Depois do meu condutor de seis dias, o mais simpático e jovial indiano que conheci, me ter feito o tour de Kochi - na verdade dois porque a cidade está dividida entre Ernakulam e Fort Kochi - fiquei ainda mais convencido que Kerala é o Estado mais agradávelda Índia que já visitei. As cidades são mais limpas e harmoniosas que as suas congéneres do norte e as pessoas mais sorridentes e menos pressionantes para turistas. Como é de bom tom fui percorrendo os espaços de influência portuguesa, incluindo um desinteressante forte que passou para os holandeses durante o século XVI e a igreja de São Francisco, local onde Vasco da Gama foi sepultado antes da trasladação para Lisboa. Lá está tudo explicadinho, com referência aos Jerónimos e à Torre de Belém. A igreja estava toda engalanada e decorria um casamento no seu interior. A noiva tinha um ar assustado e o noivo apresentava uma expressão de “tirem-me deste filme”, mas à porta da igreja aguardava-os um resplandecente Hyundai, uma das marcas mais vistas por terras indianas, juntamente com o dominante Tata e com os Suzuki produzidos em colaboração com uma fábrica indiana. Depois das igrejas de Fort Kochi que são mais que muitas ainda tive oportunidade de observar as tradicionais redes de pesca chinesas, manobradas a braços e alavancas e que dão um espectáculo diário a quem passa, dirigi-me a uma língua de areia que recebe o pomposo nome de praia de Fort Kochi. As águas não são muito limpas e, embora a temperatura da água do mar Arábico seja convidativa, não será o lugar mais recomendável para banhos. Depois de um retemperador almoço de camarão tigre, segui para Ernakulam, a zona de Kochi onde se desenvolve o projecto de um novo porto e onde existe uma base naval importante. Também desse lado da cidade se encontra uma bela marginal de 2 km que não é tão impressionante como a de Mumbai, mas é bem organizada. A visita ao mercado permitiu-me confirmar que Kerala voga entre as igrejas cristãs e os cartazes de campanha dos vários partidos comunistas. Desde os idos de 75 que não via tantas imagens dos camaradas Marx e Engels e do inefável pai dos povos - o camarada Staline, de tão boa memória. Os cartazes do PCI são no entanto afogados pelos do sindicato comunista que se encontram literalmente em todo o lado. Na verdade, houve uma altura que para passar o tempo da minha jornada automobilística resolvi organizar uma competição entre bandeiras do sindicato CITU e templos cristãos, mas rapidamente desisti porque o embate já ia com um resultado na ordem das centenas para ambos os competidores. As imagens dos nossos camaradas são vistas em cartazes, desenhos, decalques, demonstrando uma enorme riqueza de semblantes, mas sempre com respeito pelo cânone. Também por aqui existe um PC (ml), mais uma achega para o meu saudosismo, e não é que o líder partidário possui um bigode que lembra muito o grande educador da classe operária e do povo trabalhador em geral, o camarada Arnaldo Matos. Trata-se até de um bigode muito socialista que se afasta do modelo bigode indiano que todo o homem que é homem usa por aqui. Os bigodes indianos, ao contrário dos portugueses, que murcham e definham (como no sketch dos Gato Fedorento) estão vivos, pujantes e recomendam-se. Mesmo os actores de cinema destas paragens não dispensam este apêndice capilar que os mostra mais viris e convincentes. Isto apesar dos homens de Kerala vestirem uma saia tradicional e eu ter alguma desconfiança de homens com saias (já não bastavam os escoceses). Pois bem, as saiais e os bigodes não retiram, no entanto, as preocupações aos indianos que se têm vindo a render a modelos de vestuário íntimo mais moderno e que são anunciados abundantemente nos outdoors que proliferam por todas as estradas do país. A roupa íntima masculina não deixa dúvidas sobre o que pretende - as marcas mais vistas dão pelo nome de “Macho” e “Honk” e existe mesmo outra marca de roupa que não se circunscreve às simples trousses, cuecas ou slips, que se chama Viking. Ora bem, entre machos latinos e loiros escandinavos, lá vão os indianos marcando a sua virilidade que, ao abrir a televisão, se vê profundamente abalada pelas mulheres (o sistema matriarcal é dominante em Kerala) e pelo seu comportamento. Os homens começam sempre por ameaçar ou dar tareias reais, mas acabam sempre a levar que contar. Deve ser por isso que as cuecas têm os nomes que têm e talvez seja essa também a razão para tantos anúncios de rua para clubes de musculação - um homem prevenido com cuecas macho e musculado no ginásio Arnold (Schwarzenneger) está aí para as curvas. O mercado é enorme e pode-se encontrar literalmente um pouco de tudo e a preços