segunda-feira, 26 de outubro de 2009

Don Juan Carlos de Bourbon anuncia o Euro


Sem acesso continuado a Internet, aqui vai a cronica possivel em 20 minutos de tempo de antena. E eis-me em territorio Goes - o mais pequeno estado da Uniao Indiana, mas que, por razoes historicas, se mantem o mais evidentemente ligado as terras lusas. Logo a chegada ao aeroporto e facil verificar que proliferam nomes e expressoes portuguesas, umas muito fieis, outras adulteradas por quase cinquenta anos de afastamento. O aeroporto ainda fica a uma hora de viagem de Panaji (Nova Goa) e a cerca de uma hora e um quarto de Candolim, onde acabei por ficar. O territorio de Goa divide-se em dois distritos, um norte e um sul que acabei por visitar em dois dias, ou pelo menos vi as atraccoes mais usualmente referidas, incluindo a reliquia barroca que e Velha Goa, uma especie de florescimento contra-reformista em selva tropical. A Se e demias igrejas que formam o nucleo duro de Velha Goa sao ainda muito frequentadas pela populacao catolica local e, como visitei a cidade num domingo, havia varias cerimonias em curso. Aproveitei tambem para ver o museu arqueologico que possui uma sala onde estao representados em quadro a maior parte dos governadores e vice-reis do estado da India, com a curiosidade de o ultimo, Vassalo e Silva, nao ter direito a quadro, mas a foto de tipo oficial. La consta tambem Dom Antonio de Oliveira Salazar, assim mesmo, como ultimo primeiro ministro ao tempo dos governadores e os presidentes Carmona, Craveiro Lopes e Americo Thomaz, nenhum deles com Dom, mas o ultimo num quadro que o representava como nunca o tinha visto, quase mesmo com um perfil iluminado ou talvez inteligente. Tambem esta apresentavel ao publico uma estatua de Camoes e as entradas sao ao preco da chuva - quatro rupias. A maior afluencia da-se para a visita ao tumulo de Sao Francisco Xavier que e aberto de 10 em 10 anos, para se confirmar a incorruptibilidade do corpo. Mesmo hindus e muculmanos eram vistos na visita. A igreja do convento de frades agostinhos esta em ruina e e a unica peca arquitectonica de grande dimensao que mostra sinais de profunda decadencia. A cidade esta bem cuidada e como e comum por estas partes, os cidadaos locais tem muito orgulho nos seus relvados verdejantes que, neste clima, devem gastar quilolitros de agua todos os dias - coisas das herancas inglesas. O estilo dos goeses e bem mais modelo relax do que o dos outros indianos e, por aqui, as coisas levam o seu tempo. Os Fernandes, os Albuquerques, os Rebelos, os Pintos estao por toda a parte e nao e dificil ver que muitos constituem uma importante classe media. Muitas casas e solares de arquitectura indo-portuguesa sobrevivem e existem ate aqueles que se tornaram num misto de loja e museu, de modo a assegurar a sobrevivencia das familias. Visitei alguns detes solares que apresentam uma cristalizacao notavel do tempo, sendo possivle relembrar casas senhoriais portuguesas do seculo XIX, com adaptacoes devidas ao clima tropical e a idiossincrasia dos proprietarios goeses e a sua interpretacao por vezes livre das tradicoes portuguesas. Como ainda sou do tempo de se estudar na escola a geografia do entao ja defunto estado da India, percorrer Goa traz um avivar de memorias. Foi assim, o cruzeiro crepuscular no Mandovi, ou percorrer cidades com nomes como Vasco da Gama, ou locais de grande beleza como Dona Paula. Por todo o lado, se veem turistas internos e externos e Goa tem vindo a tornar-se no grande destino de ferias de praia em territorio indiano. Os russos sao a comunidade mais ouvida e existem ja anuncios e placards escritos em russo em varios locais do territorio. O potencial turistico esta tambem a ser incrementado pelo recurso ao jogo, especialmente com os casinos fluviais do Mandovi que percorrem a avenida marginal de Panaji. Durante o cruzeiro, tive oportunidade de verificar ate que ponto esta dimensao do jogo parece ser invasiva da vida de Goa. Ironias do destino, os ultimos territorios portugueses do Oriente sao hoje o presente e o futuro do jogo mundial - Macau e Goa afirmam-se pela paixao pelo risco, factor que mais do que qualquer crenca une os homens de todas as latitudes. Perante tantos estrangeiros, a resposta dos indianos e muito curiosa e abundam os pedidos de fotografias, com a familia a fazer pose entre os turistas que passam. Uma inglesa dizia-me com ar enfastiado que estava farta de ser fotografada com e sem consentimento e perguntava-se "o que e que eles acham que eu sou - algum bicho exotico?" Pois e, isto da inversao do estranho e do exotico tem destas coisas. O bom do ocidental, habituado a ver o exotico e a definir-se como normal nem