Este e o meu ultimo dia em Varanasi. O pequeno-almoco prolongou-se por quase quarenta minutos porque o servico e incrivelmente lento. Sai do hotel, mais tarde do que desejava, e parti para me perder nas ruas. O cheiro das manhas indianas e invariavelmente a queimado e a cinza. Nao e dificil ver aqui e ali, alguem a queimar parte do lixo da vespera que se acumulou nas bermas. Outros varrem melhor ou pior, os dejectos acumulados, enquanto as vacas fazem o seu trabalho e procuram algum resto de comida que tenha ficado esquecido. Na ausencia quase total de porcos, as vacas fazem o seu papel, comendo um pouco de tudo. Como nao sao animal comestivel, mas sagrado, ninguem se importara muito com os efeitos do seu regime dietetico na qualidade da carne. Ja eu, pela minha parte, dava tudo por um bom bifinho do lombo e os hindus que me perdoem, mas nao posso deixar de olhar para estas pachorrentas criaturas que passam por mim ou que se deitam no caminho, sem um salivar pavloviano. Por causa das vacas e dos porcos ate ja fui a um McDonalds aqui em Varanasi. Para os que nao sabem, esta e a minha segunda entrada num McDonalds e a primeira que se produz voluntariamente. A primeira em Moscovo, a segunda na India. Nao deixa de ser curioso que nunca tenha entrado numa loja do Ronald nem nos States nem em Portugal. Logo a entrada da loja existe uma seguranca reforcada porque o restaurante esta dentro de um centro comercial e o governo teme atentados. De qualquer forma, a revista que passam aos clientes e muito ndiaa, ou seja, pouco ou nada se controla e ate uma metralhadora pequena entrava. O centro comercial e uma atraccao local, mas nao tem mais do que uma duzia de lojas e um food court com quatro restaurantes. As vedetas sao as salas de cinema, onde se estreavam varias producoes de bollywood, e o McDonalds. Na entrada do restaurante, e para que nao restem duvidas, anuncia-se que nao ha nada feito com carne de vaca ou de porco e seus derivados. Perante esta situacao la tive de me contentar com um McChiken acompanhado pelas proverbiais fries e pela nao menos tipica Coke. Coke que, como muitos devem saber, esteve proibida no mercado indiano ate ha poucos anos, deixando o terreno livre para a Pepsi. Aparentemente, a proibicao devia-se recusa de divulgacao da formula secreta da empresa de Atlanta. Ja aqui na India contaram-me uma historia interessante que se tera passado ha pouco anos, aquando da visita de Clinton a India. Acompanhado da sua pequena Chelsea, Clinton tera ficado impressionado com a ecnica de construcao do Taj Mahal e ainda mais com a qualidade das juncoes das pedras marmoreas. Quando lhe disseram que as juntas estavam unidas com uma cola secreta que era super resistente e cuja formula era guardada religiosamente pelos descendentes dos operarios que construiram o mausoleu (os tais 2200 que vos falei anteriormente). Clinton quis visitar alguns desses fieis depositarios do segredo para que eles acedessem a revela-lo. Disse que era presidente dos EUA e eles nao se demoveram, que era o homem que nao tinha tido sexo com a Monica Lewinsky, mas eles nao cederam. Finalmente, um dos defensores do sacrossanto segredo acabou por propor uma troca - o segredo da cola pelo segredo da Coca Cola. Clinton teve de ceder, reconhecendo que nao possuia o segredo da agua suja do capitalismo e voltou a casa de maos a abanar. A troca parecia-me justa - a cola de um mausoleu pela cola da sociedade ocidental. O suporte de uma pedra pelo suporte de um mundo. Foi pena que a troca nao se tivesse produzido - haveria mais clones da Coca Cola e a arquitectura americana inauguraria certamente um novo estilo. Mas ja que falamos de um dos icones modernos de homenagem ao deus priapo - falo do Clinton obviamente - e assinalavel que na minha digressao pelos EAU e pela India me tenha apercebido ate que ponto duas culturas que cantaram e glorificaram o erotismo em seculos passados se tornaram surpreendente pudicas em tempos recentes. Na verdade, os descendentes da cultura que produziu o Kama Sutra (que ja me foi oferecido por varios vendedores que se agrupam a entrada de templos e museus, quer em versao iluminura quer em versao fotonovela, com actores indianos ginasticados e flexiveis, mas tambem com um pouquinho de peso a mais) ou as esculturas de Khajurao, tornaram-se muito avessos as coisas do sexo. Os filmes indianos sao de uma pureza cristalina, os casais em publico nao expressam afecto, os casaizinhos de namorados escondem-se num parque u num jardim e encostam delicadamente a cabeca um no outro, com um sorriso envergonhado. As mostras publicas do que se passa nos bastidores reduzem-se as campanhas de vendas de preservativos e a sua presenca em carrinhos de vendedores ambulantes. Tirando isso, parece ate milagre como ha 1000 milhoes de indianos pelas ruas. A sociedade indiana e uma sociedade vibrante de cores e sons, mas tambem de cheiros e paladares. E de longe a sociedade mais sensorial que ja conheci. Tudo aqui faz apelo ao jogo dos sentidos, ao respirar da cultura local. Muitos dos sons sao as desagradaveis buzinas que se ouvem 24/24 