quinta-feira, 22 de outubro de 2009

To Kill a Cockroach e o Clark Gable


Depois de três dias em Varanasi, estava pronto para partir para a capital financeira da ìndia e sua cidade mais populosa. Despedi-me sem saudades do já mencionaado hotel Siddharta, onde passei uma última noite em justas heróicas, mas leais, com algumas baratas voadoras. Sem qualquer arma química disponível, resolvi lutar com o que tina mais à mão que, neste caso, era um chinelo. Depois de várias contendas em que me cobri de glória, o resultado terminou como uma vitória esmagadora dos humanos e uma derrota histórica para as infames criaturas que perderam cinco portentosos elementos da sua força aérea. Em Varanasi abundavam os placards que anunciavam produtos que eliminavam as baratas que não vemos, pois eu contentava-me com um produto que se limitasse a exterminar as visíveis (os jainistas que me perdoem). Depois de uma noite tão cansativa de luta feroz, esperava um pequeno-almoço reconfortante, mas quando cheguei já não havia sumo. O último comensal tinha aliás levado o resto de três pacotinhos (bem espremidos) que transformaram o sumo de laranja, de manga e de ananás num certamente muito saboroso tuti-fruti. Sem sumo, lá me ofereceram Coca-Cola (!), para rapidamente concluirem que também não tinham, mas ainda restava um resto de Tums (um sucedâneo da anterior, mas mais açucarada). Assim sendo, partir para umas torradinhas com manteiga, regadas com Tums. O pessoal da sala de pequenos-almoços era constituído por 4 parentes humanos das baratas, mas na sua versão tonta - corriam para todo o lado, mas não serviam ninguém. No meio da sala, planava uma impressora matricial daquelas de 9 agulhas que já quase não se vêem, mas que constituía um verdadeiro totem para o pessoal que por ali andava. Os ruídos das agulhas eram acolhidos com gestos de aprovação dos vários adoradores e as contas saiam a uma velocidade estonteante. Com tanta agitação, começou a sair um cheiro a queimado da torradeira, sinal claro que as minhas torradas já estavam em fase carbonizada. O bom do empregado acorreu solícito à torradeira e de forma quase miraculosa salvou as torradas de uma sorte infliz. Preparava-se já para as servir a este pobre e exausto guerreiro, mas devo ter feito um gesto indiciador de que não me encontrava de bom humor. Sinal que foi claramente entendido porque de imediato ele resolveu minorar o negrume do pão, friccionado violentamente as duas torradas uma contra a outra, até que a maior parte do queimado se transformou numa nuvem de fuligem. Sorriu encantado com a sua proeza, só para se ver contrariado pelo meu franzir de testa algo pronunciado. Não se intimidou, partiu para servir outro cliente, com uma visão periférica da torradeira claramente deficiente, e lá se decidiu a fazer mais duas torradas para mim. A manteiga também não abundava. havendo apenas um pacote de 250g que ia sendo cortado pelo mais jovem dos elementos em serviço (que não tinha mais de 16 anos). O rapazinho cortou uma fatia de manteiga, mas não a conseguiu descolar da faca, tendo de improvisar, molhando o dedo na boca e retirando a manteiga com o agora mais oleado indicador. Perante este cenário repulsivo (julgava eu), um dos empregados mais velhos repreendeu-o vivamente e deu-lhe um forte calduço na nuca, para não voltar a fazer daquelas (julgava eu). A repreensão saiu de modo loud and clear, mas, surpresa das surpresas, a admoestação não tinha a ver com a forma de cortar a manteiga, mas sim com a quantidade servida. O mais experiente resolveu, assim, cortar uma nova porção, usando um método não muito diferente do seu jovem camarada e com um gesto que fazia lembrar o António Silva no Pátio das Cantigas a ensinar como se fechava a porta ondulada do estabelecimento comercial, disse qualquer coisa próxima de um "Viu - assim é que se faz". Este hotel dava só por si para escrever uma novela com alguma piada. O aeroporto de Varanasi tem um terminal nacional e um internacional. O nacional serve três ou quatro destinos e o internacional, tanto quanto me apercebi, serve apenas um - Katmandu. Feliz coincidência porque Varanasi é hoje o que Katmandu foi anos atrás - um paraíso para ocidentais hippies ou neo hippies fascinados por um oriente que só existe na cabeça deles e que me faz sempre lembrar aquela bela expressão brasileira "quem gosta de pobreza é intelectual, pobre gosta mesmo é de luxo". Muitos dos europeuss e americanos que vi poraqui são daqueles que se fascinam por tudo o que achariam revoltante nos seus países de origem e fazem pensar em como o ódio e a paixão são tantas vezes irmãos gémeos, filhos dilectos do casamento entre a ignorância e a estupidez. Falar em terminais é uma força de expressão porque se trata na verdade de duas salas separadas por um corredor e com um sistema de check in que vai alternando entre as várias companhias que concorrem no espaço indiano. O meu voo era Jet Airways e, apesar do enorme atraso e da confusão entre despachar mala, fazer o check in, passar pela segurança e caminhar pela pista fora em direcção ao avião, só posso dizer que foi uma das melhores companhias em que viajei - pessoal eficiente e simpático, boas refeições e bancos com um pouquinho mais de