Convivo mal com a religiao, muito mal mesmo. Desde ha muitos anos que a maior parte das manifestacoes religiosas me deixam sempre num estado de desconforto. Mas confesso que nunca senti um desconforto tao grande como hoje em Varanasi. Varanasi ou Benares, como ainda e conhecida por muitos, e uma das cidades mais santas do hinduismo, senao mesmo a mais santa e e tambem reverenciada por budistas por ter sido o lugar da primeira preleccao de Siddharta Gautama. Deixei o hotel pelas 5 da manha, de modo a poder seguir as ablucoes matinais dos peregrinos no Ganges, ou Ganga (como e conhecido por aqui). O acesso ao rio faz-se atraves de inumeros ghat ou escadarias, por onde os peregrinos descem ate entrar no rio. O banho antes do nascer do sol tem peculiares qualidades para a remissao dos pecados e prepara activamente o crente para a sua vida quotidiana. Antes de chegar, ja via passar muitos homens e mulheres que tinham completado os seus rituais e que caminhavam ora com garrafas ora com frascos ou latas com agua do rio sagrado. Bem sei que uma coisa e a pureza fisica e outra e a pureza espiritual, mas avaliando a cor da agua nas garrafas, pensaria duas vezes, antes de a usar para o que quer que fosse e nao me passaria pela cabeca, pura ou impura, beber daquela agua. Entrei pelo ghat mais central, onde se amontovam centenas de peregrinos e onde o numero de turistas era tambem imenso. Uma enorme excursao de tailandeses, claramente identificados e impecavelmente vestidos de branco e um grupo tambem vasto de japoneses, estes com o rosto completamente coberto com mascaras (nao sei se receando a gripe A ou se temendo os efluvios do Ganges) aproximavam-se do rio. Cheguei ao barco que me tinha sido destinado e um remador que ja tinha idade para duas reformas preparou-se para zarpar do cais. Para chegar ao barco, tive de passar por varios outros que se encontravam mais perto do cais, o que me valeu alguns sustos e desequilibrios e um quase mergulho sem ritual no rio sagrado. Logo que entrei no barco tive uma sensacao viva de desconforto, como se nao pertencesse aquele espaco e nao fosse mais do que um voyeur a tirar fotos a algo em que nao acredito e nao posso acreditar. Era um desconforto maior do que aquele que sinto a entrar em igrejas cristas ou mesmo em mesquitas ou sinagogas. Senti que estava ali rigorosamente a mais e que o meu cepticismo nao se enquadrava com a crenca dos fieis. Nunca consegui entender a esperanca e o espirito das religioes, nem o seu apaziguamento das revoltas e a sua aceitacao de uma certa ordem. Menos percebo no hinduismo, a busca do nirvana e do fim da caminhada recorrente de ressurreicao em ressurreicao. Se acreditasse que se poderia escapar a esse processo de regressar permanentemente, eu nao quereria faze-lo. Reencarnar tem pelo menos o merito de se poder voltar com uma vida melhor e mais interessante, mas a ideia de quietude, de beatitude, ou a ideia de uma vida espiritual eterna nao me seduzem e teria mesmo medo dela, se fosse um crente. Custa-me perceber como alguem pode acreditar que haja alguma coisa depois disto, seja de que tipo for e a conviccao dos fieis hindus que se banham no Ganges e para mim um pouco assustadora. Fiz o percurso de quase sete km, visualizando muitos dos ghats e dos peregrinos, uns completamente vestidos, outros semi nus, uns em modernos calcoes de banho, outros com mais tradicionais roupas interiores, mas todos irmanados do mesmo espirito. Alguns trazem mesmo sabao e tomam o seu banho fisico, ao mesmo tempo que o seu banho ritual. O volume de produtos quimicos lancados para o Ganges e avassalador e qualquer banho aqui e um risco obvio para a saude de homens, mulheres e criancas. Embora o mal estar me acompanhasse, o espectaculo do nascer do Sol sobre o Ganges na margem contraria a Varanasi, e supostamente no lado mau do rio, melhorou os meus animos. O lado mau significa que quem morre na margem errada nao tem a compensacao de quem morre na margem certa. Se os que morrem em