sábado, 17 de outubro de 2009

Um amor imenso




Agra e uma cidade comum, mas oferece do mais belo que ja vi na India. O Taj Mahal e, de facto, um exercicio soberbo de arquitectura, de equilibrio, de simetria, de localizacao, de vistas e exibe uma leveza raramente encontrada em edificios deste tipo. E e tambem um mausoleu dedicado a um grande amor, um amor daqueles que raramente se encontra na vida real, sobretudo por transcender a vida dos proprios amantes. Nao o procurei, nao o planeei, mas foi uma coincidencia feliz que a minha visita ao Taj Mahal tenha ocorrido exactamente um ano, ao dia, apos a morte do meu pai. Hoje, mais do que em qualquer dia deste ultimo ano lembrei-o e sobretudo imaginei o quanto ele gostaria de ter feito esta viagem. Nao acredito que a India fosse o seu destino de eleicao, mas teria certamente apreciado a viagem, ele que tinha o bichinho do viajante, embora nunca tenha conseguido concretizar essa parte dos seus sonhos. Como muitos pais, sublimou os seus desejos e viveu-os muito pelos actos dos filhos a quem sempre se dedicou e por quem, em parte, abdicou de algo que gostaria de ter feito. Tenho a certeza que teria ficado deliciado por poder dizer que o seu rapaz estava a fazer uma volta ao mundo (ou quase) e iria proclamar jusnto dos amigos que ele tem um blog onde regista as suas desventuras no velho sub continente. Quase consigo imagina-lo ao telefone, a falar comigo e a perguntar "Entao filho, esta tudo a correr bem?" e depois eu dizer-lhe qualquer coisa sobre o nosso Sporting e ele responder qualquer coisa de diferente porque nunca conseguia ouvir e passarlogo o telefone a minha mae. Mas a visita ao Taj Mahal tambem e significativa por ser um mausoleu ao amor e, embora seja suspeito e nao isento, nunca encontrei nenhum homem que amasse tanto a companheira de uma vida como o meu pai. Ao longo dos mais de 50 anos que viveram em conjunto, sempre olhou para ela como se fosse a menina que tinha comecado a namorar ha mais de meio seculo. Ja perto da morte, continuava tao apaixonado como no inicio. Para mim, que sou cinico e ceptico como o meu pai nunca foi, que nunca amei, como o meu pai amou, so posso prestar-lhe a homenagem devida a um homem que nao so era bom, mas a quem devo algumas das melhores coisas que tive na vida, nomeadamente a minha paixao por saber e o gosto pelos livros. Tenho pena que nao possa ter concretizado muitos dos seus sonhos ou tenha decidido nao os viver, por achar que assim proporcionava uma melhor vida aos dois filhos. Tenho pena que tenha morrido sem que pudesse ter visto um neto. Tenho pena que nao possa ter tido um ano mais que desejava, ele que amava a vida como eu nunca amei nem amarei. Mas tenho a certeza que, apesar de sentir o fim aproximar-se e ter a nocao da morte, tenha sido feliz e realizado. Nesse sentido, nao posso deixar de exprimir uma pontinha de inveja por um homem que teve o que nunca tive nem terei, mas a quem presto aqui a minha homenagem. Agra e, pois, uma cidade entre o vermelho e o branco marmoreo fo Taj Mahal - um branco que muda de tonalidade consoante a luz do sol ou da lua e dos reflexos do ceu, mais claro ou mais plumbeo. O guia foi o melhor que ate aqui encontrei e foi um bom cicerone quer no Taj Mahal quer no forte de Agra, sempre com descricoes cuidadas e com palavras acertadas. Ao contrario de muitos guias, respondia as perguntas que lhe fazia, sem repetir o que ja tinha dito. Foi uma jornada interessante e provou que se pode sempre aprender. Por outro lado, la me encaminhou na direccao de um fotografo que me propos tirar 36 fotografias deste figurao em pose junto ao Taj Mahal. Disse-lhe que nao que nao apreciava propriamente o modelo e que so a minha mae olharia para a fotografia de um modelo tao fraco. Ele insistiu, e la reduziu o numero para o minimo possivel - 15 - e que ainda me dava uma de brinde. Assim, la fiquei com 16 belas fotografias do Taj Mahal, manchadas pelo meu sorriso amarelo e as minhas poses ridiculas. Ate fiquei com uma foto, de braco levantado como se estivesse a agarrar o ponto mais alto do mausoleu. depois de ver o resultado, so nao me escondi atras de uma arvore porque nao havia nenhuma e a paisagem era arida. Bom, la ficara a minha mae com umas 15 fotografias, dou outra a minha irma, que por amor fraternal, nao dira que nao, e procurarei esquecer este momento que fica registado nos anais como mais uma vergonha pela qual um homem as vezes passa. Como hoje e o Dhivalli, o tal festival que tem consumido as energias indianas dos ultimos dias, nao irei a um espectaculo para o qual tinha uma pre-reserva. Como ja fiz o check-out do hotel, terei de andar ai de um lado para outro, a fazer horas para apanhar o meu comboio nocturno para Varanasi, o que devera ser uma experiencia inesquecivel, especialmente para mim, que sou tao esquisito com o dormir e vou viajar acompanhado de mais tres cromos, dos quais nao sei nada. Ja tive hoje a minha dose de visitas a lojas que fazem parte de todos os programas turisticos, onde me tentaram impingir desde mesas de marmore, feitas pelos descendentes daqueles que construiram o Taj Mahal (parece haver ai uns 2200), mas que vivem bem pior que os seus antepassados que, segundo rezam as cronicas ganhavam qualquer coisa como 10000 USD contemporaneos. O guia garatiu-me que os imperadores mughal eram empregadores de categoria e que nao recorriam nunca a trabalho escravo para estas obras importantes, recrutando por todo o mundo e importando os melhores produtos, como era o caso, dos vidros belgas. Os Mughal eram de facto extremamente tolerantes e produziram uma resplandecente fusao de estilos e de culturas que constitui testemunho de uma riqueza que a India nao mais atingiu. Finalizo esta cronica de hoje, com muito calor, completamente suado, imaginando o que vai ser a experiencia do comboi, sem sequer poder passar-me por agua!!! Esta e para duas leitoras especiais! Varanasi, antiga Benares, a cidade mais santa dos hindus, a cidade dos gat e do Ganges sera o proximo destino.

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