espaço que o habitual. Dado o atraso já me imaginava a perder a ligação em Delhi ou, mais grave do que isso, chegar eu e não chegar a mala. Felizmente, o voo para Delhi foi transformado num voo para Mumbai, com escala em Delhi, e as coisas lá se compuseram. primeira fase da viagem foi divertida, com uma emigrante indiana nos States, de regresso a Delhi para controlar um Bed and Breakfast que possuia na capital. Tal como é habitual nos indianos, perguntou logo tudo o que podia sobre a minha pessoa - casado? filhos? Pais ainda vivos? Trabalha em quê? Business or pleasure? Depois de uma bateria de cerca de 20 minutos, lá começou a falar sobre o seu restaaurante em LA e a vida que agora tem nos EUA e que não poderia ter na Índia. Viajava acompanhada de um amigo indiano de Boston e tinham acabado de visitar as grutas de Khajurao - as tais que são famosas pelo seu conteúdo erótico explícito. A segunda parte foi menos interessante, mas mais movimentada, com uma família de 7 indianos, especialistas em arranjos, permutações e combinações que foram experimentando todas as hipóteses de sentar todos os elementos próximos uns dos outros, com a restrição de a mãe ter de viajar ao lado do seu filho gorducho. Levantei-me quatro ou cinco vezes até se ter encontrado uma solução satisfatória que, curiosamente passou por terem ficado mais afastados uns dos outros do que quando se sentaram nos seus lugares reservados. Pelo menos ficou a animação. O hotel de Mumbai é o melhor que tive na Índia, fica perto do aeroporto, mas a mais de uma hora das zonas centrais da cidade, o que não é muito prático. Mumbai não é a Índia, ou melhor, já não é bem a Índia. É uma cidade a fugir ao sub-continente e a procurar o Ocidente. Os táxis são táxis e os tuk tuks ficam às portas da cidade, a zona financeira mimetiza as cities dos países mais desenvolvidos e o ritmo da cidade já não está tão próximo do buzinar constante das outras cidades indianas. A minha guia, uma cristã de Bombaim, casada com um cristão goês, serviu-me o habitual pacote turístico - visita às lavandarias populares de Mumbai, casa onde viveu Gandhi (transformada em museu/biblioteca), passagem por um conhecido templo jainista, vislumbre do espaço cerimonial parsi (comunidade pequena, mas extremamente influente e rica, originariamente da Pérsia e que tem como figuras conhecidas o maestro Zubin Metha e Freddy Mercury) com a sua curiosa prática de disposição dos mortos aos elementos para serem comidos pelos pássaros e processados pelas forças naturais, ida a igrejas católica e anglicana de Mumbai, um saltinho ao Taj Mahal (hotel que sofreu o atentado que mantém as forças de segurança indianas em estado de sítio) e umas fotos à Gateway, espaço de onde partiram em 1947 os últimos regimentos britânicos, assinalando o fim do Raj e o desaparecimento da Jóia da Coroa do império. Claro que a minha amiga queria correr estes espaço para poder chegar ao importante - as lojas de alcatifas, jóias e demais artefactos, onde tem comissão. Uma vez mais, não houve negócio e não há dúvida que não dou grande interesse aos guias. A minha guia ficou muito interessada por Portugal, uma vez que ela é uma Pinto e Rebelo, por nascimento, e uma deSouza por casamento. Lá a esclareci o melhor que pude, ao mesmo tempo que lhe perguntava se sabia a origem de uma palavra que usava frequentemente para descrever alguns bairros por onde passávamos - posh. Só sabia que queria dizer rico, mas desconhecia a raiz indiana da palavra, ou melhor, do acrónimo. Posh é uma expressão que começou a ser usada nos barcos da carreira das Índias e que tinha a ver com o facto de os mais endinheirados poderem escolher os melhores lugares e que, invariavelmente, estes eram Port Out, Starboard Home - Bombordo para a Índia e Estibordo de regresso a casa. Registou cuidadosamente a expressão para a usar num próximo tour e eu fico à espera de ter contado a história correctamente, mas vendi-a da mesma forma que ma venderam. Aliás, o meu percurso de bom samaritano tem andado pelas ajudas a espanhóis e franceses em estado de pânico. Isto de não se falar inglês tem os seus riscos. Ontem no aeroporto de Varanasi, um francês já junto à porta de embarque e depois de a speaker ter anunciado o final call para Delhi, perguntou-me placidamente, se ela estava a dizer que o voo para Delhi estava muito atrasado. Lá o esclareci e o rapaz saiu que nem um foguete para o avião. Outras francesas num museu de Varanasi interrogavam-se sobre a expressão AD nas datações e concluiram por um apocalíptico Aprés Dieu, o que lhes parecia muito estranho. Lá lhes disse que era latim e não francês, mas não ficaram muito convencidas. Os espanhóis quando perdem o guia que fala espanhol ficam como os japoneses sem o guia que fala japonês - perdidos. Já são uma meia dúzia que tenho de guiar e agradeço aos deuses que levaram as iluminadas autoridades portuguesas de outrora a não dobrarem filmes. Caso contrário, hoje em dia estaria como os espanhóis e quando me lembrasse do "E tudo o vento levou", estaria a ouvir o Clark Gable a responder com desprezo olímpico para vivian Leigh - "Francamente, minha querida, estou-me nas tintas". Uau!

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