Varanasi tem caminho aberto para o nirvana, os que falecem do outro lado, tem um destno infernal pela frente. Entre banhistas e turistas, o barco foi deslizando Ghat a Ghat de forma lenta e repousada. Sob a luz do primeiro Sol, avistei o que parecia um tronco de arvore a flutuar no Ganges, mas a medida que o objecto se aproximava, vi que tinha uma forma de boneco ritual usado talvez nas festas de Dhivalli dos ultimos dias. Mas quando o objecto estava a cerca de 5 a 6 metros, percebi de que se tratava e, se preciso fosse, o proprio guia dissipou quaisquer duvidas - era um corpo humano, inchado e em decomposicao que, embora nao seja tecnico forense e o meu conhecimento da materia se reduza a alguns episodios dos CSI, mostrava claros sinais de ter morrido ha varios dias. Com um filosofico, "e frequente", o meu guia desvalorizou a questao e continuamos viagem, enquanto o grupo de japoneses no barco seguinte demonstrava menos calma e clamava com algum horror. Por pudor, nao fotografei a cena e nao inquiri o meu guia sobre o significado da frequencia destes eventos, mas senti-me uma vez mais terrivelmente voyeurista perante aquela cena e achei que tinha de sair daquele espaco rapidamente. O hinduismo, como muitas formas politeistas ate me atrai de algum modo, pela prevalencia de uma dimensao estetica que escapa a quase todos os monoteismos, cheios de um deus senhor de si que exige submissao absoluta e respeito. Para mim essa componente estetica e fundamental na minha apreciacao das religioes. Como nao creio em nenhuma, prefiro a liturgia ortodoxa porque e mais agradavel que a catolica e esta mais bela que a protestante. Talvez por isso as mitologias nordica ou greco-romana cheias de deuses de paixoes humanas, permeaveis ao incesto, a vinganca, a retaliacao, a preferencia descarada por uns e nao por outros me parecam mais dignas de apreco. Deusas que se submetem ao juizo dos homens para declarar a mais bela, deuses que se relacionam com mortais e dao origem a semi-deuses, panteoes que permanecem abertos e acolhem novas divindades oriundas de outras paragens, sempre me inspiraram mais que os monoteismos, essa invencao Akhnatoniana que, derrotada no seu tempo, acabou por ser vitoriosa a prazo. As guerras entre politeistas nunca foram travadas em nome da submissao de uns deuses a outros. Quantas foram as vezes que os derrotados legaram os seus deuses aos vencedores, mas com o monoteismo nada disto se passa. E o hiduismo? O hinduismo com os seus deuses que possuem manifestacoes diversas e mais incolume a penetracao de novos ocupantes no seu panteao e possui uma rigidez que nao encontramos nas restantes formas politeistas. Ou talvez nao se possa entender o hinduismo como um politeismo real. Apos a saida do rio, visitei as ruas labirinticas de Varanasi, com o espectaculo habitual de pobreza, vacas, lixo e dejectos, mas com a vibracao de todo o sub continente e com todas as cores de que a India e prodiga. Terminei este pequeno tour cerca das 8 da manha e pouco depois segui para a segunda parte, com passagem pelo museu arqueologico onde se encontra a origem do simbolo nacional indiano - a roda e os quatro leoes de Ashoka - e pelo espaco dos primeiros ensinamentos do Buda e uma replica da figueira onde teve a sua inspiracao. Terminei a minha digressao com uma passagem por um templo chamado Mother India e que esta despojado de qualquer decoracao, excepto um mapa gigante da India e paises adjacentes, de modo a poder ser usado por todas as religioes. Amanha tenho mais um dia em Varanasi e depois parto para a Mumbai que um dia foi Bombaim e que serviu como pagamento do dote de Catarina de Braganca aquando do casamento com CarlosII. Com ela foi o cha, que se tornou numa instituicao britanica, mas manteve-se o portugues como a unica lingua ocidental que chama ao cha, o mesmo que japoneses, chineses e indianos. Ah, ja agora, tambem o ananas e aqui ananas.
segunda-feira, 19 de outubro de 2009
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