que são invariavelmente baixos. Depois de mais uma passeata por lojas e tendinhas, dirigi-me para a praia mais importante da região e que se estende por mais de 10 km. É uma praia magnífica que não fica a dever nada às de Goa, mas que não tem praticamente ninguém e poucas infra estruturas turísticas. Acredito que em meia dúzia de anos o cenário se altere radicalmente e a especulação imobiliária se instale. Fiquei cerca de duas horas sentado na areia e à medida que o sol descia iam chegando famílias indianas para molhar os pezinhos. Alguns homens arriscam o mergulho (com as suas saias brancas vestidas), as mulheres e as raparigas (integralmente vestidas) deixam a água subir até à cintura e os rapazitos lá se banham mais à ocidental. Depois do sol se pôr, é uma corrida para casa e tudo fica deserto. Como era o último dia com o meu condutor e tinha de ficar à espera do comboio para Madurai às 23.30, aceitei de bom grado o seu amável convite para jantar em casa da mãe. Embora um pouco envergonhado pela pobreza da casa, decidiu mostrar-me o sítio onde vivia e que consistia numa pequena cozinha e em duas divisões sem praticamente nenhum móvel. O quarto dele, onde se instalou uma pequena mesa para jantarmos, não teria mais que uns 6 metros quadrados e tinha como recheio um divã. Ao pai, à mãe e ao irmão, juntaram-se vários vizinhos que vieram contribuir para o jantar do convidado estrangeiro e tive o gosto de usufruir da extraordinária amabilidade e hospitalidade daquele grupo de vizinhos. Como o meu condutor não se esqueceu de dizer, em Kerala todos se dão bem, independentemente da religião. Um dos vizinhos, que vive também numa pobre habitação, possui um mestrado em economia, mas não conseguiu emprego compatível e faz agora alguns biscates. A população de Kerala tem as maiores taxas de escolaridade de toda a Índia e é a grande fornecedora de trabalhadores mais ou menos qualificados para os EAU, especialmente para o Dubai. O jantar foi um belo caril de lulas, bem condimentado, e um guisado de borrego extremamente saboroso. Depois de me despedir dos simpáticos vizinhos fui guiado até à estação de Ernakulam, onde me despedi com alguma emoção deste rapaz que conduziu o Tata Indica nos limites do praticável mas que, acima de tudo, se revelou um bom amigo. À despedida, e depois de colocar a minha mala no comboio, ofereceu-me uma estatueta de Lorde Ganesha, o deus de cabeça de elefante, que abençoa os novos empreendimentos, pedindo-me que a colocasse num lugar importante da minha casa. A viagem para Madurai não teve história e desta vez não fui visitado por nenhum amigo roedor e as osgas, que tinham sido companheiras de todos os hotéis da passada semana, também não apareceram, provavelmente por a temperatura ambiente não ser convidativa para seres reptileanos se sangue frio. Quase todos os passageiros iam recorrendo a um cobertorzinho de lã para se abrigarem do ar condicionado que vomitava ar frio. À chegada a Madurai alojei-me num hotel semelhante a todos os outros onde tenho pernoitado e que têm como pior característica as casas de banho, onde o chuveiro não possui compartimento próprio o que causa verdadeiras inundações sempre que acabo as minhas abluções. Mais uma vez, o banhinho foi frio, mas recuperador de energias. A volta por Madurai foi rápida, mas deu para ver duas das mais magníficas obras de toda a Índia - o templo de Minashki Sundareshvara e o Palácio de Thirumalai Nayaka. O primeiro é um complexo de templos dedicados a Shiva e à sua esposa Parvati que em Tamil recebem os nomes de Sundareshvara e Minashki. Os templos originais com 3 mil anos foram sendo rodeados por novas construções, adquirindo a forma contemporânea, ao longo de gerações. A obra teve o seu final no século XVIII e vale a pena uma visita demorada. Algumas das torres portais piramidais elevam-se a mis de 50 m e exibem uma decoração exuberante quer na forma quer nas cores. Quanto ao palácio, embora seja apenas uma parte da construção original do século XVII e resultado das obras de conservação empreendida no século XIX por Lord Napier, possui uma arquitectura belíssima e alberga um interessante espólio arqueológico. Infelizmente, só pude visitar uma parte porque as galerias superiores estavam a ser usadas para filmagens de mais um sucesso da cinematografia indiana. O dia estava chuvoso e tive de percorrer todo o templo como penitente descalço, o que não era grave não fosse o facto de os meus pés branquinhos parecerem os únicos que estavam cobertos pela lama do caminho. Por onde passava, lá vinham uns risitos testemunho do vivo contraste entre a minha pele e a terra molhada. Amanhã, bem cedo, partida para Trichy.
