quinta-feira, 12 de novembro de 2009

Dilúvio no Coromandel




Sempre que viajo, tenho tendência para apanhar umas chuvas fortes. Foi assim em Pequim e, sobretudo em Praga, onde presenciei uma das maiores cheias dos últimos 50 anos. Para não fugir à regra, os meus últimos dias na Índia foram, no mínimo, molhados. A transição de Kerala para Tamil Nadu foi acompanhada por uma mudança radical nas condições atmosféricas e, durante uma semana, a minha rotina foi ver templos e assistir a chuvadas monumentais, seguidas de inundações. O mau tempo, provocado pela monção do Nordeste que desce até ao sudeste da Índia, foi responsável por algumas dezenas de mortes e por destruições várias e só não provocou mais desalojados porque estamos na Índia e os mais afectados já não possuem alojamento propriamente dito. Se em Kerala são raros os templos hindus que se podem visitar, o mesmo não se pode dizer de Tamil Nadu, onde existem vários onde se pode entrar gratuitamente, embora haja sempre um guia (que por vezes também é sacerdote hindu) que procura um fee para dizer o óbvio e falar das histórias das várias encarnações de Shiva ou do casamento deste com Parvati ou ainda dos filhos que tiveram. As narrações repetem-se, mas são sempre ditas com alguma graça e partem do princípio que os ocidentais são completamente ignorantes a respeito da história indiana ou da sua mitologia particular. Os templos que foram o meu refúgio da chuvaa e das intempéries não me inspiraram profundamente. Se a primeira impressão da arquitectura do período Chola pode ser de deslumbre, rapidamente se torna cansativa e confesso que apreciei mais a arquitectura do norte. Tal como acontece com a arquitectura barroca europeia, não aprecio nos templos do sul da Índia, o excesso de ornamentação e a redundância de formas. Tudo parece exagerado, demasiadamanete colorido e enfeitado. O que lhe sobra em floreados, falta-lhe em elegância. Durante uma semana percorri Madurai, Trichy, Thanjavur, Chidambaram, Mahabalipuram, Kanchipuran e Chennai e, apesar do carácter fragmentado da visita, deu para perceber a riqueza da aposta indiana em duas áreas fundamentais -a saúde e a educação. Todas as cidades, pequenas ou grandes, ostentam vários hospitais, muitas das vezes dedicados a especialidades como a medicina óptica ou o cancro e entre as cidades proliferam os campus universitários, com uma ênfase particular nas ciências exactas. Por outro lado, se viajarmos entre as 8 e as 10 da manhã ou entre as 4 e as 6 da tarde, as ruas estão pejadas de crianças, jovens e adolescentes, todos exibindo imaculadas fardas de múltiplas cores, mas onde o branco prevalece, que se dirigem às suas escolas a pé, de bicicleta, de moto ou de autocarro escolar. Muitos caminham descalços, mas todos parecem experimentar uma genuína satisfação ou alegria por poderem ir para as suas escolas e colégios. Embora a população cristã não seja percentualmente grande, não deixa de ser verdade que possui um peso desproporcionado na condução das matérias escolares e existe uma grandíssima quantidade de escolas que dão pelo nome de São Jorge, São Tomás, Virgem disto, Virgem daquilo, o que dá bem a ideia do papel que os vários núcleos cristãos têm assumido em questões educativas, especialmente no que respeita ao ensino feminino. A avaliar pela alegria das crianças no seu caminho escolar, pode bem ser que a Índia esteja à beira de uma evolução sem paralelo nos seus níveis de escolaridade e que a sua entrada em grande no século XXI esteja à porta. Pela parte que me toca, ainda bem que há quem leve a escola com um sorriso nos lábios, pois, para mim, foi sempre pouco menos do que um suplício e um espaço onde me aborrecia de morte. Se há recordações de infância e de adolescência que me dão calafrios são a ida matinal para a escola e ter aulas de algumas disciplinas (como os trabalhos manuais ou oficinais). Ainda hoje me lembro do suplício das segundas e quintas-feiras, onde tinha de fazer trabalhos em barro ou tecer em fada do lar - yuk. Deve ser daí que vem a minha tendência paraa estudar as formas do nojo. Não havia nada mais repulsivo do que as aulas de Trabalhos Manuais e de desenho que me deixavam fisicamente mais agoniado do que um cruzeiro pelos mares da Tasmânia. Quanto a Chennai e Kolkata, os meus últimos destinos na Índia são duas cidades de grande dimensão, mas totalmente diferentes. Chennai estende-se em torno de uma bela marginal que, nas mãos dos nossos vizinhos espanhóis, se tornaria rapidamente num dos maiores destinos turísticos mundiais (tal é o seu potencial) e possui imponentes edifícios vitorianos, nomeadamente estações de caminho de ferro) que são uma das heranças do Raj. o contrário de Mumbai que tendencialmente encapsula a pobreza e a miséria, Chennai é mais ostentatória e é fácil ver como a pobreza constitui o cenário dominante. Tive muito pouco tempo para me aclimatar à cidade porque a chuva era torrencial e quase não consegui sair do hotel. Quanto a Kolkata, a mais importante cidade de Bengala ocidental, e antiga capital do Raj, é uma cidade que mostra muitas das características de uma cidade destinada a dominar e marcar a sua posição - abundam os edifícios símbolo e marcadores de território que são um modo de ostentação de poder. As marcas da governação do Lorde Curzon são evidentes por todo o lado e não se limitam ao Victoria Memorial. É uma cidade vibrante, plena de comércio e possui o barulho típico da Índia, cruzado com as avenidas largas de cidade meia planeada. É a única cidade indiana que visitei que ainda possui a sua secular linha de eléctricos e os passeios podem ser percorridos a espaços, ao contrário do que acontece na maior parte dos outros lugares e lugarejos indianos, onde são invariavelmente transformados em urinóis públicos. Aliás, em Kolkata são muitos os pay for use toilets, que dão mostra de uma maior preocupação com a transformação do espaço público em esgoto a céu aberto. Despedi-me da Índia com a pena de ter perdido uma semana de viagem, devido ao mau tempo, mas fica prometido um post só com as minhas impressões indianas gerais.

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