Ha hora aprazada, la segui viagem de Agra para Varanasi. Tinha reserva num compartimento de 4 camas em 2nd class AC, uma das muitas classes que definem os caminhos de ferro indianos. Esta rigida estratificacao deve ser o resultado, ou melhor, o somatorio de uma sociedade de castas que aderiu ao CF lancado pelo colonizador elitista. Se os britanicos nao gostavam de se misturar com racas inferiores, tambem os membros das castas superiores indianas nao apreciavam por ai alem o convivio com grupos inferiores. Assim, e depois de pagar ao carregador para me por a mala no comboio - cama 27 da carruagem 1 - fiquei confrontado com compartimentos diminutos e com uns reposteiros mais velhos que o Matusalem, que ja de si nao era novo quando morreu. Procurei a minnha bela berth e assim que entrei no compartimento, verifiquei que o beliche 27 era na parte de baixo e que por cima de mim havia outro convidado das Indian Railways, de camisolinha interior de alcas e de sorriso no rosto e do lado contrario, estava ocupada outra imaculada caminha azul, com uma simpatica indiana a resmungar qualquer coisa. Entre as camas sobra um espaco diminuto onde nao cabe uma mala, mas que ja tinha a malinha de cabine da indiana e os sapatinhos da dita, mais as sandalias do rapaz de bigode e sorriso no rosto colocado por cima de mim. Tentei mover a mala da indiana para passar e colocar os meus haveres a bom recato, mas a indiana, com uma intepretacao notavel do discurso de Obama, mas em versao negativa, la me ia respondendo a pergunta "Posso desviar a sua mala" com um solene " No, You cannot", assim mesmo, sem abreviatura. Depois de mais tres perguntas sobre os meus movimentos, que me valeram a mesma resposta, "No, You cannot", suspirei e resolvi nao fazer ondas, colocando a mala e a mochila na minha alegada cama, desembrulhei o cartaozito que continha dois lencois e um cobertor, estendi um a cobrir o virginal assento, coloquei o outro por cima, dado que o ar condicionado estava para o fortezinho, desdenhei o esburacado cobertor e estendi os pes para cima da mala. Nao retirei os sapatos porque estava no andar de baixo e ja tinha visto passar um roedor que, embora de tamanho diminuto, nao quis tentar com uma refeicao facil feita de dedos dos pes. Julgo ate que tudo esta pensado nestes comboios, o tamanho dos ratos sobe a medida que desce a qualidade das cabinas e das composicoes. Assim, havera apenas amostras de rato em 1st AC e depois ratos de campo ate se chegar as ratazanas que tinha visto na estacao de Agra, mas que nao tinham autorizacao para entrar em carruagens de classe e com ar condicionado. Uma vez instalado, procurei colocar a minha almofada contra a janela, de maneira a poder usufruir da leitura do meu Kindle, mas foi sol (ou noite) de pouca dura porque, como ja devem imaginar, quando perguntei se podia manter a luz acesa sobre a minha berth, a indiana, ja coberta pelo lencol, respondeu ainda mais assertivamente "No, you cannot". Com esta prova de capacidade coloquial, la me recostei o melhor que pude e tentei descobrir um nicho entre a cortina e a janela, para ver a paisagem nocturna e passar um bocadinho melhor as 12 horas e meia de viagem. Mas ate este pequeno prazer me foi negado porque o vidro estava com uma fractura rendilhada que impedia qualquer visao. Voltei a suspirar e entre roncos de ressono do Indiano das alcinhas e conversa no sono da indiana obamista, la fui passando a noite sem pregar olho. Do outro lado do corredor, no lado onde so ha duas camas, vi passar japoneses, holandesas, ingleses, alemaes, passando a acreditar que a classe em que viajava e, como dizia o guia, a classe de eelicao dos CF indianos. As carruagens indicavam que a ultima desparasitacao ja havia sido feita ha algum tempo e aparentemente, a que havia sido prevista para Setembro nao se tinha realizado. Os 600 km em 12 horas justificam-se nao so pela velocidade estonteante do comboio, mas principalmente pelas inumeras paragens