sexta-feira, 6 de novembro de 2009
Entre Machos e Vikings
Depois do meu condutor de seis dias, o mais simpático e jovial indiano que conheci, me ter feito o tour de Kochi - na verdade dois porque a cidade está dividida entre Ernakulam e Fort Kochi - fiquei ainda mais convencido que Kerala é o Estado mais agradávelda Índia que já visitei. As cidades são mais limpas e harmoniosas que as suas congéneres do norte e as pessoas mais sorridentes e menos pressionantes para turistas. Como é de bom tom fui percorrendo os espaços de influência portuguesa, incluindo um desinteressante forte que passou para os holandeses durante o século XVI e a igreja de São Francisco, local onde Vasco da Gama foi sepultado antes da trasladação para Lisboa. Lá está tudo explicadinho, com referência aos Jerónimos e à Torre de Belém. A igreja estava toda engalanada e decorria um casamento no seu interior. A noiva tinha um ar assustado e o noivo apresentava uma expressão de “tirem-me deste filme”, mas à porta da igreja aguardava-os um resplandecente Hyundai, uma das marcas mais vistas por terras indianas, juntamente com o dominante Tata e com os Suzuki produzidos em colaboração com uma fábrica indiana. Depois das igrejas de Fort Kochi que são mais que muitas ainda tive oportunidade de observar as tradicionais redes de pesca chinesas, manobradas a braços e alavancas e que dão um espectáculo diário a quem passa, dirigi-me a uma língua de areia que recebe o pomposo nome de praia de Fort Kochi. As águas não são muito limpas e, embora a temperatura da água do mar Arábico seja convidativa, não será o lugar mais recomendável para banhos. Depois de um retemperador almoço de camarão tigre, segui para Ernakulam, a zona de Kochi onde se desenvolve o projecto de um novo porto e onde existe uma base naval importante. Também desse lado da cidade se encontra uma bela marginal de 2 km que não é tão impressionante como a de Mumbai, mas é bem organizada. A visita ao mercado permitiu-me confirmar que Kerala voga entre as igrejas cristãs e os cartazes de campanha dos vários partidos comunistas. Desde os idos de 75 que não via tantas imagens dos camaradas Marx e Engels e do inefável pai dos povos - o camarada Staline, de tão boa memória. Os cartazes do PCI são no entanto afogados pelos do sindicato comunista que se encontram literalmente em todo o lado. Na verdade, houve uma altura que para passar o tempo da minha jornada automobilística resolvi organizar uma competição entre bandeiras do sindicato CITU e templos cristãos, mas rapidamente desisti porque o embate já ia com um resultado na ordem das centenas para ambos os competidores. As imagens dos nossos camaradas são vistas em cartazes, desenhos, decalques, demonstrando uma enorme riqueza de semblantes, mas sempre com respeito pelo cânone. Também por aqui existe um PC (ml), mais uma achega para o meu saudosismo, e não é que o líder partidário possui um bigode que lembra muito o grande educador da classe operária e do povo trabalhador em geral, o camarada Arnaldo Matos. Trata-se até de um bigode muito socialista que se afasta do modelo bigode indiano que todo o homem que é homem usa por aqui. Os bigodes indianos, ao contrário dos portugueses, que murcham e definham (como no sketch dos Gato Fedorento) estão vivos, pujantes e recomendam-se. Mesmo os actores de cinema destas paragens não dispensam este apêndice capilar que os mostra mais viris e convincentes. Isto apesar dos homens de Kerala vestirem uma saia tradicional e eu ter alguma desconfiança de homens com saias (já não bastavam os escoceses). Pois bem, as saiais e os bigodes não retiram, no entanto, as preocupações aos indianos que se têm vindo a render a modelos de vestuário íntimo mais moderno e que são anunciados abundantemente nos outdoors que proliferam por todas as estradas do país. A roupa íntima masculina não deixa dúvidas sobre o que pretende - as marcas mais vistas dão pelo nome de “Macho” e “Honk” e existe mesmo outra marca de roupa que não se circunscreve às simples trousses, cuecas ou slips, que se chama Viking. Ora bem, entre machos latinos e loiros escandinavos, lá vão os indianos marcando a sua virilidade que, ao abrir a televisão, se vê profundamente abalada pelas mulheres (o sistema matriarcal é dominante em Kerala) e pelo seu comportamento. Os homens começam sempre por ameaçar ou dar tareias reais, mas acabam sempre a levar que contar. Deve ser por isso que as cuecas têm os nomes que têm e talvez seja essa também a razão para tantos anúncios de rua para clubes de musculação - um homem prevenido com cuecas macho e musculado no ginásio Arnold (Schwarzenneger) está aí para as curvas. O mercado é enorme e pode-se encontrar literalmente um pouco de tudo e a preços