segunda-feira, 12 de outubro de 2009

A Vida como ela é




E hoje era o dia da partida do Dubai e da chegada à Índia. Arranquei do hotel com 3 horas de antecedência, não fosse o diabo tecê-las, já que os engarrafamentos no Dubai são frequentes e acabei por ter de esperar quase duas horas pela partida do avião. O free shop do Dubai é um most sobrettudo por causa dos sorteios que realiza. O sorteio em curso passa pela emissão de 5000 bilhetes a cerca de 50 Euros cada e o vencedor vai para casa com um belo Lamborghini (exposto na praça central do free shop. As outras lojas não são nada que não se espere e, francamente, este espaço comercial está longe de outros por onde já passei, nomeadamente Singapura. Como sempre, entrei na livraria e percebi que o Dan Brown é mesmo a maior vedeta de leitura de avião que há memória. O seu último best seller (à venda em hardcover) é o número 1 da lista do aeroporto do Dubai o que, para alguém que escreve sempre o mesmo livro, é obra. Mas há que reconhecer que o homem sabe trabalhar a lógica do page turner e mesmo sabendo como tudo aquilo vai acabar, é uma leitura excelente para quem passa horas num aeroporto. Recordo há 5 anos, ter sete horas de espera em Frankfurt, entre um voo de Pequim e um voo para Lisboa, e aproveitá-las para ler metade do Angels e Demons. Mais surpreendente foi ver à venda a FHM e a Maxmen. Confirma-se o que o X. me tinha dito - Dubai not too much strict, disco is ok, women ok, drink ok. Ora cá está… as jovens podem apresentar-se de sorriso matreiro e pose provocadora que ninguém no Dubai as leva a mal. Já no Bahrain, a conversa é outra. Quando cheguei ao Bahrain, onde fazia escala para Delhi, vi que o aeroporto é mais modesto - em vez de Lamborghini, o prémio é um BMW (com vários pacotes à escolha) e as lojas são em menor número. Têm em comum, as mini mesquitas para uma oração em trânsito, separadas para homens e mulheres e o mesmo ar condicionado a gelar os mais encalorados (como é o meu caso). Voltando à FHM e à Maxmen, não é que elas também se vendem no Bahrain!. Mas, pasme-se senhores, vender não é expor poucas vergonhas ao público. As revistas estão fechadas em sacos de plástico, já de si dissuasores, mas os bons costumes vão um pouco mais longe e colocam entre o plástico e a capa, o que parece ser um pano de flanela preta que não deixa ver mais do que o tal sorriso maroto da pequena. Tudo o resto é deixado à imaginação. Na verdade, os bahrainianos sabem-na toda. Quanto mais coberta mais o acicate para comprar a revista. É assim como a Rita Hayworth a fazer de Gilda e a cantar o “put the blame on mame, boys” e a demorar uma eternidade para tirar a luva. O avião partiu à horinha e para além de mim e de um casal também português que não interpelei, só havia indianos residentes no Qatar, no Bahrain e no Dubai. As hospedeiras devem estar muito familiarizadas com este tipo de voos porque ao servirem o almoço já não perguntavam o proverbial, “anything to drink, sir?”, mas sim “Whiskey sir?” Aparentemente, o retorno à terra mãe, enche estes expatriados indianos de vontade de aquecerem a garganta e afinarem a voz. Logo após o almoço, iniciou-se uma esplêndida sessão cinematográfica bollywoodiana que não pude acompanhar senão por imagem (tinha abdicados dos auscultadores). Parte dos passageiros rejubilou assim que viu a entrada dos actores - o meu colega do lado, afirmou logo - “vérii talentad actór e vérri priti garl”. Quanto aos dotes do actor, aparentemente um especialista em maus da fita, vilões e afins, não me posso pronunciar porque não tive acesso às inflexões, tons e ritmos, mas quanto à priti garl, não posso deixar de estar de acordo. As duas horas seguintes foram uma mistura de sons dos vários espectadorees que, por vezes acompanhavam de forma ritmada as músicas e as coreografias bollywoodianas. O avião chegou com meia hora de avanço, graças aos ventos que já haviam ajudado o Vasco da Gama a fazer um percurso semelhante (mas um bocadinho mais baixo), mas rapidamente se perdeu o avanço com o caos do preenchimento dos papéis sanitários que tive de preencher, confirmando que não estava nem pensava estar com gripe. Se no Dubai ninguém falava em gripe, já no Bahrain todos o funcionários do aeroporto, polícias e restante pessoal andavam de máscara e na Índia havia médicos a fazer perguntas sobre países visitados e estado físico em geral. Passei rapidamente