que demoram 10 20 ou mesmo 30 minutos. Estas paragens dao para tudo, incluindo entrada de vendedores, de pedintes e de gente que se limita a espreitar para os compartimentos, provavelmente a espera de um olhar conhecido. Quanto a mim, la me debatia com um problema de tipo capitao Haddock, so que em vez de tentar descobrir se devia dormir com a barba para dentro ou para fora do lencol, procurava decidir qual a altura a que devia por os pes. A partir das 3 da manha, ja nao tinha posicao e o corpo estav completamente dorido da desconfortavel posicao. Achei que ja tinha a minha conta e acabei por levantar a parte superior do improvisado colchao e prendi essa parte a parede, ficando com um banco mais ou menos normal. Embora o vizinho de cima tenha sido rapido a dizer que nao era assim que as coisas funcionavam, reolvi ignora-lo e la consegui passar pelo sono. Quando acordei, la para as 4, ja nao tinha os meus acompanhantes ao lado e em cima e presumi que ja tinham saido de cena, numa qualquer estacao do percurso e gabei-lhes o sentido de orientacao porque ninguem indica a estacao em que se parou e so o cumprimneto estrito dos horarios garante que estamos a sair na estacao exacta. A casa de banho do comboio merece os maiores encomios, uma vez que nao destoa do restante ambiente e nao implica nenhuma dissonancia cognitiva. Esta, apesar disso, num patamar que oscila entre o filthy e o awful. La continuei viagem, com mais uma visao de um ratito, nao sei se o mesmo do inicio da viagem ou um parente proximo e, com o raiar do dia voltei ao meu Kindle e a uma leitura muto academica - Stigler a perorar sobre os Anial Spirits smithianos e nao so. Assim que retomei a leitura, o meu compartimento que tinha estado vazio por uma duas horas, voltou a ser ocupado agora por um indiano de aspecto sombrio e que parecia um pouco agastado com o mundo. Com a leitura, as horas la passaram mais rapidamente e pelas 12.30 cheguei a Varanasi, tendo-me dirigido para o hotel Siddharta que me aguardava ansiosamente. O hotel, como quase todos onde tenho pernoitado, e um bom exemplo de decadencia. Provavelmente ja teve melhores dias, mas agora e uma clara espelunca, mas com algum estilo. Neste hotel nada funciona - autoclismo, televisao, telefone, refeicoes. Pedi para mudar de quarto, mas explicaram-me que o mal era geral e que os outros quartos nao estavam melhor. Resolvi ficar. Os lencois estao lavados, mas as nodoas abundam e as toalhas sao mais ou menos fofas, mas a brancura de outrora foi substituida pelo belo tom antracite que esta muito em moda nos hoteis indianos e que fica muito bem com o estado das paredes e do chao. Julgo que seja uma moda meia estacao e ate aos proximos desfiles de Paris e Roma, esta vai ser a cor que encontrarei. Como nao tinha drmido nada no comboio, dediquei a tarde ao repouso e adiei a visita a cidade propriamente dita para um reconfortante amanha. O jantar foi como sempre muito bom, embora me esteja rapidamente a converter ao vegetarianismo, nao por qualquer operacao de transformacao mitico-religiosa, mas porque estou farto de borrego/cabrito e de galinha, duas das carnes que menos aprecio. Estava desejoso de ver o culminar do mundial de F1, mas com a televisao fora de combate, nao pude acompanhar o GB brasileiro nem sequer pude seguir as vicissitudes da actuacao de uma jovem promessa do cricket australiano que da pelo nome de Moises Henriques. Entao nao e que o rapaz me tinha surgido na vespera num oraculo de TV que declarava que esta jovem sensacao do cricket australiano tinha nascido no Funchal e era conterraneo do world famous Cristiano Ronaldo? Pois e, o cricket nao tem merecido as nossas atencoes, mas deviamos comecar a olhar para este desporto com outros olhos.
segunda-feira, 19 de outubro de 2009
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Nice post - Moises Henriques ..Keep Posting
ResponderEliminarRon
Moises Henriques
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