Ver Delhi num dia é obviamente uma tarefa impossível. Mas um dia era o que tinha destinado para a capital e assim ficou. Assim que saí do hotel, o cenário dos pedintes a atravessarem-se à frente dos carros manteve-se e, acho que pela primeira vez em muito tempo, tive um assomo de sentimento paternal. Uma miudinha de 4 ou 5 anos, mais nua que vestida e pouco mais que pele e osso fazia flic flacs na estrada, à espera que o espectáculo (perigoso) lhe pudesse render umas míseras rupias. A criança tinha um daqueles sorrisos desarmantes , com os dentinhos muito certinhos e brancos a despontarem por debaixo de uma camada de sujidade que nem sequer permitia perceber qual a tez original da pele. O cabelo roçava o bronze, num misto de coloração solar e patina imposta pelo tempo sem ser lavado. Tive um daqueles ataques de pena que me chegam de 10 em 10 anos, de que não gosto nada e nos deixam um amargo de boca e confesso que tive vontade de pegar na miúda e trazê-la comigo. Eu que nunca pensei em adoptar ninguém, fiquei preso aos olhos negros e brilhantes da pequena de Delhi. Claro que não posso ignorar que o sentimento teve o seu correlato lógico na beleza da criança e, não há que mentir, não sentiria o mesmo ataque de piedade, se ela fosse feia e antipática. Como o trânsito não tem contemplações, rapidamente a perdi de vista e o ataque de piedade ficou por aqui e ainda bem porque corria o risco de não deixar de experimentar estas emoções, pelo menos em Delhi. A manhã foi despendida entre os monumentos e memoriais mais significativos da capital, com a passagem obrigatória pelo local onde Gandhi foi assassinado em 1948 e pelo parque em sua memória e ainda pela maior mesquita da Índia e pelo túmulo do segundo imperador mogol, trabalho precursor do Taj Mahal, com a diferença que este foi mandado erguer por uma viúva e o outro por um viúvo. Ambos são, no entanto, monumentos ao amor eterno e irrepetível. Entre visitas, e como não podia deixar de ser, fiz o meu baptismo de riquexó a pedais, com um indiano que pesava para aí uns 50 quilos a dar mostras de uma força que eu com quase o dobro do peso não consigo sequer imaginar. Condutor (ciclista) e conduzido (sentado) têm de dar alguma prova de coragem, dadas as tangentes (às vezes são mesmo secantes) que carros e motas passam aos milhares destes veículos em circulação. As bicicletas transportam tudo - por mim passaram ciclistas com 5 (sim, cinco) garrafas de gás de tamanho igual às portuguesas e sem serem peso pluma (os transportadores também não se parecem com a miúda da bilha da Galp), com sofás cama (!!), com electrodomésticos vários, computadores empilhados, com roupa de lavandaria, com papel e cartão (com uma altura de dois metros) e com gelo. O ciclista do gelo transporta-o embrulhado numa serapilheira inenarrável e parte-o com um picador em porções que vai distribuindo por vendedores de refrigerantes da mesma zona. A avaliar pela cor do gelo, percebe-se o porquê da recomendação de nunca aceitar gelo nas nossas bebidas. Depois de o ver partido, acreditem que estou sensível à ideia de beber tudo morninho. Os preços de entrada nos monumentos e parques variam com a origem do veraneante. Assim, o preço mais comum para indianos é de 10 rupias (cerca de 16 cêntimos) e, para estrangeiros é de 250 (cerca de 4 euros). A única benesse concedida aos forasteiros é que têm uma bicha só para si, enquanto os indianos esperam tempo sem fim para comprar as entradas. A manhã foi passada numa sucessão de calçar e descalçar à entrada de mesquitas e memoriais. Lá andei de piuguinha, armado em pipi, enquanto os indianos e a maior parte dos turistas iam descalços. Digo maioria porque alguns adquiriam uns panos que se colocam à volta dos pés para evitar a sujidade e as pedrinhas que se prendem aos pés. Muitos templos avisam - pode deixar os seus sapatos deste lado, por sua conta e risco, mas se os deixar aqui, tomamos conta deles (por 10 a 15 rupias). É verdade que não guardam nada, mas sempre se evita ficar à procura dos nossos entre umas centenas de pares. A