Hoje nao ha acentos nem cedilhas. Estou a escrever de um cyber cafe. Tenho estado sem net, o que nao e muito agradavel. Ontem fiz a jornada de Jaipur para Agra, entre os acompanhantes do costume - vacas, caes, mercados de rua, lixo (muito), excrementos (ainda mais) e uma pequena chuvada para arrefecer os animos. Nesta auto-estrada, as faixas eram inteiramente livres e veiculos em contra-mao, pelo menos pelos nossos padroes, eram mais que comuns. Tinha agendada uma visita ao complexo de palacios e templos de Fatehpur Sikri e assim fiz. Fui acompanhado por um esperto guia muculmano, cheio de manha e de recursos que me orientou no complexo esquema de edificios. Em primeiro lugar, vale a pena dizer que a visita e um dos musts desta parte da minha jornada. O complexo e lindissimo e deve a sua origem ao grande imperador Akbar, rapaz dado a sincretismos religiosos e matrimoniais, cuja tolerancia ficou tao assinalada como a diversidade cultural das suas tres mulheres (fora as concubinas reais que eram mais que muitas). Durante alguns anos, ao longo do seu reinado, Akbar pretendeu mesmo fundir os islao, o cristianismo e o hinduismo numa grande religiao universal, ideia esta que nao esta muito longe da simbologia da bandeira da Uniao Indiana - laranja dos hindus, branco dos cristaos e verde dos muculmanos. Neste espirito, Akbar casou com uma muculmana turca (conhecida pela sultana), com uma crista portuguesa de Goa, de sua graca Maria, e com uma hindu. No entanto, apesar do melhor dos seus esforcos Akbar teve muitos anos sem filhos ate que finalmente a sua esposa hindu lhe deu um rapaz que iria ser o seu herdeiro. Em homenagem aos contributos de um sufi a quem Akbar atribuiu o milagre do nascimento, construiu um templo branco, no meio do recinto de templos que forma Fatehpur. Nesse templo particular dedicado ao sufi, e suposto (ja vamos ver em troca de que) pedir tres desejos - um para o proprio, outro, para alguem que se ama e outro para um amigo ou familiar. Alias, pelo que percebi, os dois ultimos podem estar relacionados com quem quer que se deseje. Estes desejos sao realizados, atando uma fitinha previamente fornecida a uma das janelas rendilhadas em pedra do templo. Julgava eu que tudo isto se passava na maior pacatez e sentido de hospitalidade indiano, mas nao. Fui encaminhado para uma area reservada, onde os ajudantes do iman residente me explicaram como e que o processo decorria - comparava-se um pano para sari para oferecer aos pobres, bem como a fitinha e la poderiamos ir ao pe do sufi, depositar o pano e atar a fitinha e expressar os desejos (que deveriam ser secretos para se poderem realizar). E o preco para tamanha generosidade de pedidos - tres nem menos? Comecava nas 1500 rupias e continuava por ai acima. Eu, como profundo crente e sobretudo como protector das viuvas e dos orfaos, la acedi a comprar o paninho mais barato para poder ir ver a tal procissao das fitas atadas as janelas de pedra. Parti com a confirmacao do guia e do jovem assistente do ima que aquele dinheirito ia ser bem empregue, que nao estavam ali para enganar ninguem e que nao forcavam ninguem a comprar, bla, bla, bla. Continuei a visita do complexo que, como disse, merece a pena ser visto e sentei-me a espera que o guia fosse a mesquita realizar as suas obrigacoes de oracao - sempre era uma sexta-feira. Enquanto o guia fazia as suas rezas a hora certa, uns miudos que tinham corrido ao meu lado durante a subida de tuk tuk, vieram outra vez ter comigo. O primeiro queria saber quanto valia em rupias, a moeda de 50 centimos que lhe tinha sido dada por um espanhol forreta e depois de saber que so valia cerca de 35 rupias e de dizer um palavrao qualquer em hindi, dedicado provavelmente a nobre mae do subdito de Juan Carlos, perguntou-me se eu aceitava a moeda de volta, mesmo que em troca de apenas 10 rupias. Logo a seguir perguntou-me se os espanhois eram todos assim e se eu, porque recusara a troca, tambem era espanhol. Como nao acedi aos pedidos de troca nem de compra de postais, la lhe dei uma esferografica para ver se o jovem se ia embora. So que o colega, tambem dos seus sete ou oito anos, era um petiz mais arguto e disse-me logo - como e que pode dizer que nao tem dinheiro para me dar, se comprou essa porcaria do pano, mais a fitinha que lhe devem ter custado ai umas 500 rupias. Respondi-lhe que tinha custado um pouco mais e imeditamente franziu o sobrolho, abanou a cabeca e fez um gesto esclarecedor em qualquer lingua quando nos queremos referir aos meritos intelectuais daquele com quem falamos. Continuou imediatamente o miudo, dizendo: deu esse dinheiro e metade e para o guia, uma grande percentagem e para o ajudante e so o resto e que vai para caridade - eles sao uns grandes vigaristas. Eu, ando aqui com postais mas nao forco ninguem. Quem compra compra quem nao quer, nao quer. I don't push anyone. Perante tao clarividente e honesto jovem, tive de me render a evidencia - nao passo de um patego ocidental, com a agravante de ate saber que esta a ser enganado e ainda assim nao protesta e nao diz nada - e uma especie de reverse colonialism. Enfim! O guia la voltou dos seus deveres religiosos, correu com os dois miudos, dizendo que eram uns malandros(!!) e encaminhou-me para o local em que podia exprimir os meus desejos, completamente abencoados nao so pela minha dadiva, mas tambem por estarem a ser feitos numa sexta-feira - tudo muitissimo auspicioso. Quanto aos desejos propriamente ditos, tenho de os manter para mim, sob pena de nao se concretizarem. Esqueci-me foi de perguntar se essas aspiracoes eram de todos os tipos ou se as mais pecaminosas ideias estariam excluidas do rol. Optei por exprimir desejos totalmente impuros para que, em caso de nao realizacao, se possa dizer que nao foi a divindade que nao cumpriu, mas fui eu, que pelos meus impuros pensamentos e palavras, actos e omissoes (que tambem devem existir no Islao), me candidatei a um violento correctivo. Exprimir desejos e aceitavel, mas ha que ter tento, controlo e exprimir tudo nos ditames correctos da submissao que, como ja disse anteriormente, e a ideia chave do Islao. Portanto, la vim do templo mais impuro do que tinha entrado, mas satisfeito por ter tao impuros desejos, mesmo num espaco sagrado e regressei ao tuk tuk para descer a colina ate ao carro e ao meu condutor, o nosso velho conhecido Mr Singh, um homem que tem por habito, nas rectas, tirar as maos do volante e comecar a rezar. Rezar estav quase eu a comecar quando via o numero de carrocas, vacas, tractores e motoretas que passavam em contra mao, rente ao nosso Tata Indigo que , apesar do modelo nao o indicar, era branco. Seguiu-se a troca de guias e la fui ate Agra com um novo e sabedor mestre de cerimonias que me disse imediatamente o que poderia mostrar em Agra, para la das reliquias que sao o Taj Mahal e o forte de Agra.
sábado, 17 de outubro de 2009
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