que são invariavelmente baixos. Depois de mais uma passeata por lojas e tendinhas, dirigi-me para a praia mais importante da região e que se estende por mais de 10 km. É uma praia magnífica que não fica a dever nada às de Goa, mas que não tem praticamente ninguém e poucas infra estruturas turísticas. Acredito que em meia dúzia de anos o cenário se altere radicalmente e a especulação imobiliária se instale. Fiquei cerca de duas horas sentado na areia e à medida que o sol descia iam chegando famílias indianas para molhar os pezinhos. Alguns homens arriscam o mergulho (com as suas saias brancas vestidas), as mulheres e as raparigas (integralmente vestidas) deixam a água subir até à cintura e os rapazitos lá se banham mais à ocidental. Depois do sol se pôr, é uma corrida para casa e tudo fica deserto. Como era o último dia com o meu condutor e tinha de ficar à espera do comboio para Madurai às 23.30, aceitei de bom grado o seu amável convite para jantar em casa da mãe. Embora um pouco envergonhado pela pobreza da casa, decidiu mostrar-me o sítio onde vivia e que consistia numa pequena cozinha e em duas divisões sem praticamente nenhum móvel. O quarto dele, onde se instalou uma pequena mesa para jantarmos, não teria mais que uns 6 metros quadrados e tinha como recheio um divã. Ao pai, à mãe e ao irmão, juntaram-se vários vizinhos que vieram contribuir para o jantar do convidado estrangeiro e tive o gosto de usufruir da extraordinária amabilidade e hospitalidade daquele grupo de vizinhos. Como o meu condutor não se esqueceu de dizer, em Kerala todos se dão bem, independentemente da religião. Um dos vizinhos, que vive também numa pobre habitação, possui um mestrado em economia, mas não conseguiu emprego compatível e faz agora alguns biscates. A população de Kerala tem as maiores taxas de escolaridade de toda a Índia e é a grande fornecedora de trabalhadores mais ou menos qualificados para os EAU, especialmente para o Dubai. O jantar foi um belo caril de lulas, bem condimentado, e um guisado de borrego extremamente saboroso. Depois de me despedir dos simpáticos vizinhos fui guiado até à estação de Ernakulam, onde me despedi com alguma emoção deste rapaz que conduziu o Tata Indica nos limites do praticável mas que, acima de tudo, se revelou um bom amigo. À despedida, e depois de colocar a minha mala no comboio, ofereceu-me uma estatueta de Lorde Ganesha, o deus de cabeça de elefante, que abençoa os novos empreendimentos, pedindo-me que a colocasse num lugar importante da minha casa. A viagem para Madurai não teve história e desta vez não fui visitado por nenhum amigo roedor e as osgas, que tinham sido companheiras de todos os hotéis da passada semana, também não apareceram, provavelmente por a temperatura ambiente não ser convidativa para seres reptileanos se sangue frio. Quase todos os passageiros iam recorrendo a um cobertorzinho de lã para se abrigarem do ar condicionado que vomitava ar frio. À chegada a Madurai alojei-me num hotel semelhante a todos os outros onde tenho pernoitado e que têm como pior característica as casas de banho, onde o chuveiro não possui compartimento próprio o que causa verdadeiras inundações sempre que acabo as minhas abluções. Mais uma vez, o banhinho foi frio, mas recuperador de energias. A volta por Madurai foi rápida, mas deu para ver duas das mais magníficas obras de toda a Índia - o templo de Minashki Sundareshvara e o Palácio de Thirumalai Nayaka. O primeiro é um complexo de templos dedicados a Shiva e à sua esposa Parvati que em Tamil recebem os nomes de Sundareshvara e Minashki. Os templos originais com 3 mil anos foram sendo rodeados por novas construções, adquirindo a forma contemporânea, ao longo de gerações. A obra teve o seu final no século XVIII e vale a pena uma visita demorada. Algumas das torres portais piramidais elevam-se a mis de 50 m e exibem uma decoração exuberante quer na forma quer nas cores. Quanto ao palácio, embora seja apenas uma parte da construção original do século XVII e resultado das obras de conservação empreendida no século XIX por Lord Napier, possui uma arquitectura belíssima e alberga um interessante espólio arqueológico. Infelizmente, só pude visitar uma parte porque as galerias superiores estavam a ser usadas para filmagens de mais um sucesso da cinematografia indiana. O dia estava chuvoso e tive de percorrer todo o templo como penitente descalço, o que não era grave não fosse o facto de os meus pés branquinhos parecerem os únicos que estavam cobertos pela lama do caminho. Por onde passava, lá vinham uns risitos testemunho do vivo contraste entre a minha pele e a terra molhada. Amanhã, bem cedo, partida para Trichy.
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