domingo, 11 de outubro de 2009

Bye Bye Dubai




Comecei às 9, o que devia ter começado às 5 e meia! Passo a explicar. Arranquei para a viagem personalizada aos 6 emiratos mais pequenos, fica apenas de fora o Abu Dhabi que ocupa quase três quartos da área total dos EAU e é o mais rico em petróleo, com três horas e meia de atraso porque o jovem condutor/guia, chega a casa, depois de um dia de trabalho, à 1 e meia da manhã e tem de descansar qualquer coisinha. O bom do X. que é paquistanês de Peshawar lá chegou um pouco ensonado e fez-se à estrada sem demoras, mas rapidamente deu para perceber que ou via alguns emiratos e não outros ou via todos em velocidade galopante e sem sair do SUV que me transportou com uns miraculosos 20 graus interiores (contra os 35 lá fora). A segunda hipótese acabou por ser a vencedora. Diga-se em abono da verdade que os restantes emiratos não paraecem ser muito mais do que pequenas amostras do grande Dubai, variando entre pequenas vilas a oscilar entre tradição e modernidade e verdadeiros subúrbios-dormitórios do Dubai. Como as rendas são muito elevadas no Dubai, a maior parte dos trabalhadores foge para os emiratos vizinhos mais próximos e por lá pernoita, ou melhor, passa pelas brasas porque às 4 da manhã aí estão eles de novo em acção. O jovem X possuía um inglês muito especial que eu percebia aí uma vez em cada quatro, mas como era extremamente simpático, ainda deu para alguma conversa animada. Saiu há 6 anos de Peshawar, à procura de melhor vida e porque estava farto dos talibans paquistaneses a perguntarem-lhe "why don't pray", "why shave", frases que ele repetiu várias vezes e que cruzadas com um too much traffic, too much iranians, too much russians, too much tudo, faziam o grosso do seu inglês. Em todo o caso, há que lhe gabar o esforço. Falando originalmente um dialecto pashtun, tendo aprendido o urdu (língua nacional paquistanesa) e arranhando o árabe e o inglês, o rapaz tinha alguma fluência. Depois de confessar que não conhecia Portugal e ter percebido que os nossos 10 milhões estão ali mesmo à beirinha de Espanha, lá começou a sua conversa sobre religião no Paquistão, no Dubai, nos EAU e na Europa. Para o X, o Dubai é um paraíso, pode-se beber e ir às discotecas ver dançarinas do ventre que ninguém leva a mal. É verdade que me disse que havia too many belly dancers e too many blonde russians, too many Syrians, too many Lebanese, too many Egyptians, mas cedo percebi que no inglês de X, too many queria apenas dizer many com um pequeno reforço de expressão. Percebi isto, graças às palavras elogiosas que tinha para com as too many russians e egyptians. Aparentemennte o rapaz não apreciava os dotes físicos das tailandesas e filipinas (muito pequenas e magrinhas), o mesmo não se podendo dizer das egípcias, nas quais esgotou rapidamente os adjectivos apreciativos que conhecia em inglês e que resumindo para português seriam qualquer coisa como pulposas e com skills físicos capazes de deixar qualquer paquistanês em êxtase místico mesmo sem rodopiar como um derviche. Também confessou que tinha uma namorada da sua terra natal, também a trabalhar no Dubai, mas a viver num dos outros emiratos menos tolerantes que o Dubai, o que já lhe tinha trazido dissabores. Assim, há algumas semanas, estava ele em namoro casto com a sua jovem de Peshawar quando chegou a polícia de costumes de Ajman e lhe perguntou (em árabe) o que é que faziam num carro num sítio isolado e se a rapariga era parente dele. Que não, que eram paquistaneses, que não estavam a fazer nada de mal. Mas os polícias agastados por tamanha impureza comportamental queria saber de pais, irmãos e demais família para acabar de vez com tamanha pouca vergonha. Por esta vez passaram, mas não sem levarem uma reprimenda. Em Ajman nem se bebe nem há night clubs nem nada e depois ainda se perguntam por que é que o Dubai anda para a frente. O X também não se esqueceu de dizer que os outros emiratos eram muito strict, o mesmo não se passando com o Dubai. Aqui, o