pela alfândega e controlo de passaportes e vi-me transportado para um mundo mais real. O aeroporto é velho e sujo e apanhar táxi é confuso. Percebi que já existem táxis novos a circular mas, tal como os autocarros novos, ainda são uma raridade, numa cidade de cerca de 18 milhões de habitantes que se prepara entusiasticamente para organizar os jogos da Commonwealth de 2010. Eu sei, que isto da Commonwealth não nos diz muito e sabemos que é uma competição menor, mas para os países envolvidos é um evento second to none. Sair do aeroporto é um drama e os 16 km que separam o aeroporto da cidade são percorridos em cerca de 1 hora. Começa-se com 4 faixas que os habilidosos condutores indianos transformam de imediato em 6 ou 6 e meia. Cada carro manobra à vista e ocupando uma parte de uma faixa mais um bocadinho da outra, cria condições para que outros ocupem o bocado remanescente de cada uma das faixas em causa, outro carro arruma-se quase contra o rail e pelas bermas lá temos um desfile de motas. Tudo isto é acompanhado por um buzinar constante e por toques aqui e ali. Não consegui ver nenhum carro que não tivesse uma amolgadela, mas acho mesmo que as amolgadelas por aqui são testemunho de coragem e carácter um pouco à maneira dos duelistas universitários alemães, para quem uma cicatriz era uma prova de carácter. Os carrinhos Tata compensam em agilidade a sua fragilidade cavalar e parecem bem ajustados a esta justa constante. Lá fui seguindo entre manobras perigosas e peões que cruzam a via rápida à procura de quem pare para lhes dar boleia ou para fornecer um serviço informal de táxi. Quase todas as motas transportam dois elementos e, curiosidade das curiosidades, se os dois ocupantes são homens, ambos exibem invariavelmente um capacete, mas se o segundo ocupante é uma mulher, ela viaja sem protecção e frequentemente sentada de lado. Não sei se é por estas ou por estas e outras que a Índia é um dos poucos países do mundo, onde a esperança de vida média à nascença de uma mulher é inferior à de um homem. No meio, das travessias de peões e das manobras de cruzamento de faixas, comecei a ver alguns vultos completamente espalmados contra o rail de separação de sentidos. Embora estivesse escuro (tinha já anoiteecido) reparei que eram pequenas figuras. Quando o táxi se imobilizou num dos inúmeros sobressaltos do trânsito, vi um miúdo e uma miúda, cuja sujidade tapava completamente os rostos, os cabelos pareciam mais cordame do que outra coisa. Aproximaram-se do vidro e bateram à procura de esmola, e imediatamente o condutor trancou as portas e recomendou-me que nunca desse nada aquele “tipo de gente”. Se der a um, vêm logo 20 ou 30. Olhando com mais atenção reparei que a pequenita estava descalça e andrajosa, mas o mais impressionante era a cara que exibia qualquer coisa como um tumor que lhe ocupava quase toda a parte direita do rosto. Já o miúdo, só tinha um braço e junto ao coto do braço esquerdo tinha uma ferida que a avaliar pelo estado que aparentava, não pressagiava nada de bom. Para primeiro embate com a Índia não comecei nada mal e dá imediatamente para entender o porquê de ser um país que causa emoções extremas. Enquanto o carro estava parado, ainda passaram uma jovem com um bebé ao colo que bateu violentamente no vidro do carro e uma mulher que apenas balançava umas flores, mas já sem forças para dizer o que quer que fosse. Perguntei ao condutor se não havia acidentes provocados pelo atravessar constante de gente pela via rápida, ao que ele retorquiu que, de vez em quando, morrem alguns. Felizmente, a viagem tornou-se mais rápida até se chegar perto do centro e onde fica o meu (modesto) hotel. Aí chegados, fiquei a saber, pela confusão das ruas que se está viver uma semana de festa dedicada ao Lord Rama e a actividade comercial é intensa. Se as estradas do aeroporto já não são aconselhadas aos que não controlam totalmente o esfíncter, então aqui nem se pode falar - o alcatrão aparece de vez em quando, mas abundam montes de terra e de areia. O hotel é espartano, mas tem ventoínha e não dei por ter insectos nem bichos de outra qualidade (maior ou menor). Vejamos o que isto vai dar. Amanhã, pela fresquinha (é uma maneira de falar porque a temperatura está pelos 35) parto para a exploração de Delhi e para a descoberta de um mundo que se anuncia contrastante.

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