Definitivamente esta não é uma cidade de peões e para peões. Quem gosta de andar a pé, desimagine-se. O calor é muito, os passeios são pequenas intermitências no mei0 do alcatrão e ainda que seja verdade que alguns viadutos têm espaços (mínimos) para andar, rapidamente percebemos que não vão dar a lado nenhum. Assim, ver o Bhurj al Arab a uma pequena distância até dá a ideia de podermos chegar lá em menos de nada, mas… Pois é, tudo está feito para o reino imperial do automóvel. A gasolina é barata e os carros podem ser o mais devoradores de combustível que ninguém se importa muito. Abundam os Lamborghini Murciélago, os Ferraris de vários modelos e assim por diante. A manhã foi literalmente gasta a visitar o Mall of the Emirates. Só se conhece verdadeiramente a alma de uma cidade quando se visita um templo do consumo. Pois bem, este que é um dos muitos malls do Dubai é igual a tantos outros à volta do mundo, ainda que ofereça um twist. Poderia ser o Mall of America, mas têm as suas orações às oras requeridas pela tradição islâmica e, aparentemente, está preparado para que, em alturas do Ramadão, o food court seja menos conspícuo e barulhento do que é habitual. Depois, bem, depois há as regras de decoro publicitadas nos écrans do centro, anunciando os conselhos de modéstia que convém preservar - avisam-se os clientes que não devem mostrar nem ombros nem joelhos. Surpreendentemente, os cotovelos não fazem parte do decoro, o que me deu algum jeito, já que trajava uma ostensiva t shirt sem os ditos tapados. Mas os cotovelos são articulações tão semelhantes aos joelhos que me faz um pouco impressão não serem tapados. Já os pés não sofrem qualquer tipo de interdição ou recomendação. Acho mal! Por mim, andariam sempre tapados e escondidos, em todas as ocasiões. Dei por mim, a pensar nisso mesmo quando almoçava no restaurante Al Hallab, um ruidoso espaço igual a todos os restaurantes de centros comerciais, mas que tinha a simpática característica de oferecer uma garrafa de Evian de um litro aos seus clientes. Olhando à volta, tive a oportunidade de catalogar os pés, por tamanhos, formas, joanetes, grau de limpeza, perfil de meia lua dos dedos, ou dedos todos do mesmo tamanho ou o dedo grande maior do que todos os outros e dado o carácter inestético de todos, optei pela generalização de uma interdição de os mostrar em público. Isso sim seria decoro. Além do mais, os corifeus das várias religiões deviam levar em linha de conta que não há fetichistas de joelhos ou ombros, mas de pés, oh senhores, que os há, há. Não que eu os perceba ou entenda, mas que abundam, isso é inegável. Além do mais, tenho sempre dificuldades em imaginar um criador demiúrgico capaz de criar seres humanos com belas mãos e com pés tão feios. Se os homens são o topo da criação, o criador estava num momento pouco inspirado quando produziu estes apêndices. E nem é que não fosse capaz de fazer melhor obra. Atente-se na elegância das patas posteriores dos felinos. Convenhamos que é um bom trabalho e o artista estava ao seu melhor. Olhemos para os cascos dos cavalos e perceberemos um bom desenho, eficiente e produtivo, mas os pés humanos senhor, até me levam a crer na inexistência de Deus. Bom, deixemos os pés e passemos aos cabelos - loiros. As russas estão por todo o lado e o russo fala-se por aqui e por ali. De tal forma esta presença é assinalável que existe mesmo uma praia do Dubai que é depreciativamente conhecida por Moscow Beach, tal a proliferação dos concidadãos de Putin. Quase todas elas aparecem de cabelos ao vento, ou melhor, ao ar condicionado do Centro Comercial, a menos que se divirtam na famosa pista de ski que o Emirates oferece. Neve indoor é uma experiência única, especialmente com 37 graus no exterior, mas a criançada divertia-se na neve artificial e os mais destemido desciam o íngreme declive à velocidade permitida pelos escassos 25 ou 30 metros da pista. Se os cabelos das russas, das filipinas e de algumas indianas andam soltos e visíveis, já os das locais andam tapados, ainda que em graus diversos, oscilando do total