Hoje tinha tudo preparado para me abalançar a uma viagem sonhada desde a infância - visitar o Ras Musandam. Desde que li pela primeira vez “O Segredo do Espadão”, tinha ficado com a ideia de repetir os passos do Philip Mortimer na demanda da base secreta de onde sairia o Espadão para derrubar os exércitos do pérfido Basam Damdu e seus sequazes. Não que eu fosse um apaixonado pela dupla de heróis, as minhas inclinações foram sempre mais na direcção do malvado, traiçoeiro e criminoso coronel Olrik, mesmo quando ele não era mais do que a cobaia das experiências do Dr. Septimus ou se comportava como um fraco nas guerras da Atlântida. O Olrik sempre me seduziu, não tinha causas, não acreditava em nada e não confiava em ninguém, ou seja, era a mais perfeita encarnação do epitáfio que desejo - não cria em nada, não acreditava em ninguém, suspeitava de tudo ou, mais em forma de trocadilho, não cria em nada, mas queria tudo. Pois é, o Olrik era um cínico-céptico como já não há. Ora a minha homenagem de viagem ao grande Edgar Pierre Jacobs ficou comprometida quando a funcionária do hotel achou por bem dizer-me que o tour começava por volta das 9.30, o que já me tinha parecido tardio para o tipo de viagem em causa, e ele de facto começava às 7 da manhã. Como é fácil perceber, apesar da minha importante pessoa, o tour arrancou sem mim e lá tive de me contentar em fazer uma visita mais completa ao Dubai e esperar que amanhã o tour dos seis emiratos (só fica de fora o Abu Dhabi) se cumpra sem maiores sobressaltos. Resta-me a penitência perante a memória do nosso EPJ e esperar por outra oportunidade para imaginar o espadão a sair das águas, no meio de uma encenação operática, tão cara ao nosso autor. De facto, a ópera foi a sua primeira paixão e as aventuras do Blake and Mortimer sempre seguiram uma linha muito próxima dos estereótipos operáticos. Bem, podem obstar, afirmando que o modo canónico das óperas é barítono/baixo tenta evitar que tenor e soprano acabem na cama, fazendo todos os possíveis para anular este quadro e que nas aventuras de B&M nem sequer há mulheres. Olhem com cuidado para as vezes que o Blake desmaia e tem de ser salvo durante “O Segredo do Espadão” e digam-me se ele não fazia um óptimo soprano? Adiante! Sem Ras Musandam, parti para uma visita mais demorada ao nosso Emirato e ao percorrer uma alameda de nome Al Diafa (hospitalidade em árabe), comecei a pensar nas influências do árabe que restam em língua portuguesa. Na verdade adiafa não é uma das palavras mais usadas em língua portuguesa, mas existe e até dá nome a restaurantes, significando na generalidade uma festa que é dada pelos patrões aos trabalhadores - sentido próximo de hospitalidade. Não posso garantir que nos locais do Portugal pré-histórico, como afiançava um antigo professor, se falasse fenício… e do bom, mas árabe deve-se ter falado durante alguns séculos e se não era bom, devia ser pelo menos razoável. Não costumo apreciar particularmente os Hop on Hop off tours, mas considerando o calor exterior ainda acabam por ser uma boa opção. Arranquei do já referido Mall of the Emirates, onde comprei bilhete junto ao hipermercado Care for, de acordo com a pronúncia da senhora do hotel. A minha compreensão estava um pouco lenta, provavelmente pela desilusão causada por não ir onde queria, e só à terceira insistência no Care for (quando esperava o completar do care for com um qualquer what) é que percebi que estávamos perante a presença dominantes dos hipermercados locais - o nosso saudoso Carrefour. Descemos a Xeque Zayied Road que deve ser uma das maiores estradas do mundo, uma vez que tem só 170 km e acaba na capital dos EAU - Abu Dhabi, e fui vendo até que ponto esta cidade é feita de áreas funcionalmente especializadasa - zona de diamantes, cidade da Internet, cidade dos carros, cidade do ouro, etc. Cada local tem a sua concentração de lojas especializadas. Cruzei o Burj Dubai, o maior edifício do Médio Oriente e um dos maiores do mundo e que parece ter sido desenhado pelo mesmo arquitecto da Sears Tower de Chicago. O guia gravado repetia que os EAU são um país islâmico e que Islão quer dizer submissão, não fosse alguém esquecer os ensinamentos do profeta. Tão citados como o profeta só os membros diversos da família Maktoum que fizeram deste pequeno local lamacento de pescadores uma cidade vibrante e economicamente forte. É mesmo possível visitar o antigo palácio dos Maktoum que agora está transformado num museu, rodeado por uma Heritage Village onde é possível ver as antigas habitações dos pescadores locais. A cidade está dividida pelo Ras al Khor, geralmente conhecido por Dubai Creek que é apenas um braço de mar do golfo pérsico ou, como aqui é chamado de forma mais politicamente correcta, o golfo arábico. À volta deste braço de mar, florescem as zonas mais emblemáticas da Dubai tradicional - Deira, de um lado, e Bur Dubai do outro. Acabei por fazer uma viagem de uma hora ao longo do Dubai creek num barco tradicional - Dhow e pude observar como a cidade evoluiu em camadas, desde os souks tradicionais, que se mantêm vivos, até às novas zonas em permanente construção e onde as novas tecnologias vão substituindo os negócios tradicionais dos têxteis ou do ouro. As paragens do tour fazem-se em torno das landmarks e dos centros comerciais. Um deles - Wafi - é um monumento ao kitsch - tudo é alusivo ao Egipto, com obeliscos, pirâmides, colossos, faraós e até um spa dedicado, como já devem imaginar, à nossa amiga de beleza mítica e de nariz não menos memorável, Cleópatra. À tarde fiz uma incursão por um dos conjuntos de ilhas em forma de palmeira que foram conquistados ao mar - Jumeirah Palms Island, onde se encontram parques aquáticos, uma reconstrução da Atlântida (!!) e onde se podem observar golfinhos. As ilhas artificiais que formam o “The World” só são visitadas de barco ou de helicóptero e para os que estão interessados em comprar alguma propriedade aqui na zona, parece que as mais modestas habitações estão acima dos 5 milhões de USD - uma bagatela. Os planos em curso para o Dubai até 2020 são estonteantes e passam por construir um parque temático cinco vezes maior do que a Disneylândia e conquistar ao mar uma área maior do que Hong Kong. A avaliar pelo que vi, rapidamente a área de construção passará para o dobro e o caos urbano deverá instalar-se. Às 6 da tarde, quando voltava para o hotel, sob um belo pôr do sol, pude observar uma cena cinematográfica. Por todo o lado, saíam operários da construção, ao mesmo ritmo acelerado, com o mesmo fato macaco azul, com a mesma tez de oriundos do subcontinente indiano. Se as tailandesas e filipinas abundam nas lojas e restaurantes, a construção civil parece um domínio de cingaleses, indianos, paquistaneses e bangladeshis - hindi e urdu são ouvidos por todo o lado. Depois de um jantar ao som de êxitos de Bollywood, retorno ao quarto de hotel e assino esta crónica pouco inspirada, dada a desilusão da jornada. Amanhã há mais e, espero eu, com muito mais ganas narrativas.
sábado, 10 de outubro de 2009
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