comida indiana, ao contrário da chinesa, não tem uma diferença profunda entre o que é comido internamente e o que se vende nos restaurantes de suposta comida étnica. Os caris, os achars, os papadams, os kormas e os vindaloos são semelhantes e não há propriamente um choque de sabores. Quem gosta de spicy food está aqui nas suas sete quintas e pode regalar-se com a comida local. O único problema é que não sou um apaixonado nem por galinha nem por cabrito e porco e vaca são bichos que não entram na ementa local. Antes de almoço quase tive um encontro de terceiro grau com uns elefantes que viravam a esquina, mas de forma pachorrenta e com duas carroças puxadas por uns cavalos mais magros que os donos. Aliás, animais magros é o que se vê com fartura. Os cães, a quem não se ouve um ai, deslizam calmamente pelas estradas, mas não precisam de qualquer exame para comprovar que estão famélicos. Delhi está cheia de cães vadios, mas gatos ainda não vi (para pena minha). À tarde segui para o palácio presidencial que fica no topo de uma Avenida que lembra os Champs Elysées e se debruça sobre as duas câmaras do parlamento e sobre os palácios governamentais. Tudo aqui respira um ar britânico, não só pelo sistema westminsteriano, mas também por os portões presidenciais serem cópias de Buckingham. Mesmo mais de 60 anos depois da independência da maior democracia do mundo, a presença do Raj permanece bem viva na toponímia, nas instituições, nalguma arquitectura e no comportamento e pose dos funcionários públicos. Algo que se vê com muita frequência são casais de rapazes em passeio de mão dada, cenário que tinha já visto no Dubai e no aeroporto do Bahrain. Tanto quanto me foi dado perceber, trata-se de um gesto aceitável e sem qualquer conotação de comportamento homossexual. Tendo em consideração a postura dos países islâmicos relativamente à homossexualidade, seria estranho se estes passeantes fossem mais do que meros amigos. Vi hoje também o meu primeiro encantador de serpentes (que queria 100 rupias por uma fotografia da sua encantada bailarina) e tomei contacto com os avisos relativos a pickpocketing em Delhi, fenómeno outrora pouco comum, mas agora tornado frequente pela crise. Crise que divide as opiniões dos indianos com quem falei - para uns, a Índia não sentiu nada, para outros, está-se a viver um período difícil. Num dia, não dá para perceber… As obras estão por todo o lado e as mais visíveis são as do metro que vai ser alargado significativamente. Mas o carácter inventivo dos indianos é extraordinário e, tal como os passeios se transformam em pistas de motociclismo, quando inteiros, também se metamorfoseiam em alicerces de barracas que suportarão uma família durante alguns dias. Mais surpreendente ainda é a transformação de espaços de terra nos passeios em pequenas hortas, ode cultivadores improvisados vão buscar os seus vegetais - não me perguntem como funciona porque só vi uns velhotes com ancinhos e sachos a tomarem conta das verduras, debruçados sobre a terra. O final de jornada foi passado a tentarem convencer-me a comprar anéis, pulseiras, lenços, cortinas, divãs, alcatifas, brincos, perfumes e até mobília. Foi difícil recusar porque a armada de vendedores aproximava-se sempre com mais argumentos simpáticos e com baixas de preço consideráveis. Bem, já vai um tapete de Kashmir a caminho da minha mãe - veremos se chega ou se fica pelo caminho. Cheguei cansado ao hotel e ainda tive de tratar de problemas do troço de viagem para o Vietname e Birmânia e começar a fazer a mala para amanhã me por a caminho de Jaipur, capital do Rajastão. Encerro o dia e não consigo deixar de pensar na pequenita dos flic flacs e no que poderá fazer pela sua vida.
terça-feira, 13 de outubro de 2009
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Rafael,
ResponderEliminarCá vou seguindo com atenção este périplo. Há histórias bem engraçadas! Foi pena o projecto Ras Musandam ter falhado, mas fica a intenção original de homenagear EPJ. Votos boa jornada, estou curioso em saber mais! Um abraço,
Daniel S L