encobrimento, até uma pequena madeixa, estrategicamente colocada à vista pelo recuar do lenço (gesto que se repete amiúde com estilo e graça). Curiosamente, os poucos cabelos soltos que se vêem são de cores bizarras para as locais - como o ruivo. Já os véus acompanham provavelmente as modas locais e oscilam entre o encobrimento total do rosto, encobrimento do rostos com nesga para os olhos e assim por diante, num caminho de revelação parcial. Para as feministas mais empedernidas, resta-me dizer que os elementos masculinos não se tapam menos do pescoço para baixo, embora se vistam de branco e não de negro. Se durante o dia, a presença de locais é escassa, o que corresponde ao facto de serem apenas 20% dos habitantes da cidade, já à noite, invadem os centros comerciais e pode-se observar grupos de viúvas negras de maquilhagem cuidada a dirigirem-se ao cinema, umas vezes escoltadas, mas mais frequentemente em barulhentos grupos. Há no Dubai qualquer coisa de Singapura - a raridade inesperada de insectos, o tom kitsch do seu ambiente, a atmosfera carregada mas sanitariamente controlada. Claro que é uma Singapura que substitui a chuva diária por orações e apelos à mesma e sem cerveja. Sem cerveja e sem porcos, como é óbvio. O pequenos almoço de hoje, deixou-me logo perplexo - tudo parecia exactamente igual a um hotel ocidental. Bem, quase igual. Na verdade, as salsichas eram de frango e pasmem o bacon era de carne de vaca!!! Nada que pudesse dissuadir um “promeneur solitaire” à procura de reforços calóricos, depois de uma noite sem jantar na véspera. Os Dubaianos jantam tarde, mas às duas da manhã era um pouco difícil comer. Os expatriados dominam a cena da vida do Dubai e às sextas de manhã (estamos num país sunita) os locais quase não são vistos em público. Com uma tão baixa percentagem de locais, o Dubai deve ser a cidade mais extraordinariamente cosmopolita do mundo e, por isso, mesmo todos aqui se devem sentir estrangeiros. A livraria Border’s é quase igual às livrarias Border’s dos Estados Unidos, apresentando apenas umas prateleiras com livros em Árabe, habilmente catalogados como “Local Interest”. Aliás a presença americana é avassaladora do ponto de vista cultural, só acompanhada pelos filmes de Bollywood e pelos canais egípcios de televisão. O Egipto é um pouco o Brasil do mundo Árabe - a pronúncia e o árabe egípcio são ouvidos por todo o mundo árabe, graças às telenovelas. Estamos perto da capital dos Emiratos e, por isso, a publicidade ao Grande Prémio de F1 do Abu Dhabi é presença dominante na publicidade. O Mall oferece mesmo a hipótese de andar num F1 de dois lugares a quem ganhar um concurso. Da parte da tarde, resolvi fazer um percurso que, num mapa sem escala me parecia não muito longo. Erro terrível e de consequências perniciosas. Os cerca de 2ou 3 km do meu imaginário resvalaram para o triplo ou quádruplo o que, sob o calor inclemente do início de tarde, rapidamente resvalaram para suplício. Julgava eu que haveria uma pela promenade junto ao mar que permitisse fazer o percurso contemplando o azulinho reconfortante das águas do Jebel Ali e de Jumeirah, mas não. A linha de costa é ocupada por uma série de hotéis com praias privativas e este pobre peão foi atirado para um passeio entrecortado, com estradas invasoras e carros a toda a brida, imaginando se haveria algum que se desviasse uns centímetros a mais e colhesse o pobre transeunte ignorante dos hábitos locais. O que me valeu foram as paragens de autocarro (sim, existem alguns autocarros usados pelos expatriados mais pobres) com fortíssimo ar condicionado que lá me foram permitindo, descer dos 37 exteriores para ums gradáveis 19 interiores. As poucas praias que são públicas têm na generalidade ocidentais que se banham e locais que miram, riem e discutem em pequenos grupos. As praias estão longe de ser interessantes e até agora monumentos só ao consumo. Amanhã conto dar uma volta pelos Emiratos mais a norte e logo veremos se trago alguma boa história.
sexta-feira, 9 de outubro de 2009
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