sexta-feira, 20 de novembro de 2009

A verdade e o agente laranja




É impossível falar de Saigão (Ho Chi Minh city) ou do Vietname, sem falar da guerra que dominou a história deste país ao longo de metade do século XX. Do mesmo modo, não é possível ignorar o fervor nacionalista dos vietnamistas ou a sua veneração pelo pai fundador. Todos os tours de Saigão começam ou incluem a visita ao museu dos crimes de guerra, perpetrados principalmente pelos americanos, mas também pelos franceses, antes da sua derrota histórica em Dien Bien Phu. A unilateralidade dos relatos da guerra ou a referência à "verdade dos facctos" não surpreende. Aquilo que causa estranheza é estarmos habituados a que esta releitura da história, com a sua limpeza das incoveniências, omissão dos erros e exagero de registos, seja feita por norte-americanos e outros ocidentais. Mas se atentarmos um pouco, as operações de releitura da história que formatam a realidade são sempre executadas pelos vencedores e pelo pêndulo da opinião pública. A guerra do Vietname foi a primeira machadada no sonho americano de potência imbatível, como Porto Arthur, em 1905, tinha sido a primeira manifestação de uma potência asiática capaz de derrotar um potentado europeu. A verdade dos factos não reside na utilização do agente laranja ou do napalm pelos americanos, mas na sua divulgação, com a concomitante omissão de outros tipos de crimes. A I Guerra Mundial foi reeescrita pelas mãos de quem a venceu, com uma atribuição única de responsabilidades aos vencidos dos Impérios centrais. Os crimes de guerra do segundo conflito mundial foram julgados em tribunais especiais, mas envolveram apenas derrotados, passando-se uma esponja sobre Dresden, Hiroshima, Berlim ou os campos de concerntração para americanos de origem japonesa. A história é feita pelos venccedores, da mesma forma que a justiça é a sua moral e o ressentimento é a moral dos vencidos. A Saigão falta-lhe o tom decadente, deliciosamente corrupto e moralmente repreensível que fez dela a grande cidade da guerra e espaço de todas as histórias. A Saigão de hoje é um não evento, algures entre uma cidade socialista a despontar para os encantos do capitalismo e uma velha senhora colonial que se quer desfazer dessas heranças comprometedoras. Esperava algo diferente de Saigão, mas encontrei motas, motas, bicicletas e motas, a que se soma uma população que, pela sua simpatia (!) pode ser considerada uma espécie de República Checa do Sudeste asiático. Tal como os seus congéneres de Praga, os habitantes de Saigão parecem não morrer de amores pelos estrangeiros e turistas e a arte da hospitalidade não se desenvolveu muito por estas bandas. Entre mercados e pagodes, museus e relatos de guerra, avancei decidido. O mais interessante da visita foi o avivar das recordações que tinha do final da guerra, com a entrada de blindados no palácio presidencial do sul, pondo assim efectivamente fim à guerra. Apesar de, nessa altura, as atenções dos portugueses estarem concentradas na revolução nacional em marcha, recordava perfeitamente a fachada do palácio do governo de Saigão e a saída dos dignitários que não tinham ainda fugido do país. De alguma forma, as imagens eram semelhantes às da entrada dos barbudos de Fidel em Havana na passagem de ano de 59. A visita ao palácio é um momento para uma sessão mais de propaganda de um regime que se mantém firme nas convicções e na retórica comunistas, mas que, na prática, caminha de braços abertos para as delícias do mercado, onde já nadam os seus vizinhos do norte. Em boa verdade, o Vietname está próximo cultural e linguisticamente da China e cabe afirmar que se trata apenas de um grupo que se estabeleceu a sul do potentado do Império do Meio e acabou por se expandir para sul, integrando a pouco e pouco territórios que fizeram parte do grande império khmer. Saigão, ela mesma, foi cidade cambodjana até há pouco tempo e muitos dos habitantes do sul do Vietname, são etnicamente khmers ou aparentados a eles. A herança francesa é visível sobretudo na escrita, nalgum catolicismo residual e numa certa arquitectura que ainda subsiste nalguns locais da cidade. Tudo o resto parece perdido e dá bem mostras da difereça de capacidade entre o sistema colonial britânico e todos os outros. Em 100 anos de Hong kong, fruto de uma ocupação no mínimo vergonhosa (resultado da guerra do ópio), os britânicos deixaram língua, instituições, cultura e rituais. Em 500 anos de Macau, os portugueses pouco deixaram em Macau e, em 100 anos de Indochina, pouco permanece da herança francesa. Os Vietnamitas têm uma noção clara de serem uma potência regional que, na prática, exerce um poder decisório sobre o Camboja e condiciona as políticas regionais.

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