Munique e de uma série chamada "Povos e Costumes Exóticos". Já não tenho uma ideia exacta de quais eram os povos contemplados na antropológica colecção, mas, ou por sugestão de viagem, ou por recordação precisa, quase consigo assegurar que alguns dos grupos contemplados na colecção foram aqueles que vi aqui, num terreno quase encostado à fronteira chinesa. Para se chegar a Sapa, vindo de Hanói, tem-se uma viagem nocturna de comboio (cerca de 9 horas e meia) a que se adiciona mais 1 hora por estrada. O local, em si mesmo, não é mais do que uma sucessão de lojas, restaurantes e hotéis de todos os tipos, mais um mercado e uma igreja, mas é a porta para a exploração dos habitats de algumas das minorias étnicas vietnamitas que fazem, do contacto com os turistas, o seu modo de vida. Tentam vender um pouco de tudo e lá vão falando inglêse francês, geralmente de melhor qualidade do que o exibido por muitos dos guias. As roupagens e as casas distinguem mais cada grupo do que as suas características físicas, embora, para todos aqueles que têm formação na área das ciências sociais fique sempre a ideia que há ali um pouco de invenção da tradição, para turista ver e ficar fascinado. O fascínio é também aqui correlato da ignorância ou do desconhecimento. Invariavelmente, a admiração é maior em norte-americanos e europeus do norte do que em europeus do sul, Os mais velhos destes, lembram-se ainda bem do que eram as aldeias nacionais há 40 anos e não ficam estarrecidos perante fornos a madeira, máquinas de coser a pedais, noras e alcatruzes, chãos de casa em terra, telhados em palha, panelas de ferro e por aí adiante. Mesmo sem o efeito surpresa, há que dizer que a descida de Sapa para estas aldeias tribais é um excelente exercício, não só físico (sempre são uns 7 ou 8 km), mas também cultural. As crianças são o elemento mais visível, frequentemente às costas umas das outras - as de 7 transportam às costas as de 1 ou 2 e vão tentando vender umas pulseiras ou carteiras de pano aos turistas que passam. Grandes e pequenos, têm na boca três perguntas sacramentais - uére yu fron? uats yó neime? Bái someting frómi? Por vezes, vão mais longe e perguntam por mulher, filhos e idade. Os campos cultivados em socalcos são abundantes em arroz e milho e, por todo o lado, deslizam patos e galinhas, porcos chafurdam e búfalos esperam pela nova época de cultivo, momento em que serão chamados a desempenhar os seus serviços de trabalhadores forçados. Entre pontes de corda e madeira, quedas de água, nevoeiro espesso, temperaturas na ordem dos 10-12 graus e caminhos empedrados cortados por riachos, lá fui contactando com os locais, visitando as suas casas para um chazinho de boas vindas (onde se tem de por de parte a tendência natural dos ocidentais para a limpeza) e inteirando-me dos porquês de algumas casas não terem janelas (não deixam entrar os maus espíritos) ou terem disposições particulares. Tive ocasião de fotografar dezenas de crianças e visitar as suas escolas, onde entusiasticamente cantam temas tradicionais e aprendem a fazer as suas contas e, para minha grande satisfação, fui amavelmente recebido por gatos, pequenos e pequeníssimos que vieram sempre ter comigo para umas festas que os consolaram a eles e a mim. Alguns, ronronaram deliciados perante as minhas festas e presumo que seja uma experiência a que não estão muito habituados. Os gatos nas aldeias vietnamitas são preservados por serem bons auxiliares no combate às pragas de ratos que podem dizimar as colheitas. Sapa vale bem uma visita, quanto mais não seja para recordar as raízes dos meus interesses antropológicos.
sexta-feira, 27 de novembro de 2009
Povos e Costumes Exóticos
Estava em Águeda, de férias, e fazer percursos entre o Soto Rio e a Pateira de Fermentelos e entretinha-me a coleccionar cromos dos Jogos Olímpicos de Munique e de uma série chamada "Povos e Costumes Exóticos". Já não tenho uma ideia exacta de quais eram os povos contemplados na antropológica colecção, mas, ou por sugestão de viagem, ou por recordação precisa, quase consigo assegurar que alguns dos grupos contemplados na colecção foram aqueles que vi aqui, num terreno quase encostado à fronteira chinesa. Para se chegar a Sapa, vindo de Hanói, tem-se uma viagem nocturna de comboio (cerca de 9 horas e meia) a que se adiciona mais 1 hora por estrada. O local, em si mesmo, não é mais do que uma sucessão de lojas, restaurantes e hotéis de todos os tipos, mais um mercado e uma igreja, mas é a porta para a exploração dos habitats de algumas das minorias étnicas vietnamitas que fazem, do contacto com os turistas, o seu modo de vida. Tentam vender um pouco de tudo e lá vão falando inglêse francês, geralmente de melhor qualidade do que o exibido por muitos dos guias. As roupagens e as casas distinguem mais cada grupo do que as suas características físicas, embora, para todos aqueles que têm formação na área das ciências sociais fique sempre a ideia que há ali um pouco de invenção da tradição, para turista ver e ficar fascinado. O fascínio é também aqui correlato da ignorância ou do desconhecimento. Invariavelmente, a admiração é maior em norte-americanos e europeus do norte do que em europeus do sul, Os mais velhos destes, lembram-se ainda bem do que eram as aldeias nacionais há 40 anos e não ficam estarrecidos perante fornos a madeira, máquinas de coser a pedais, noras e alcatruzes, chãos de casa em terra, telhados em palha, panelas de ferro e por aí adiante. Mesmo sem o efeito surpresa, há que dizer que a descida de Sapa para estas aldeias tribais é um excelente exercício, não só físico (sempre são uns 7 ou 8 km), mas também cultural. As crianças são o elemento mais visível, frequentemente às costas umas das outras - as de 7 transportam às costas as de 1 ou 2 e vão tentando vender umas pulseiras ou carteiras de pano aos turistas que passam. Grandes e pequenos, têm na boca três perguntas sacramentais - uére yu fron? uats yó neime? Bái someting frómi? Por vezes, vão mais longe e perguntam por mulher, filhos e idade. Os campos cultivados em socalcos são abundantes em arroz e milho e, por todo o lado, deslizam patos e galinhas, porcos chafurdam e búfalos esperam pela nova época de cultivo, momento em que serão chamados a desempenhar os seus serviços de trabalhadores forçados. Entre pontes de corda e madeira, quedas de água, nevoeiro espesso, temperaturas na ordem dos 10-12 graus e caminhos empedrados cortados por riachos, lá fui contactando com os locais, visitando as suas casas para um chazinho de boas vindas (onde se tem de por de parte a tendência natural dos ocidentais para a limpeza) e inteirando-me dos porquês de algumas casas não terem janelas (não deixam entrar os maus espíritos) ou terem disposições particulares. Tive ocasião de fotografar dezenas de crianças e visitar as suas escolas, onde entusiasticamente cantam temas tradicionais e aprendem a fazer as suas contas e, para minha grande satisfação, fui amavelmente recebido por gatos, pequenos e pequeníssimos que vieram sempre ter comigo para umas festas que os consolaram a eles e a mim. Alguns, ronronaram deliciados perante as minhas festas e presumo que seja uma experiência a que não estão muito habituados. Os gatos nas aldeias vietnamitas são preservados por serem bons auxiliares no combate às pragas de ratos que podem dizimar as colheitas. Sapa vale bem uma visita, quanto mais não seja para recordar as raízes dos meus interesses antropológicos.
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