sempre aprecia ser vitima da inversao dos tabuleiros. A vermelhusca inglesa nao se coibia, no entanto de fotografar a esquerda e a direita, e logo ficou entusiasmadissima com a exibicao de um mini rancho a intepretar a Ti Anica de Loule e o oh Malhao, Malhao, com letras quase incompreensiveis e que fotografou com pertinencia. Ainda mais feliz ficou quando um jovem indiano de look bollywoodiano, com uma poupinha a Elvis e com uns oculos escuros extremamente uteis para a noite sobre o Mandovi, lhe disse coisas doces ao ouvido. Passado pouco tempo, ja ela dizia para a amiga do lado - "he's so deliciously cute!" A amiga torceu o nariz, nao muito seduzida pelos avancos do nosso jovem de perfil cinematografico, mas rapidamente a outra a convenceu a entrar na onda, ja que havia mais peixe no mar... O cruzeiro de uma hora foi acompanhado por muita musica tecno indiana e goesa, tendo fixado uma cuja refrao era qualquer coisa ligado a "a tua boca". O DJ portava-se admiravelmente, recuando e avancando a dita musica e durante uns cinco minutos fui acompanhado por aquela batida e pela tua boca. Seja ela de quem for, espero que ja tenha tido descanso. O dia foi passado entre igrejas, templos hindus, praias (belissimas e algumas com cerca de 25 km de extensao) e lojas, sim lojas. Uma vez mais, o condutos que contratei insistia em que eu visitasse todas as lojas possiveis e imaginarias. La lhe fui dizendo que nao sou um shopaholic e que nao queria comprar nem carpetes, nem pulseiras nem cachecois nem mantas nem Ganeshas, nem Vishnus, nem nada. Nao ficou impressionado e sempre me foi dizendo que o importante era entrar, dar dois dedos de conversa e vir-me embora. Assim fiz, em cercade meia duzia de lojas e, quando visitei a ultima, dise-lhe "no more shops, ok!!". Respondeu-me com um sorriso: "no need sir, thanks to you I've got the last stamp on my card - I can now buy the tyre". Ficou resolvido o misterio - cada entrada de um cliente na loja garante um carimbo e ao fim de uns tantos, o condutor e pago em generos ou em dinheiro. Mais uma boa accao do promeneur solitaire. Promeneur solitaire e alias uma situacao que intriga muito os meus interlocutores que nao percebem muito bem por que e que alguem viaja em lazer sozinho. Por isso insistem sempre que eu devo estar numa viagem de negocios, entrecortada pelo lazer. A minha confirmacao de ser do lazer, deixa-os sempre um pouco atordoados. Voltando as fotos com os indianos e os estrangeiros, visitava eu o Forte da Aguada, imponente construcao lusa do seculo XVII e local hoje conhecido por ter o resort mais luxuoso do territorio, quando tive ocasia de ver tres pacientes filandesas que iam posando ao lado de todos os eleemntos de uma excursao vinda do estado de Gujarat. Os excursionistas deveriam ser cerca de meia centena e as fotos assemelhavam-se as de um casamento, onde a finlandesas faziam o papel dos noivos e os indianos eram os convidados. Safei-me pela esquerda baixa, principalmente porque nao sou mulher nem loiro e arranquei para mais um cruzeiro para observacao de golfinhos e das atraccoes locais. Ora bem, no meu barco ia uma familia de nove elementos que vinha.... do Gujarat e, como e facil imaginar, depois de uma breve hesitacao e reaccao pudica, la tive de pousar com filhos e filhas ao colo e ja me via ameacado pela mulher do meu interlocutor, mas este la decidiu (uff) nao coloca-la ao meu colo, mas ao meu lado. Depois da sessao fotografica, perguntaram-me qual a unidade monetaria portuguesa e qual o seu valor. Fazendo de embaixador da boa vontade, resolvi puxar da carteira e oferecer uma moeda de euro a cada um dos dois ramos da familia. Ficaram felicissimos, mas para mal dos meus pecados, as duas moedas tinham efigie de Don Juan Carlos e la ficou perturbada uma vez mais a historia de que Portugal nao pertence a Espanha. A tarde de hoje foi passada na praia de Candolim (com uma agua tao calda como nunca encontrei, nem mesmo na Grande Barreira de Coral australiana) a dormitar, a ouvir russo e a receber propostas de massagens nos pes, no corpo e em todo o lado, insistindo os(as) massagistas que eu parecia estar em desequilibrio - olha a novidade!!! Recusei massagens, pulseiras e demais ofertas, mas deliciei-me com um banhinho de excelencia. E pronto, muito haveria a dizer das minhas aventuras e desventuras goesas, mas fica para outro dia. Amanha, voo para Kochi, em mais uma daquelas cidades por onde os nossos ilustres antepassados caminharam ha alguns seculos.

1 comentário:

  1. Ora o nosso embaixador a distribuir euros espanhois, por portugueses...quando toda a gente sabe que o euro português vale pelo menos dez espanhois...que desbarato!

    ResponderEliminar