sexta-feira, 23 de outubro de 2009

Os portugueses e o tiro ao alvo

Hoje visitei as esculturas da ilha de Elefanta e pela primeira vez tenho largura de banda suficiente para carregar uma fotografia. Aqui fica o slum especializado em actividades de lavandaria e que fica paredes meias com as concorridas linhas de comboio de Mumbai. O barco para Elefanta parte da célebre Gateway of India e a viagem demora quase uma hora, passando perto de várias ilhas ao largo de Mumbai, ela própria constituída por várias ilhas. No caminho tomei conhecimento com um miudinho indiano de ar intelectual que me foi fazendo perguntas várias sobre o que fazia e de onde vinha. Quando lhe perguntei em que classe (grade) andava, respondeu-me que o seu grade era bright, very bright!!! E era mesmo um bright boy. As esculturas são magníficas, mas foram interrompidas e apenas uma das cinco grutas exibe trabalho finalizado, com estátuas principalmente de Shiva, mas também de Rama e Vishnu, com cenas diversas da mitologia hindu. As estátuas de entrada estão muito danificadas e quando soube da razão, arrependi-me de dizer ao bright kid de onde vinha, com receio de alguma merecida retaliação. Então não é que os primeiros portugueses que ocuparam Bombaim usaram a ilha como armazém, paiol e campo militar e fizeram tiro ao alvo nas estátuas!!! Como desculpa fica apenas o facto de ser indesmentível que, se outro mérito não tinham, os nossos antepassados sabiam escolher belos cenários naturais para as suas cidades. A baía de Bombaim é lindíssima e a marine drive, uma marginal de cerca de 7 quilómetros é espectacular. Na volta, tive a oportunidade de verificar o enorme movimento no porto de Mumbai e nas ilhas adjacentes, onde se procede ao transporte e refinação do petróleo vindo ali do lado, dos vizinhos do outro lado do mar Arábico. A minha guia continuou a sua inquirição sobre usos, costumes e língua de Portugal e ficou muito contente em saber que Pinto significava little chiken. As suas perguntas estenderam-se ao Brasil e ao aspecto físico de portugueses e demais europeus que, para ela, se pareciam todos uns com os outros, sendo-lhe impossível saber se este era russo e aquele alemão, ou se aquela era espanhola ou irlandesa. Julgava que todos os portugueses eram mais para o escurito e para o baixito e lá lhe tive de dizer que, embora não fosse o mais fiel representante da raça lusitana, os portugueses têm muitas formas, cores de cabelo e de olhos. Portugueses loiros foi uma certa surpresa para a inquisitiva guia. De seguida, passámos paraa discussões em torno da moral e dos bons costumes, desejando saber se era verdade que as brasileiras iam para a praia com aqueles biquinis pequeninos que se vêem nas notícias sobre o Carnaval e se não tinham vergonha de aparecer assim ao pé dos pais! Esclareci-a o melhor que pude e tive ocasião de dizer que até havia quem fizesse topless, novidade que a deixou mais ou menos perplexa, especialmente por não se inibirem desses actos descarados em frente de quem as quisesse ver. Ao saber que as lusitanas também se punham nesses preparos, mais de cara à banda ficiu. Confessou que na Índia, as mulheres só se banham na praia completamente vestidas e que os homens apreciam ir à praia apenas para ver as turistas e os seus reduzidos bañadores. Aliás, explicou que as mulheres tradiconalmente devem caminhar sete passos atrás dos homens e evitar quaisquer sinais de afecto, daí ser mais fácil ver-se homens de mãos dadas (afiançando vivamente que não são gays) do que casais de sexos diferentes. A tarde foi passada no Prince of Wales Museum (que agora tem um nome bem mais indiano, mas que a minha ignorância de hindi não permite reproduzir de memória e sem erros) e a passear em modelo sem destino por esta interessante cidade que se começa a parecer com as restantes metrópoles asiáticas e a afastar-se da matriz indiana. Depois de duas horas de luta no trânsito, um vetusto táxi trouxe-me aaté ao hotel - Marigold Residency, para um merecido e retemperador jantar. Amanhã, ala para Goa.

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