quinta-feira, 15 de outubro de 2009

Perfume de Elefante




Em primeiro lugar, um aviso à navegação para os mais puristas da língua - o blog, tem erros, falta de pontuação e gralhas. Eu sei! Mas escrevo estas crónicas nos intervalos em que a net funciona, não tenho spelling checker no meu netbook e tenho de me despachar em 20 minutos, no máximo. Por isso, nunca edito nem corrijo. Tem desvantagens de forma, mas tem mais autenticidade porque é tudo ao fluir da pena. É por isso que horas não são oras e espáduas às vezes ficam espadas e por aí adiante. De manhã, uma grande contrariedade. Não há água! Oh inclemência, oh martírio, estará periclitante a sorte deste nobre e querido menino. Vou para o pequeno-almoço completamente irritado e nem a torrada com uma manteiga insípida e um café aguado desliza bem. Regresso a tempo de tomar um duche rápido com água fria, que a caldeira demorava a aquecer, provoco uma pequena inundação, faço a mala e aí vou eu para o Forte de Jaipur, obra interessantíssima, mas mais interessante ainda foi a subida até lá por uma colina extremamente engarrafada e com choques frontais, ultrapassagens no limite, derrapagens e com veículos dóceis, mas por vezes um pouco cansados. Já perceberam que os veículos estão vivos e dão pelo nome de elefantes. É verdade, fiz o percurso de 20 minutos no dorso de um pacato elefante que, por sorte dele, só teve de alombar com os meus 92 ou 93 kg., mais o peso negligenciável do cornaca. Já o seu vizinho(a) de trás manifestava mais dificuldades, tendo sido ultrapassado por dois competidores mais poupados e a correr em negative split (como mandam as regras). Olhando com mais pormenor, percebi as dificuldades do paquiderme, nas suas costas sentava-se um casal espanhol bastante ruidoso que, juntos, deviam pesar uns 250kg. Ele há elefantes com azar. O trabalho é feito por 115 mudos primos afastados dos mamutes que lá vão colina acima colina abaixo, justificando com o suor do rosto, os míseros cuidados que lhes são dedicados. Mas consolem-se, o trabalho já não é tão árduo como antigamente. Até há poucos anos, trabalhavam de sol a sol e alguns chegavam ao fim do dia mais mortos que vivos. Entrou em acção uma liga de defesa dos direitos animais que conseguiu interceder pelos pobres e limitou os trajectos diários a 4. Assim, chegam de manhã cedo e lá para o meio-dia têm o trabalho concluído e vão para casa para as massagens devidas a atletas de alta competição. A viagem em si mesma não teve grandes emoções. O balançar ritmado dificulta as fotografias, mas como se vai agarrado a uma espécie de grade que nos protege das quedas, a coisa até não vai muito mal. O único problema é que o chão está coberto de excrementos dos transportadores (sempre são 115) e de vez em quando, as trombas vão ao chão, inspiram e lá voa qualquer coisita em direcção ao cornaca e ao passageiro. Não fui dos mais afectados, mas as minhas calças já não estão virginalmente preservadas e o meu cheiro ficou marcado para o resto do dia, tendo de usar dose extra de repelente porque durante uns 10 minutos, eu oferecia néctar e ambrósia para os insectos que pairavam pela zona e que incluíam as maiores libelinhas que alguma vez vi. Como disse, a visita vale a pena e dispensam-se as descrições arquitectónicas ou os comentários do guia relativamente ao número de mulheres e concubinas do marajá de Jaipur, desde a constituição do reino, ao seu trabalho para o grão mogol e por aí adiante. Foi uma visita de cerca de duas horas que constituiu um tempo bem passado. Desci depois para o Wind Palace onde o marajá passava os meses insuportáveis de Verão (temperaturas perto dos 50 graus) e que fica no meio de um lago artificial. Aí caí na asneira de aceitar fotografar um grupo de raparigas indianas que, obviamente, pediram de imediato dinheiro. Quando dei, saltaram mais umas que correram na minha direcção - velhas, novas, assim assim, mas todas mais magras do que as modelos anorécticas dos desfiles de Milão. Perante a minha recusa, a grávida apontou para a barriga e sinalizou que tinha de comer e, para o caso de eu não acreditar na gravidez, baixou o vestido para que eu visse pela dimensão do peito que estava mesmo grávida. Movida pelo gesto da sua companheira, outra das raparigas resolveu também mostrar os seus dotes peitorais, apontando para a minha mão e fazendo sinal de agarrar. Lá consegui dizer que não que já não havia mais dinheiro para ninguém, mas lá apareceu o guia a dizer que eram um grupo de very dity hookers (se ele não dissesse eu não dava por nada!!) e no meio da confusão lá me escapuli para o carro. Bem, safei-me das dirty hookers, mas não me safei do guia que, como é proverbial, corta duas visitas a monumentos com idas a lojas onde tem comissão e que são invariavelmente as melhores da cidade, com artistas únicos e objectos da maior qualidade. A minha sorte é que digo sempre que vou em viagem de três meses e que não é fácil transportar muita bugiganga. Nunca ficam condoídos e dizem logo que podem mandar tudo pelo correio, do Japão à Europa e de África aos Estados Unidos. Depois, faço o número do português pobrezinho, mas este resulta mal porque andar três meses por fora custa algumas coroas e já que o faço, bem posso dar algum a ganhar a indianos mais pobres. Lá acabei por comprar umas lembranças natalícias em período de Dhivali e arranquei para o resto da visita a um observatório astronómico notável, com cálculos de hora com margens de dois segundos e feito há mais de 100 anos, e que permite, para os que são mais desses terrenos, traçar mapas astrológicos, com ascendentes e descendentes (estes não sei se existem). Depois do observatório fui ver o palácio, bem interessante, dos marajás de Jaipur, com histórias várias, incluindo a de um deles que media 2,10m, pesava 220 kg e bebia 5 litros de leite ao pequeno-almoço. Tirei umas fotos pagas aos guardas e fui almoçar. No regresso, mais uma incursão por lojas, para dizer que não queria mais tapetes, tecidos, móveis, jóias, mas escreveram o meu nome num bago de arroz!! E lá tive de comprar qualquer coisita para justificar a amabilidade. De regresso, fui surpreendido pela mudança de hotel, mas vá lá que este é um bocadinho menos mau que o anterior e o ar condicionado funciona. Um chuveiro (frio) lá me tirou parte do cheiro a paquiderme. Amanhã, mais 5 horas de viagem, a caminho de Agra e do Taj Mahal que só verei no sábado porque sexta é dia santo dos muçulmanos e está tudo fechado.

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