horas, muitos dos cheiros sao atrozes, muitos dos paladares sao agressivos, mas percebe-se que existe uma enorme riqueza e uma fantastica vibracao neste mundo, onde vida e morte convivem harmoniosamente. Ainda onte, no meio do transito caotico, desfilavam vacas e bois e um funeral de uma velhota percorria a cidade em direccao a um dos Ghats a sul onde se procederia a sua cremacao. O som dos canticos da corte que a companhava a falecida eram interrompidos por buzinas e sons de rua porque a vida prossegue ao seu ritmo normal. As cidades indianas sao cidades que nao dormem, existindo sempre movimento e energia no ar. Sao cidades que vivem sobre a memoria de um passado glorioso e que ambicionam conquistar um futuro que sera dificil. Percorrendo a India, temos a sensacao que mesmo os predios recem construidos ja sao velhos e decadentes. Nada aqui surge com a marca ou o cheiro da juventude. A patina impoe-se mesmo no feito ontem. Mas talvez sejam os cheiros os elementos mais evocativos e mais recuperadores de memorias perdidas. Chegado a India imediatamente recuperei memoria da minha infancia quando observava a ferragem de cavalos e o cheiro caracteristico dos cascos queimados ao serem ferrados. Mais de 30 anos em me lembrar bem desses acontecimentos e um simples cheiro foi suficiente para despertar as memorias. Do mesmo modo que as manhas sao de cinza, as noites sao de polvora, com as explosoes sucessivas de foguetes no ar. Ao contrario da pirotecnia japonesa que vive dos efeitos e das cores desenhadas no ar, fazendo alias jus ao nome do fogo de artificio na lingua niponica - Hana bi ou, literalmente, flores de fogo - a foguetaria indiana e mais ligada a explosao do que ao efeito, ao ruido celebratorio do que a delicadeza dos padroes e dos jogos de luz. Vendo e ouvindo os foguetes na India, na semana do Dhivalli, tambem recuperei outro cheiro de infancia, este ainda mais distante do que o dos cascos dos cavalos no ferrador. Ao passar por um dos locais de lancamento, o cheiro da polvora trouxe-me as memorias dos tiros das pistolas de "fluminantes", como lhes chamavamos na altura, e que resultavam de uma fitinha de pequenos explosivos enrolada dentro da pistola de brincar e que cada tiro fazia avancar com uma pequena explosao. As memorias tambem podem ser evocadas com comida, como me aconteceu ha tres dias quando me serviram Kir, algo que se parece muito com um arroz doce mais liquido, mas com um gosto nao muito diferente do nosso doce. La expliquei ao empregado que me afiancava que nunca tinha provado nada igual, que la pelas minhas bandas tambem se comia algo parecido. Quis saber o nome, como se escrevia e como se fazia. Respondi as duas primeiras, mas deixei a ultima sem resposta - nao e so a Coca Cola que tem os seus segredos. Muitos dos empregados indianos gostam de receer bem e sao hospitaleiros, chegando mesmo ao ponto do ridiculo. Numa das muitas lojas onde entrei, o dono queria tanto vender-me algo que afiancava que um jovem como eu, que nao poderia ter mais de 30 anos, deveria comprar umas certas pecas de ourivesaria para preparar um iminente casamento. la lhe disse que nem 30, nem casamento, ao que ele respondeu que eu estava muito bem conservado. Como troca de elogios e perante a sua insistencia para que eu calculasse tambem a sua idade, avancei com uns mais que elogiosos 50, para quem parecia ter 60 e muitos. Ainda bem que fui lisonjeiro, o homem tinha 53!!! Sorridente, confessou o seu segredo - nao trabalho muito e descanso o mais que psso. Olhando para museus e palacios, templos e fortes ha que reconhecer que os arquitectos de outros tempos desenhavam edificios adaptados ao ambiente, com habeis sistemas de circulacao de ar, respiradouros estrategicamente colocados, orientacao sabia de edificios, uso de agua em circulacao, etc e que fazem inveja as nossas construcoes que sao sorvedouros de energia. E se nos deslumbramos com a beleza do construido, nao esquecems o que poderia ainda ter sido edificado. E disso um bom exemplo, a construcao de um segundo Taj Mahal, em negro e na margem oposta do rio. Este plano desenvolvido pelo proprio construtor do Taj Mahal para albergar o seu corpo so foi parado porque o seu filho nao achou a ideia interessante para o depauperado cofre do Estado e prendeu o pai, executou os irmaos e subiu ao trono para por termo a tanto despesismo. Imagine-se o que teriam sido dois Taj Mahal. Encerro a minha cronica de hoje com uma das mais sabias construcoes dos soberanos Indianos de XVI e XVII - quartos limitados a sua figura e onde nem mulheres nem concubinas entravam. Chamavam-se esses quartos, quartos dos sonhos. Neles, o imperador pensava, dormia e logoa que entrava em REM passava a sonhar. E nao e o sonho o mais agradavel momento, mais puro deleite da imaginacao, onde os prazeres odem correr. Ah, que grande inveja do velho Akbar e dos seus sucessores - um quarto de sonhos.
terça-feira, 20 de outubro de 2009
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O céu deve ser mesmo um quarto de sonhos...que maravilhosa ideia!
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