ladrão não leva a mão cortada, como na Arábia Saudita, mas uma multa. Tudo o que é crime leva multa. É uma sábia medida. Em vez do "vai em paz e não voltes a pecar", temos o "paga a multa e se voltares a fazer, pagas mais". Os dirigentes do Dubai sabem-na literalmente toda e trazem uma nova luz à ideia durkheimiana da substituição gradual do punitivo pelo restitutivo. O X. só acha que no Dubai não está muito bem que os homens possam casar com não muçulmanas e as mulheres tenham de casar obrigatoriamente com os locais. Tal como acontece com os Iranianos, muitos paquistaneses não morrem de amores pelos árabes. A simpatia começa e acaba na religião e não vai mais longe. Os árabes têm too much money (parece que aqui o too much era mesmo too much), são arrogantes, incultos (e gostam de o ser), só falam árabe e não são confiáveis. Levando em linha de conta que o bom do x. trabalha sete dias por semana das 5 e meia (hora a que tem de sair de casa para escapar aos engarrafamentos monstros do Dubai) às 8 ou 9 da noite, que não tem férias nem feriados e recebe qualquer coisa como 300 euros por mês, dá para perceber que não simpatize muito com os seus patrões. No entanto reserva palavras de elogio para os dirigentes do Dubai que são bons e inteligentes e fazem do emirato um belo local para viver, seguro, limpo e bem cuidado (Ajman não só é atrasado como é sujo). Pois lá andei de museu em museu, a lembrar as reconstruções do Portugal dos Pequenitos e cheguei à conclusão que mesmo os guardas dos museus são, na sua maioria estrangeiros. Um deles, um paquistanês, veio ao encontro do estereótipo e quando lhe disse que era português, lá veio o Oh a country of great soccer players- Figo and Ronalda. Ora bem, cada um exporta o que tem... Se Sharjah e Ajman ainda deram tempo para parar e ver um souk e um museu, já em Umm al Quwain só deu mesmo para ver uma exposição de armas num antigo palácio do emir (bem pobre, por sinal) e em Ras Khaimah deu apenas para comer uns calamares grelhados num restaurante libanês no meio de um centro comercial onde, pela primeira vez, os expatriados não paareciam estar em maioria. Quanto ao último emirato visitado(!) - Fujairah - vi (de fora) uma mesquita com cerca de 600 anos e o X aproveitou para meter conversa com outro guia seu amigo, que tinha saído para o mesmo tour às 5 da manhã, mas com o incentivo de conduzir três "belas" francesas e não um camafeu português que, ainda por cima, era mais velho 1 ano que o pai do guia e 4 do que a mãe. Já me sentia pré-histórico, mas depois de saber que o pai deste jovem de 26 anos era mais novo do eu, passei rapidamente do neolítico para o paleolítico, ou talvez me tenha tornado mesmo um antepassado da velha Lucy. Deixámos rapidamente para trás as francesas e arrancámos para cerca de 100 km de auto-estrada (com excelente piso, como é normal nos Emiratos) até que estancámos já perto do Dubai, perdendo cerca de 1 hora para fazer os últimos 10 km, o que parece ser absolutamente normal. Os Emiratos têm um plano de milhões para unir todos os emiratos por via férrea rápida, estilo TGV e o ubai lançou no mês passado o primeiro troço de metro que visa descongestionar a cidade. Aparentemente, o sucesso do metro está a ser grande porque ontem tentei andar e a bicha para comprar bilhete era maior do que para ver o Elvis reencarnado a cantar em Graceland. Resultado, adeus ó metro que eu vou de táxi. Aliás os taxistas não estão preocupados porque acham que isto é sol de pouca dura e quando passar febre da novidade, os indolentes locais regressarão ao conforto do taxizinho. Muito haveria para dizer, mas amanhã é dia de partida para Delhi, via Bahrain e, dado o trânsito caótico, fui aconselhado a sair do hotel às 5 da manhã (para um avião que parte às 8 e 10), sob pena de o ver partir, ainda na estrada e a deitar contas à vida. Daqui a pouco, escreverei da capital da Índia que, como todos sabemos, é maior do que o mundo - Borges dixit.

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